Os anos 90 ainda vão voltar… (5)

A década de 90 vai voltar. Logo que acabou, o cenário artístico da época foi relegado a um segundo plano porque a crítica achou que foi uma década perdida, sem nada de novo. Nirvana e o grunge, nada mais que um revival do hard rock de vinte anos antes. Estavam enganados. Tudo mudou. A década de 90 foi brilhante. Os criticos da vez agora têm certeza que a primeira década deste século foi uma negação. Uma década perdida. Cheia de bandas de eletropop sem nenhuma criatividade, que somente pensam em imitar bandas de duas décadas para trás. Joy Division, e um monte de bandas quase eletrônicas. Information Society. I´m losing my edge. O que vem aí? Uma geração nova que rejeita o conformismo dos anos 00. Gente boa, repleta de boas referências do trip hop e do gótico 4AD. Arte. Ou barulhentos, feito Sonic Youth. Ou vivos, como o britpop. Viva a nova década. Viva vinte anos depois.

Os Outliers I – Jeremy Enigk/Return Of The Frog Queen (SubPop)

Essa é uma seção dedicada a álbuns cujo impacto foram zero: não geraram filhos bastardos, nem tampouco seguidores. Mas são incríveis do ponto de vista dos críticos Erráticos. São daqueles trabalhos que você se pergunta: de onde afinal veio isso?

O que acontece quando o líder de uma banda que explodiu no cenário independente – banda essa que se tornou a base de um estilo musical que gerou algumas das piores bandas da história [e que nada tem a ver com o sentido original do termo ou mesmo do que a banda tocava] –  decide gravar um “álbum solo”? Em 99% dos casos ou sai uma versão light do que a banda original fazia, ou então vem um álbum acústico mas que lembra muito a banda original.

Era o que todo mundo esperava quando Jeremy Enigk, vocalista e líder de fato do Sunny Day Real Estate, anunciou seu primeiro álbum solo, Return of the Frog Queen pela SubPop em 1996. Até então, o Sunny Day Real Estate estava cotado como a grande promessa pós-Nirvana por parte da crítica, com seu rock que misturava os tempos musicais quebrados e matemáticos do Fugazi com a emotividade dos vocais de um Radiohead, sendo a primeira banda marcada com a maldição do “emocore” (emotional hardcore). Mas basta ouvir Circles para ver que não há qualquer semelhança com o que virou emocore na década seguinte.

Acontece que o álbum solo de Jeremy Enigk nada tem a ver com Sunny Day Real Estate. Aliás, nada tem a ver com que viria a fazer nos anos seguintes. Ou com qualquer coisa que se fazia na época. Seus álbuns solos seguintes, inclusive, soam exatamente como álbuns acústicos do Fire Theft (sua banda pós-SDRE).

Aparentemente, entre o primeiro e segundo álbum do SDRE, Jeremy Enigk passou por uma crise espiritual e quase não grava este último. Quando o LP2 foi lançado, inclusive, a banda já havia dissolvido e dois de seus membros (Nate Mandel e William Goldsmith) foram para o Foo Fighters, enquanto Jeremy anunciava que se retiraria da música.

Esse período não durou muito: em 1996, um enxuto álbum de apenas 10 faixas, intitulado Return of The Frog Queen, aparece para desconcertar todo mundo. Os fãs do SDRE não entenderam nada, os críticos do SDRE se surpreenderam e o álbum inclusive parou em algumas das listas de melhores daquele ano. Mas na verdade, poucos ainda falam nele, já que além da sombra do SDRE ser muito maior, o álbum é um ET musical: não se parece com nada que veio nem antes, nem depois.

Trata-se de um álbum pop-folk orquestral, com a paixão de um verdadeiro punk rock, a intensidade dos lamentos de um Kurt Cobain e arranjos que enfiam tubas, clarinetes, violinos e tudo o que há direito. Esse equilíbrio de ser um álbum acústico longe do voz-violão estava há anos-luz do que se fazia na época. Lembrem-se: era o ápice dos Acústicos MTV e Enigk fez tudo ao contrário.

O álbum começa com os delicados toques de violão de Abigail Anne, que de repente se abrem para um carrossel de instrumentos que transforma tudo numa opressiva imagem onírica. Quando você se dá conta, o caminhão sonoro já passou por cima de você. Sem tempo de se recuperar, cai-se na faixa título, que poderia acompanhar um filme de Tim Burton, com sua tensão crescente e a sensação de que a qualquer momento sairá uma Rainha de Copas para te liquidar num canto. Enigk, com seus vocais extensos e graves, é o perfeito contraponto aos ricos arranjos da orquestra.

Não se trata de um álbum feliz: claramente, é um álbum de alguém que perdeu algo (pelos temas, provavelmente a fé) e busca se reencontrar, mas em lugar da felicidade pura, acaba num parque de diversões em Gotham City. Não à toa, Carnival é um dos destaques, com seu arranjo a là carrousel e vocais distorcidos, que aparentemente aludem à essa descoberta de fé, mas nada tão simples quanto uma música crente. Sim, Enigk usa religião como inspiração para esse álbum, mas é tudo tão sutil e tão equilibrado, que podemos interpretar de múltiplas formas. O que dizer de “the lines made me perfect and came then/the light gave me dark/threw myself in your door/why you stage at me/windows high”? Pode representar o encontro com a Palavra ou com uma mulher. Ou nada disso.

Os pequenos momentos reflexivos também existem em abundância. Em Shade and The Black Hat, por exemplo, um violão é delicadamente acompanhado por piano e um quarteto de cordas, sem em nenhum momento parecer algo arrastado e pseudo-romântico. Não há espaço para esses joguinhos, para a balada fácil. O tempo todo os arranjos surpreendem, seja na criação do clima soturno, seja na busca do momento delicado. Call Me Steam é um dos mais belos usos de orquestra de câmara que já ouvi numa canção pop. É uma verdadeira jóia perdida de 2:49.

A composição de Enigk também deve ser aplaudida: não há nada fácil ou óbvio nas 10 faixas. As letras são verdadeiras preciosidades, não há o refrão/verso, nem o gancho, nem o riff. E ainda assim, você ouve e não tem como esquecer. Vejamos a letra de Abigail Anne: “open eyes to see it all/I’ve known you at six feet tall/no time to see where you’ll drift abigail/wait for me”. E aqui vai o vídeo, mas cujo final foi editado (no CD, há um belíssimo arranjo com a orquestra completa, ao estilo A Day in The Life):

O álbum termina com Fallen Heart, tocada inteira ao contrário, inclusive vocais, mas de forma estudada – parecendo que está gravada com a melodia certa. Não é o jeito mais óbvio de se terminar o álbum – inclusive não há nada além de um violão e um baixo acústico e um delicado arranjo em cordas que surge como uma brisa e some sem conclusão. É o final dessa obra prima, e não se há dúvida que é um dos melhores álbuns da década de 1990. Como sintetizou o ótimo crítico Jack Rabid na época, “uau”.

Recomendado para quem gosta de: Radiohead, The Zombies, The Left Banke, chamber pop

Cultura é inteligência. É mesmo?

Chega de ver Xuxa, novela, fimes de ação estúpido. Paulo Coelho. Viva a arte cult. Viva Blade Runner e sua filosófica pombinha branca.

Viva Matrix.

Tudo bobagem. Conceitinhos filosóficos básicos, (more…)

Os anos 90 ainda vão voltar… (4)

Alguém ainda vai dizer: eram tempos ingênuos, despretensiosos. Erm ingênuos, porque quem disse tal estupidez não devia ter mais do que cinco anos de idade no auge da década. Havia muita coisa na época que hoje é visto como radical e ultrapassado. Como barulho. Hoje é preferível usar um terninho, ter cara de século XIX como The Killers ou Interpol, e fazer música bem certinha, como Phoenix. O sarcasmo e a agressividade era mais prevalente. Trumans Water hoje seria impensável. Fruto de várias coisas. Do barulho do final dos anos 80, mais para Sonic Youth do que para o pavão Nirvana. Com guitarras ao extremo, sem qualquer pena do ouvinte. Com uma liberdade lisérgica de pensamento, fluindo música sem a lógica tradicional da música pop, lembrando  Captain Beefheart, Can e The Fall. Algo que Pavement começou a trilhar, nos primeiros álbuns. Mais fácil, of Thick tum é um bom princípio. Eles radicalizam pra valer em Milktrain to paydirt, talvez seu melhor álbum. Certamente não é para criancinhas.

Vanessa (4)

Vanessa sempre teve medo de como seria sua reação quando seu filho lhe apresentasse a primeira namoradinha. Apresentou o primeiro namoradinho. Primeiro de muitos. Tudo bem, nada que se possa ter muito orgulho ou registrar numa revista importante. Estava na hora de dispensar o Geraldo, mesmo, seu filho já consegue fazer o seu próprio auto-retrato. Chateações à parte, ela nunca mostra para os outros qualquer decepção. Mas, sendo sincera, Vanessa achou até melhor que fosse assim.

Se é para ir embora do colo da mãe, que não vá com outra. Ele nem imagina o que é uma mulher de verdade. Nem faça filhos, logo logo ele perderia o interesse pela mãe. Entre nós, Vanessa jura que é mais interessante que qualquer criança babenta.

Ela não nasceu para ser avó, Vanessa não quer ser velha nunca. Uma plástica ou outra, um monte de botox, e um rosto lindo para sempre, sem parar de sorrir jamais.

Além do mais, o filho tem bom gosto. Cada homem bonito que ele escolhe, dá orgulho. Todos bem cuidados, sarados, nada de um machão bebedor de cerveja com barriga grande. Seu filho procura um homem como ele mesmo. É perfeccionista. Busca a perfeição. Pensando bem, Vanessa até acha que está duplicando um filho. Problema é que tem outra família, que vem a reboque. Povo feio, chato. Mas ela ainda não conhece, porque o namorado do filho quer fazer surpresa. Daqui há alguns anos ele vai dizer.

Renato Grinbaum

Bita (1)

Bita faz cinema, e vai se formar qualquer dia. Precisa de inspiração, pra fazer arte que faça diferença pras pessoas. Já até pensou no seu plano, cuidadosamente elaborado na mesa do bar lá no centro, bem perto do povo. Copo sujo, mano, isso é que é ser autêntico. Já tem a idéia para o seu primeiro longa.

Difícil é conseguir o financiamento. Não tem coragem de vestir um terninho e usar seu nome de verdade, Bittencourt. Bita é mais arte, combina mais com seu jeito de ser. Graças à lei de incentivo à arte, terá dinheiro pra fazer a sua. (more…)

Vanessa (3)

A escolha da escola é um momento difícil. Tem que ser a melhor. Afinal, tem que desgrudar um pouco, depois de cinco anos em casa com a mãe, com a babá da vez, com a empregada, com o fotógrafo Geraldo, que ainda consegue fazer um bom trabalho, e às vezes com o pai, que quando chega do trabalho tem que tomar uns três banhos para tirar todas as bactérias do escritório. É o ar condicionado, negócio nojento. Junta a respiração de todas as pessoas. Bando de estranhos.

(more…)

New York live

Dois shows registrados, ambos em New York. Dois registros de mentalidades diferentes, década de 70 e século 21, pós- Bin Laden.



Led Zeppelin – The song remains the same

Dois tempos diferentes.

Duas bandas de expressão diferente. Led Zeppelin popular, marcou uma geração. The Ex é pequena e obscura, desde o final dos anos 70, uma tendência de se sentir melhor sendo exatamente pequeno e obscuro. Led falava para todos, The Ex para quem pensa parecido.

(more…)

Denisson (1)

Denisson orou:

Deus está em todas as coisas, em todos os lugares. No ar, na terra, no solo e nas águas. Nos pensamentos, mesmo os mais secretos.  É onipresente, onisciente e onipotente. O Big Brother da verdade. Da justiça e fé. É todos olhos, ouvidos, bocas e narinas. Deus está em todos os orifícios. Em todas as sensações, em todas as alegrias. Em todas as posições.

(more…)

Os anos 90 ainda vão voltar… (3)

A década de 90 criou uma peste, um parasita que danifica o cérebro e o pensamento: a lista. Consagradas com Alta Fidelidade, as listas têm um lado benigno, as listas de Ipod para tirar as gordurinhas e encheções de linguiça. Mas lista dos melhores do trimestre, melhores do banheiro, melhores canções soul de artistas coreanos dos anos 70 e assim por diante torraram a paciência. Cada crítico arranjou uma justificativa para consagrar suas bandas prediletas. Cada um de nós escolheu seu crítico para esfregar seu gosto para os amigos. E assim por diante. Para fazer uma lista, é sempre necessário incluir os standards que viraram mitos da década. Nirvana, Radiohead, Beastie Boys, Chemical Brothers, Massive Attack, DJ Shadow, Daft Punk e Stone Roses. Nada contra nem nada a favor. São estrelas, não necessariamente melhores, piores, mais ou menos inovadores. Personalidades de revista Caras, digo, Bandas. Questão de obrigação. Daí pra frente, tudo passou a depender do gosto do crítico. Interessante que alguns álbuns totalmente obscuros compartilharam um status muito próximo ao dos famosos. In the aeroplane over the sea, do Neutral Milk Hotel, Bee Thousand, do Guided by Voices, Spiderland, do Slint. Também não dá para entender. Aliás, qual é o critério da inclusão deles? Votação de críticos? Cópia de outros críticos? Vontade de parecer bem entendido? Vendas? Mensuração da amplitude das ondas sonoras? Aspecto da capa? Sinceramente, ler listas é só para passar raiva. Hábito que devia ter morrido com o fim da década.

Powered by Internet Marketing Tool WP SEO Manager