Nada se compara ao pobre no Brasil. Ele é o detentor das maiores riquezas que um ser humano pode ter: a riqueza da vida e do olhar. Aquele olhar pronto para ser fotografado pelo Sebastião Salgado, que enche o pobre de dignidade, de olhar profundo, de uma poesia que ele mesmo nunca leu nem vai ler.
O pobre no Brasil é um objeto a ser admirado e principalmente tutoriado. Ele precisa da curadoria do muderno e do badauê para entender que cultura é olhar para si próprio e reproduzí-lo. Nada de olhar e desejar essas coisas pequeno-burguesas de classe média como carro, casa e geladeira cheia. Pobre não percebe, mas já é feliz por não ter que se preocupar com essas coisas.
Photo by kindgottPobre não consegue ter acesso à cultura (apesar dele próprio ser o maná da cultura brasileira, o que é contraditório) então vamos criar um vale-cultura. Mas nada de usar no pagode, no rodeio ou no show de brega: só pode usar em eventos que são populares de verdade, como show do Lenine e Zeca Baleiro e teatro experimental, que representam o pobre na arte brasileira. Pobre deveria entender melhor o que é a cultura certa para ele. Para isso, Lula criou a TV Brasil, uma TV que é feita para o povo.
Na faculdade, pobre tem que ter acesso, mas nada de alterar a base de educação dele, porque se não, ele perde seu élan. O bom é mudar lá no topo, depois que ele perdeu a chance de sair da pobreza (e portanto, se prostituir como classe média). Assim, ele entra pobre na universidade e continua pobre ao sair dela. Para isso, o brasileiro inventou um vale-faculdade: o tal do Pro-Uni. Dessa forma, o pobre continua com seus amigos pobres em faculdades pobres, de onde saem pensando que estarão ricos, mas continuarão ainda pobres, do jeito que o brasileiro gosta. Afinal, o que seria do brasileiro sem uma elite para culpar o pobre? Ou sem uma pobreza para culpar a elite?
Photo by George Eastman HousePobre também é legal para ver na rua: assim, posso twitar reclamando como tem pobre na rua e xingando o prefeito que não toma providências. Tá certo que fiz um abaixo-assinado pedindo para não permitirem aquele conjunto habitacional há 2km de casa, já que tem tanto terreno na periferia, por que vão querer pegar esse terreno perto de casa? Lá ao menos eles terão terreno. Mas tem pobre que é obrigado a ir para albergue, o que está errado. Ele tem que ter direito de ir e vir, mendigar à vontade e exercer seu direito de molestar, roubar, sujar e incomodar a área pública, especialmente quando não me afeta.
Saturday, 6 March 2010 por Renato GrinbaumcloseAuthor: Renato GrinbaumName: Renato Grinbaum Email: renatoccih@yahoo.com.br Site:http:// About: Criou o zine RPM em seis dias. No sétimo, escreveu para o Errático.See Authors Posts (93)
Quando surgiu o Orkut, a vida de Maria Candida mudou. Viu o paraíso antes de estar morta. Pela primeira vez ela pôde ser muitas de uma só vez. Antes eram listas, listservs, news e um tanto de recursos trabalhosos. Mas úteis. Participou listas de desenhistas de geladeiras, de vendedores de barrinhas energéticas, de sociólogos especializados no estudo de religiões mortas. (more…)
Saturday, 27 February 2010 por Renato GrinbaumcloseAuthor: Renato GrinbaumName: Renato Grinbaum Email: renatoccih@yahoo.com.br Site:http:// About: Criou o zine RPM em seis dias. No sétimo, escreveu para o Errático.See Authors Posts (93)
O governo só quer saber de criar imposto. Taxa da luz, do esgoto, pedágio, telefone celular. Pra fazer o quê? Nada. Não fazem nada. Só pagar salário para um bando de funcionários públicos inúteis. Devia privatizar tudo de uma vez, que aí eu queria ver. (more…)
Saturday, 20 February 2010 por Renato GrinbaumcloseAuthor: Renato GrinbaumName: Renato Grinbaum Email: renatoccih@yahoo.com.br Site:http:// About: Criou o zine RPM em seis dias. No sétimo, escreveu para o Errático.See Authors Posts (93)
Imagine, agora você quer ser bem visto pelos amigos, cavar uma espaço na mídia? Nada de montar uma ONG, está ficando fora de moda, dá muito trabalho. Faça alguma coisa com uma garrafa pet. Brinquedo, estojo, cortina, porta-lápis, fantasia de carnaval, porta-treco,
almofada, cadeira, travesseiro, lixeira, guarda-sol, cadeira de praia, radinho de pilha, bola e tesoura de unha. Celular para o grande povo. Monte (more…)
Sunday, 14 February 2010 por Renato GrinbaumcloseAuthor: Renato GrinbaumName: Renato Grinbaum Email: renatoccih@yahoo.com.br Site:http:// About: Criou o zine RPM em seis dias. No sétimo, escreveu para o Errático.See Authors Posts (93)
Uma das idéias mais marcantes dos anos 90 parecia ter ascido por convicção ideológica, mas na verdade era falta de dinheiro e espaço mesmo. O LoFi, ou Low Fidelity. Bandas que faziam gravações caseiras. Havia uma crença na genial crítica de que os artistas faziam gravações na garagem porque se revoltaram contra o capitalismo fonográfico e preferiam ter a liberdade de se expressar para um público seleto de vinte pessoas. Existe gente pequena, assim. Literatura experimental. (more…)
Sunday, 7 February 2010 por Renato GrinbaumcloseAuthor: Renato GrinbaumName: Renato Grinbaum Email: renatoccih@yahoo.com.br Site:http:// About: Criou o zine RPM em seis dias. No sétimo, escreveu para o Errático.See Authors Posts (93)
A década de 90 vai voltar. Logo que acabou, o cenário artístico da época foi relegado a um segundo plano porque a crítica achou que foi uma década perdida, sem nada de novo. Nirvana e o grunge, nada mais que um revival do hard rock de vinte anos antes. Estavam enganados. Tudo mudou. A década de 90 foi brilhante. Os criticos da vez agora têm certeza que a primeira década deste século foi uma negação. Uma década perdida. Cheia de bandas de eletropop sem nenhuma criatividade, que somente pensam em imitar bandas de duas décadas para trás. Joy Division, e um monte de bandas quase eletrônicas. Information Society. I´m losing my edge. O que vem aí? Uma geração nova que rejeita o conformismo dos anos 00. Gente boa, repleta de boas referências do trip hop e do gótico 4AD. Arte. Ou barulhentos, feito Sonic Youth. Ou vivos, como o britpop. Viva a nova década. Viva vinte anos depois.
Essa é uma seção dedicada a álbuns cujo impacto foram zero: não geraram filhos bastardos, nem tampouco seguidores. Mas são incríveis do ponto de vista dos críticos Erráticos. São daqueles trabalhos que você se pergunta: de onde afinal veio isso?
O que acontece quando o líder de uma banda que explodiu no cenário independente – banda essa que se tornou a base de um estilo musical que gerou algumas das piores bandas da história [e que nada tem a ver com o sentido original do termo ou mesmo do que a banda tocava] – decide gravar um “álbum solo”? Em 99% dos casos ou sai uma versão light do que a banda original fazia, ou então vem um álbum acústico mas que lembra muito a banda original.
Era o que todo mundo esperava quando Jeremy Enigk, vocalista e líder de fato do Sunny Day Real Estate, anunciou seu primeiro álbum solo, Return of the Frog Queen pela SubPop em 1996. Até então, o Sunny Day Real Estate estava cotado como a grande promessa pós-Nirvana por parte da crítica, com seu rock que misturava os tempos musicais quebrados e matemáticos do Fugazi com a emotividade dos vocais de um Radiohead, sendo a primeira banda marcada com a maldição do “emocore” (emotional hardcore). Mas basta ouvir Circles para ver que não há qualquer semelhança com o que virou emocore na década seguinte.
Acontece que o álbum solo de Jeremy Enigk nada tem a ver com Sunny Day Real Estate. Aliás, nada tem a ver com que viria a fazer nos anos seguintes. Ou com qualquer coisa que se fazia na época. Seus álbuns solos seguintes, inclusive, soam exatamente como álbuns acústicos do Fire Theft (sua banda pós-SDRE).
Aparentemente, entre o primeiro e segundo álbum do SDRE, Jeremy Enigk passou por uma crise espiritual e quase não grava este último. Quando o LP2 foi lançado, inclusive, a banda já havia dissolvido e dois de seus membros (Nate Mandel e William Goldsmith) foram para o Foo Fighters, enquanto Jeremy anunciava que se retiraria da música.
Esse período não durou muito: em 1996, um enxuto álbum de apenas 10 faixas, intitulado Return of The Frog Queen, aparece para desconcertar todo mundo. Os fãs do SDRE não entenderam nada, os críticos do SDRE se surpreenderam e o álbum inclusive parou em algumas das listas de melhores daquele ano. Mas na verdade, poucos ainda falam nele, já que além da sombra do SDRE ser muito maior, o álbum é um ET musical: não se parece com nada que veio nem antes, nem depois.
Trata-se de um álbum pop-folk orquestral, com a paixão de um verdadeiro punk rock, a intensidade dos lamentos de um Kurt Cobain e arranjos que enfiam tubas, clarinetes, violinos e tudo o que há direito. Esse equilíbrio de ser um álbum acústico longe do voz-violão estava há anos-luz do que se fazia na época. Lembrem-se: era o ápice dos Acústicos MTV e Enigk fez tudo ao contrário.
O álbum começa com os delicados toques de violão de Abigail Anne, que de repente se abrem para um carrossel de instrumentos que transforma tudo numa opressiva imagem onírica. Quando você se dá conta, o caminhão sonoro já passou por cima de você. Sem tempo de se recuperar, cai-se na faixa título, que poderia acompanhar um filme de Tim Burton, com sua tensão crescente e a sensação de que a qualquer momento sairá uma Rainha de Copas para te liquidar num canto. Enigk, com seus vocais extensos e graves, é o perfeito contraponto aos ricos arranjos da orquestra.
Não se trata de um álbum feliz: claramente, é um álbum de alguém que perdeu algo (pelos temas, provavelmente a fé) e busca se reencontrar, mas em lugar da felicidade pura, acaba num parque de diversões em Gotham City. Não à toa, Carnival é um dos destaques, com seu arranjo a là carrousel e vocais distorcidos, que aparentemente aludem à essa descoberta de fé, mas nada tão simples quanto uma música crente. Sim, Enigk usa religião como inspiração para esse álbum, mas é tudo tão sutil e tão equilibrado, que podemos interpretar de múltiplas formas. O que dizer de “the lines made me perfect and came then/the light gave me dark/threw myself in your door/why you stage at me/windows high”? Pode representar o encontro com a Palavra ou com uma mulher. Ou nada disso.
Os pequenos momentos reflexivos também existem em abundância. Em Shade and The Black Hat, por exemplo, um violão é delicadamente acompanhado por piano e um quarteto de cordas, sem em nenhum momento parecer algo arrastado e pseudo-romântico. Não há espaço para esses joguinhos, para a balada fácil. O tempo todo os arranjos surpreendem, seja na criação do clima soturno, seja na busca do momento delicado. Call Me Steam é um dos mais belos usos de orquestra de câmara que já ouvi numa canção pop. É uma verdadeira jóia perdida de 2:49.
A composição de Enigk também deve ser aplaudida: não há nada fácil ou óbvio nas 10 faixas. As letras são verdadeiras preciosidades, não há o refrão/verso, nem o gancho, nem o riff. E ainda assim, você ouve e não tem como esquecer. Vejamos a letra de Abigail Anne: “open eyes to see it all/I’ve known you at six feet tall/no time to see where you’ll drift abigail/wait for me”. E aqui vai o vídeo, mas cujo final foi editado (no CD, há um belíssimo arranjo com a orquestra completa, ao estilo A Day in The Life):
O álbum termina com Fallen Heart, tocada inteira ao contrário, inclusive vocais, mas de forma estudada – parecendo que está gravada com a melodia certa. Não é o jeito mais óbvio de se terminar o álbum – inclusive não há nada além de um violão e um baixo acústico e um delicado arranjo em cordas que surge como uma brisa e some sem conclusão. É o final dessa obra prima, e não se há dúvida que é um dos melhores álbuns da década de 1990. Como sintetizou o ótimo crítico Jack Rabid na época, “uau”.
Recomendado para quem gosta de: Radiohead, The Zombies, The Left Banke, chamber pop
Sunday, 31 January 2010 por Renato GrinbaumcloseAuthor: Renato GrinbaumName: Renato Grinbaum Email: renatoccih@yahoo.com.br Site:http:// About: Criou o zine RPM em seis dias. No sétimo, escreveu para o Errático.See Authors Posts (93)
Chega de ver Xuxa, novela, fimes de ação estúpido. Paulo Coelho. Viva a arte cult. Viva Blade Runner e sua filosófica pombinha branca.
Monday, 25 January 2010 por Renato GrinbaumcloseAuthor: Renato GrinbaumName: Renato Grinbaum Email: renatoccih@yahoo.com.br Site:http:// About: Criou o zine RPM em seis dias. No sétimo, escreveu para o Errático.See Authors Posts (93)
Alguém ainda vai dizer: eram tempos ingênuos, despretensiosos. Erm ingênuos, porque quem disse tal estupidez não devia ter mais do que cinco anos de idade no auge da década. Havia muita coisa na época que hoje é visto como radical e ultrapassado. Como barulho. Hoje é preferível usar um terninho, ter cara de século XIX como The Killers ou Interpol, e fazer música bem certinha, como Phoenix. O sarcasmo e a agressividade era mais prevalente. Trumans Water hoje seria impensável. Fruto de várias coisas. Do barulho do final dos anos 80, mais para Sonic Youth do que para o pavão Nirvana. Com guitarras ao extremo, sem qualquer pena do ouvinte. Com uma liberdade lisérgica de pensamento, fluindo música sem a lógica tradicional da música pop, lembrando Captain Beefheart, Can e The Fall. Algo que Pavement começou a trilhar, nos primeiros álbuns. Mais fácil, of Thick tum é um bom princípio. Eles radicalizam pra valer em Milktrain to paydirt, talvez seu melhor álbum. Certamente não é para criancinhas.
Friday, 22 January 2010 por Renato GrinbaumcloseAuthor: Renato GrinbaumName: Renato Grinbaum Email: renatoccih@yahoo.com.br Site:http:// About: Criou o zine RPM em seis dias. No sétimo, escreveu para o Errático.See Authors Posts (93)
Vanessa sempre teve medo de como seria sua reação quando seu filho lhe apresentasse a primeira namoradinha. Apresentou o primeiro namoradinho. Primeiro de muitos. Tudo bem, nada que se possa ter muito orgulho ou registrar numa revista importante. Estava na hora de dispensar o Geraldo, mesmo, seu filho já consegue fazer o seu próprio auto-retrato. Chateações à parte, ela nunca mostra para os outros qualquer decepção. Mas, sendo sincera, Vanessa achou até melhor que fosse assim.
Se é para ir embora do colo da mãe, que não vá com outra. Ele nem imagina o que é uma mulher de verdade. Nem faça filhos, logo logo ele perderia o interesse pela mãe. Entre nós, Vanessa jura que é mais interessante que qualquer criança babenta.
Ela não nasceu para ser avó, Vanessa não quer ser velha nunca. Uma plástica ou outra, um monte de botox, e um rosto lindo para sempre, sem parar de sorrir jamais.
Além do mais, o filho tem bom gosto. Cada homem bonito que ele escolhe, dá orgulho. Todos bem cuidados, sarados, nada de um machão bebedor de cerveja com barriga grande. Seu filho procura um homem como ele mesmo. É perfeccionista. Busca a perfeição. Pensando bem, Vanessa até acha que está duplicando um filho. Problema é que tem outra família, que vem a reboque. Povo feio, chato. Mas ela ainda não conhece, porque o namorado do filho quer fazer surpresa. Daqui há alguns anos ele vai dizer.