Ícones da Cultura Brasileira (11) – O Pobre
Nada se compara ao pobre no Brasil. Ele é o detentor das maiores riquezas que um ser humano pode ter: a riqueza da vida e do olhar. Aquele olhar pronto para ser fotografado pelo Sebastião Salgado, que enche o pobre de dignidade, de olhar profundo, de uma poesia que ele mesmo nunca leu nem vai ler.
O pobre no Brasil é um objeto a ser admirado e principalmente tutoriado. Ele precisa da curadoria do muderno e do badauê para entender que cultura é olhar para si próprio e reproduzí-lo. Nada de olhar e desejar essas coisas pequeno-burguesas de classe média como carro, casa e geladeira cheia. Pobre não percebe, mas já é feliz por não ter que se preocupar com essas coisas.

Photo by kindgottPobre não consegue ter acesso à cultura (apesar dele próprio ser o maná da cultura brasileira, o que é contraditório) então vamos criar um vale-cultura. Mas nada de usar no pagode, no rodeio ou no show de brega: só pode usar em eventos que são populares de verdade, como show do Lenine e Zeca Baleiro e teatro experimental, que representam o pobre na arte brasileira. Pobre deveria entender melhor o que é a cultura certa para ele. Para isso, Lula criou a TV Brasil, uma TV que é feita para o povo.
Na faculdade, pobre tem que ter acesso, mas nada de alterar a base de educação dele, porque se não, ele perde seu élan. O bom é mudar lá no topo, depois que ele perdeu a chance de sair da pobreza (e portanto, se prostituir como classe média). Assim, ele entra pobre na universidade e continua pobre ao sair dela. Para isso, o brasileiro inventou um vale-faculdade: o tal do Pro-Uni. Dessa forma, o pobre continua com seus amigos pobres em faculdades pobres, de onde saem pensando que estarão ricos, mas continuarão ainda pobres, do jeito que o brasileiro gosta. Afinal, o que seria do brasileiro sem uma elite para culpar o pobre? Ou sem uma pobreza para culpar a elite?

Photo by George Eastman HousePobre também é legal para ver na rua: assim, posso twitar reclamando como tem pobre na rua e xingando o prefeito que não toma providências. Tá certo que fiz um abaixo-assinado pedindo para não permitirem aquele conjunto habitacional há 2km de casa, já que tem tanto terreno na periferia, por que vão querer pegar esse terreno perto de casa? Lá ao menos eles terão terreno. Mas tem pobre que é obrigado a ir para albergue, o que está errado. Ele tem que ter direito de ir e vir, mendigar à vontade e exercer seu direito de molestar, roubar, sujar e incomodar a área pública, especialmente quando não me afeta.
Os Outliers I – Jeremy Enigk/Return Of The Frog Queen (SubPop)
Essa é uma seção dedicada a álbuns cujo impacto foram zero: não geraram filhos bastardos, nem tampouco seguidores. Mas são incríveis do ponto de vista dos críticos Erráticos. São daqueles trabalhos que você se pergunta: de onde afinal veio isso?
O que acontece quando o líder de uma banda que explodiu no cenário independente – banda essa que se tornou a base de um estilo musical que gerou algumas das piores bandas da história [e que nada tem a ver com o sentido original do termo ou mesmo do que a banda tocava] – decide gravar um “álbum solo”? Em 99% dos casos ou sai uma versão light do que a banda original fazia, ou então vem um álbum acústico mas que lembra muito a banda original.
Era o que todo mundo esperava quando Jeremy Enigk, vocalista e líder de fato do Sunny Day Real Estate, anunciou seu primeiro álbum solo, <a href=”http://www.amazon.com/gp/product/B0000035HJ?ie=UTF8&tag=oerr-20&linkCode=as2&camp=1789&creative=390957&creativeASIN=B0000035HJ”>Return of the Frog Queen</a><img src=”http://www.assoc-amazon.com/e/ir?t=oerr-20&l=as2&o=1&a=B0000035HJ” width=”1″ height=”1″ border=”0″ alt=”" style=”border:none !important; margin:0px !important;” /> pela SubPop em 1996. Até então, o Sunny Day Real Estate estava cotado como a grande promessa pós-Nirvana por parte da crítica, com seu rock que misturava os tempos musicais quebrados e matemáticos do Fugazi com a emotividade dos vocais de um Radiohead, sendo a primeira banda marcada com a maldição do “emocore” (emotional hardcore). Mas basta ouvir Circles para ver que não há qualquer semelhança com o que virou emocore na década seguinte.
Acontece que o álbum solo de Jeremy Enigk nada tem a ver com Sunny Day Real Estate. Aliás, nada tem a ver com que viria a fazer nos anos seguintes. Ou com qualquer coisa que se fazia na época. Seus álbuns solos seguintes, inclusive, soam exatamente como álbuns acústicos do Fire Theft (sua banda pós-SDRE).
Aparentemente, entre o primeiro e segundo álbum do SDRE, Jeremy Enigk passou por uma crise espiritual e quase não grava este último. Quando o LP2 foi lançado, inclusive, a banda já havia dissolvido e dois de seus membros (Nate Mandel e William Goldsmith) foram para o Foo Fighters, enquanto Jeremy anunciava que se retiraria da música.
Esse período não durou muito: em 1996, um enxuto álbum de apenas 10 faixas, intitulado Return of The Frog Queen, aparece para desconcertar todo mundo. Os fãs do SDRE não entenderam nada, os críticos do SDRE se surpreenderam e o álbum inclusive parou em algumas das listas de melhores daquele ano. Mas na verdade, poucos ainda falam nele, já que além da sombra do SDRE ser muito maior, o álbum é um ET musical: não se parece com nada que veio nem antes, nem depois.
Trata-se de um álbum pop-folk orquestral, com a paixão de um verdadeiro punk rock, a intensidade dos lamentos de um Kurt Cobain e arranjos que enfiam tubas, clarinetes, violinos e tudo o que há direito. Esse equilíbrio de ser um álbum acústico longe do voz-violão estava há anos-luz do que se fazia na época. Lembrem-se: era o ápice dos Acústicos MTV e Enigk fez tudo ao contrário.
O álbum começa com os delicados toques de violão de Abigail Anne, que de repente se abrem para um carrossel de instrumentos que transforma tudo numa opressiva imagem onírica. Quando você se dá conta, o caminhão sonoro já passou por cima de você. Sem tempo de se recuperar, cai-se na faixa título, que poderia acompanhar um filme de Tim Burton, com sua tensão crescente e a sensação de que a qualquer momento sairá uma Rainha de Copas para te liquidar num canto. Enigk, com seus vocais extensos e graves, é o perfeito contraponto aos ricos arranjos da orquestra.
Não se trata de um álbum feliz: claramente, é um álbum de alguém que perdeu algo (pelos temas, provavelmente a fé) e busca se reencontrar, mas em lugar da felicidade pura, acaba num parque de diversões em Gotham City. Não à toa, Carnival é um dos destaques, com seu arranjo a là carrousel e vocais distorcidos, que aparentemente aludem à essa descoberta de fé, mas nada tão simples quanto uma música crente. Sim, Enigk usa religião como inspiração para esse álbum, mas é tudo tão sutil e tão equilibrado, que podemos interpretar de múltiplas formas. O que dizer de “the lines made me perfect and came then/the light gave me dark/threw myself in your door/why you stage at me/windows high”? Pode representar o encontro com a Palavra ou com uma mulher. Ou nada disso.
Os pequenos momentos reflexivos também existem em abundância. Em Shade and The Black Hat, por exemplo, um violão é delicadamente acompanhado por piano e um quarteto de cordas, sem em nenhum momento parecer algo arrastado e pseudo-romântico. Não há espaço para esses joguinhos, para a balada fácil. O tempo todo os arranjos surpreendem, seja na criação do clima soturno, seja na busca do momento delicado. Call Me Steam é um dos mais belos usos de orquestra de câmara que já ouvi numa canção pop. É uma verdadeira jóia perdida de 2:49.
A composição de Enigk também deve ser aplaudida: não há nada fácil ou óbvio nas 10 faixas. As letras são verdadeiras preciosidades, não há o refrão/verso, nem o gancho, nem o riff. E ainda assim, você ouve e não tem como esquecer. Vejamos a letra de Abigail Anne: “open eyes to see it all/I’ve known you at six feet tall/no time to see where you’ll drift abigail/wait for me”. E aqui vai o vídeo, mas cujo final foi editado (no CD, há um belíssimo arranjo com a orquestra completa, ao estilo A Day in The Life):
O álbum termina com Fallen Heart, tocada inteira ao contrário, inclusive vocais, mas de forma estudada – parecendo que está gravada com a melodia certa. Não é o jeito mais óbvio de se terminar o álbum – inclusive não há nada além de um violão e um baixo acústico e um delicado arranjo em cordas que surge como uma brisa e some sem conclusão. É o final dessa obra prima, e não se há dúvida que é um dos melhores álbuns da década de 1990. Como sintetizou o ótimo crítico Jack Rabid na época, “uau”.
Recomendado para quem gosta de: Radiohead, The Zombies, The Left Banke, chamber pop
A Grande Feira – Uma Reaçao Ao Vale-Tudo Na Arte Contemporanea
Belo livro de Luciano Trigo, tocando num ponto nevrálgico da arrogância pseudointelectual: a vaidade de parecer novo, de ser intelegente pela dificuldade, ainda que vazia. Pois valor na arte contemporânea, é o choque e a diferença, exclusividade, que aumentam o valor agregado da obra. Não o seu conteúdo. Leitura essencial para leigos que beiram a ignorância, como os autores de O Errático, mas que ainda assim enxergam a arte como o espaço para discutir a realidade além do óbvio. Trazendo para os reles mortais percepções e discussões de outra forma somente acessíveis aos iniciados. Resta saber se a polícia do da arte de vanguarda vai aceitar ou excomungar o infiel, queimando-o numa fogueira em praça pública.
Primeira “festa” d’O Errático

Meu DJ set será de Power Pop, então vai rolar mais coisas do que só anos 90 e 00. Começa com Beatles e The Who e chega até uns Supergrass e Superdrags da vida… Apareçam por lá!
A cena de Birmingham, através do universo paralelo de Roy Wood e Jeff Lynne II
Já falamos sobre Roy Wood e The Move em outro post. Mas e o Idle Race?
Era necessário um capítulo à parte para The Idle Race, grupo ainda mais desconhecido que o Move. Formado das cinzas da primeira banda de Roy Wood, que era seu guitarrista, o Mike Sheridan & The Nightriders era formado por Mike Sheridan (ex-Dakotas, ex-Checkers) nos vocais, Brian Cope no baixo, Dave Pritchard (ex-Planets) na guitarra rítmica e Roger Spencer (ex-Hound Dogs) na bateria. Com a saída de Wood e entrada de Jeff Lynne, gravam alguns singles pela Pye como Nightriders, que deram em nada.
Com uma mudança de direção e a ascenção de Lynne como compositor, mudaram de nome para The Idyll Race e, depois, The Idle Race. Assinando com o selo Liberty (parte da EMI), gravam uma cover do Move: (Here We Go Round) The Lemon Tree. Mas com a versão original ainda em alta rotação, acabaram optando por rapidamente lançar um segundo single. Este seria o excelente Impostors of Life’s Magazine, um psychpop esquisito, divertido, com múltiplos “pedaços” e produção intrincada, que se torna um cult favorite imediato, já que não vendeu nada por problemas de promoção. Impostors tem de tudo: English Hall, soul, freakbeat, rock, folk… Não à toa, entrou na caixa do Nuggets II: Original Artyfacts From The British Empire And Beyond.
Em 1968, sai The Birthday Party (teríamos aí uma conexão com Nick Cave?), álbum que teria uma das primeiras capas duplas do rock (claro, depois de Sgt. Pepper’s) e um poster central com dezenas de músicos numa festa de aniversário. Este é um daqueles clássicos trabalhos que fazem você coçar a cabeça perguntando porque não ouviu isso antes. Ou melhor, porque isso não tocou na época? Talvez a resposta esteja ao escutá-lo: trata-se de um álbum muito inglês. Inglês demais para o público americano. As influências estão por toda parte: Beatles na fase Revolver/Sgt. Pepper’s, Kinks de The Village Green Preservation Society, Small Faces de Ogden’s Nut Gone Flake
… Mas com um toque a mais de “briticismo”: nas letras, que em certos momentos são absolutamente inintendíveis para um não-local, e nas nuances excêntricas e divertidas. Roger diz até hoje que se tratava de um álbum do Rupert, o Urso… Foi nesta época que Jeff começa a se apaixonar pela produção. Read the rest of this entry »
A cena de Birmingham, através do universo paralelo de Roy Wood e Jeff Lynne I
Responda: qual banda inglesa dos anos 60 conseguiu nove Top 20 em 6 anos, sendo um primeiro lugar, produziu 4 álbuns, substituiu o The Who no Marquee Club e continua completamente desconhecida em terras brasileiras? Se você respondeu, é um dos raros que conhecem o Move, um dos mais interessantes sub-produtos do mod e psychedelic rock inglês. Originalmente de Birmingham (noroeste de Londres), cidade que também geraria o Moody Blues, The Idle Race e Denny Laine, um outro importante desconhecido, que foi um dos criadores do “baroque” rock e seria a outra metade do Wings de Paul McCartney. História esta que merecerá um futuro texto.
Formado em 1966 por Bev Bevan, Carl Wayne, Chris “Ace” Kefford (Carl Wayne & the Vikings), Roy Wood (The Nightriders) e Trevor Burton (Danny King & The Mayfair Set), começaram como uma banda de covers, principalmente de R&B e soul music, cantada em 4 ou 5 vozes, mas com aquele típico punch das bandas mod. Aos poucos, com a ascenção de Roy Wood à liderança da banda, passaram a compor seu próprio repertório. Foram, então, contratados pelo svengali Tony Secunda (que já cuidava do Moody Blues e do The Action). Foi ele o grande responsável por relocá-los a Londres e assegurá-los um lugar no histórico Marquee Club, a ex-casa do Who. Mas também era expert em criar factóides e gerar barulho – aliás, com o outros tantos naqueles anos. Entre outras, mandou um postal com a montagem de uma foto do primeiro-ministro inglês nu para promover um single, à revelia da banda, causando um pequeno furor (e causando ao Move a perda dos direitos autorais do single até hoje também). Também vinha dele boa parte das idéias para os shows, marcantes pelas loucuras e pelo espetáculo visual da banda. Destruiam carros ao vivo, usavam roupas mais extravagantes que os Beatles de Sgt. Pepper’s, estouravam alarmes nos clubes para que os bombeiros aparecessem durante a canção Blackberry Way, quebravam aparelhos de TV com um machado no meio do público, que se ralava inteiro, entre outras bobagens. Roy Wood não era muito fã disto, sendo um verdadeiro freak bigodudo, e talvez um dos mais reclusos líderes de banda de então. Tanto é que Carl Wayne, vocalista, era considerado o porta-voz para a imprensa – apesar de Wood ser o compositor. Se por um lado, estes esquemas de marketing funcionavam no curto prozo, acabou machucando a percepção de muitos sobre a qualidade da banda, isto sim inquestionável.
O Move era uma banda de singles: seu primeiro álbum só foi lançado em 1968, e era quase que uma coletânea destes. Seu primeiro single, Night of Fear, que chupa o riff da Overture 1812 de Tchaikovsky, chega a segundo lugar nas paradas inglesas em janeiro de 67. Apesar de um grande gancho pop, não era ainda o som típico da banda. O lado B, The Disturbance, contudo, acaba sendo mais representativo da mente de Roy Wood: aliás, se passa num hospital psiquiátrico. Tinham o punch de um Small Faces, a coesão de um Who, mas com um sotaque ainda mais inglês, mais florido (pela ampla influência do som da Costa Oeste americana – Byrds e Love, especialmente) e, principalmente, mais melancólico. O sensacional clássico psicodélico I Can Hear The Grass Grow veio em seguida, com uma daquelas letras nonsense que só ingleses em 1967 poderiam fazer. Enfiaram mais uma seqüência de hit singles. Flower In The Rain, que pode ser colocada junto a Waterloo Sunset (Kinks) e Itchicoo Park (Small Faces), como as mais representativas canções do flower pop britânico. Cherry Blossom Clinic, o single seguinte, foi vetado pela gravadora depois da série de problemas legais, pois tratava também de uma clínica mental e acabou sendo lançado só em 1969 no segundo álbum. Seu melhor momento até então foi (Here We Go Round) The Lemon Tree, obra-prima psychpop que imediatamente virou nome de banda e cover de um importante grupo que já falaremos: o Idle Race. Fire Brigade, pop irresistível, de riff chicletão, e Blackberry Way, um clássico, uma espécie de marcha-rock com um refrão majestoso, imponente, fecham esta primeira fase. Read the rest of this entry »
Chico Mello – Do Lado Da Voz (Thanx God Records/Eldorado) 1999
(resenha escrita em 2002)
Quando menos se espera, surge um álbum que dá um pouco de fé na música brasileira. E, claro, viria de um outsider, como sempre. Chico Mello é curitibano radicado em Berlim, onde trabalha com música contemporânea. Discípulo da escola de desconstrução, já trabalhou com Andrew Dreiblatt (minimalista alemão, ligado ao selo Cantaloup, do Bag On A Can) e com as orquestras de Berlim e Colônia. Sendo, portanto, sua formação muito mais ligada ao erudito que ao popular. Mas este álbum, lançado pelo selo de Arrigo Barnabé, é essencialmente pop. Não só pelo repertório, que passa por algumas figurinhas bastante populares (Noel Rosa, Chico Buarque, Herivelto Martins), mas principalmente porque é um trabalho vocal. A voz do título não é a toa: trata-se do instrumento por onde os demais passam.
Mas não pensemos que se trata de mais um albumzinho de MPB ou, seu contrário, um trabalho hermético. Pelo contrário: é instigante, provocativo e, até por sua formação erudita, muito pensado e (des)construído, sem exageros. Ouso fazer uma analogia ao trabalho de desconstrução de Tom Zé em Estudando o Samba. Só que enquanto Tom fracionava o samba, Chico brinca com outros ritmos como a valsa brasileira, o samba de morro, o samba-canção, entre outros. Gravado em Curitiba, Nürenberg e Berlim, passeia por instrumentação acústica, sopro, cordas e samples, inclusive na surpreendente releitura de Pensando Em Ti, onde fragmentos vocais de Nelson Gonçalves são inseridos por entre a re-interpretação minimalista, contrastando volume, intensidade e pausas perturbadoras. Ao dobrar e triplicar vocais e instrumentos em Achado (dele com letra de Carlos Careqa), e alterando seus tempos, acaba dando um efeito quase eletrônico à faixa. Carolina, de Chico Buarque, é executada praticamente à cappela, pois a base é feita com ruídos de arcos arranhando as cordas de um violino. E o efeito é rítmico: ou seja, nada do que se espera deste instrumento. A ótima Valsa Dourada, composição própria, resgata numa releitura contemporânea a valsa brasileira, ritmo praticamente morto. Mentir, de Noel Rosa, é gravada e sonorizada como se saísse de um estúdio dos anos 30, mas alterando o ritmo e a velocidade de execução. Há muita coisa para se descobrir neste álbum, que nos traz novas sensações a cada escuta. De quais trabalhos recentes brasileiros podemos dizer o mesmo? Aguardamos ansiosamente novos trabalhos de Chico Mello, que é certamente um dos melhores compositores surgidos na época recente da música brasileira. Fato até não difícil, já que nada de novo na MPB desde a chamada vanguarda paulistana presta.
RPQG: David Grubbs, Tom Zé, Gastr Del Sol, Mario da Silva, Waltel Branco, Walter Franco
Elvis Costello – Mighty Like a Rose (Rhino/Warner) 1991/2002
Ano: 1991. Estouro do Nirvana e a última grande aparição na mídia do chamado rock independente. Velhos dinossauros e artistas pré-fabricados somem das paradas por alguns meses. Elvis Costello havia, 2 anos antes, gravado seu maior sucesso até então, o ultra-pop Spike, produzido por Kevin Killen e T. Bone Burnett. Musicalmente, produzido para tocar em rádio, com aquela textura exagerada típica do final dos anos 80. O primeiro sem o The Attractions. Para boa parte de seus fãs mais aguerridos, seu pior álbum até então por estas mesmas razões. Eis que grava Mighty Like a Rose, com o mesmo Kevin Killen, mais Mitchell Froom e ele próprio nos créditos, e ainda sem os Attractions. O álbum foi um fiasco de vendas comparado ao anterior. Boa parte da crítica se entreolhou para entender o que era aquele trabalho. Na dúvida, torceu-se o nariz e seguiu-se em frente.
No meio de tantas bandas novas e excitantes de então, ouvir The Other Side of Summer, a ótima faixa de abertura, em seu jeitão faux-Beach Boys não era exatamente os 3 acordes ‘grunges’ esperados na época. O sarcasmo reinante, com tiradas como “Não foi um milionário que disse ‘Don’t need no possessions’ [não precisamos de posses]?” estava até alinhado com o espírito de então. Várias bandas, não custa lembrar, eram fortemente influenciadas por Costello. Mas trata-se de um álbum duro, tenso, de um homem se auto-destruindo. Quase todas as faixas são híper carregadas de instrumentos, ao ponto da saturação – nada a ver com o espírito guitarra, baixo e bateria de 91. Nenhuma faixa é sutil: tudo parece extremado, exagerado, como um sorriso do Coringa. Hoje, sabe-se que enfrentava graves problemas alcoólicos, o que adiciona uma pitada extra de verossimilitude ao clima de MLAR. Não há otimismo ou concessões à bondade em nenhuma canção – a bílis percorre o trabalho inteiro. Era um álbum de alguém cansado do pop e, de certa forma, representa o momento de inflexão da carreira de Costello, que iria dar tiro para todos os lados durante a década que se seguiu, passando por álbuns com o Kronos Quartet, Burt Bacharach, entre outras experiências fora do rock. Há boas colaborações com Paul McCartney (So Like Candy e Playboy To A Man, que Elvis gravou como se Shane McGowan do Pogues tivesse se incorporado a uma big band roqueira) e participações de Marc Ribot e Jim Keltner. O segundo CD, só de bonus tracks, explicita ainda mais este caráter extremo da época pela qual passava. Há 3 faixas do acústico MTV que mostram Costello fora de órbita, irônico, completamente desencanado do que tocava. A versão da já citada The Other Side of Summer vale o CD extra, ganhando um tom muito mais tenso e grave que o original. Olhando hoje, sem a influência da época, MLAR é um dos grandes álbuns de Costello e o que merece ser mais ser redescoberto nos dias de hoje.
RPQG: Elvis Costello em Blood And Chocolate, Neil Young, Robert Wyatt, Big Star em Third, REM em Fables of the Reconstruction
Os críticos: uma visão crítica
Uma entrevista e um texto com a crítica musical brasileira – realizada em 1998 por Rodrigo, Ricardo e Renato
Uma das instituições mais criticadas no Brasil e no mundo é a própria “instituição” que normalmente é responsável por esta tarefa: os críticos. Se considerarmos que a música não é exatamente um quesito muito lógico ou racional, a validade dos críticos musicais passa a ser ainda mais questionada. Por isso, fomos saber o que se passava na cabeça de algum dos críticos musicais de importantes veículos nacionais, através de algumas perguntas genéricas. Eram eles Marcel Plasse, do Estado de São Paulo, Pedro Alexandre Sanches, da Folha de São Paulo e Celso Masson, da Revista Veja. Nossa intenção foi deixá-los à vontade para responderem o que quisessem, sem qualquer interpelação. É interessante também notar como suas respostas envelheceram nestes anos entre a primeira publicação, em 1998, e hoje em dia. Estas foram suas respostas.
Ícones Influentes da Cultura Brasileira IV – Que Fim Levou Robin?
Que Fim Levou Robin? – nos perguntava Mauro Borges e sua trupe que revolucionou a música brasileira moderna do século XX. A primeira banda atitudinal do pop brasileiro e, até por isso, mudou tudo: antes deles, quem ousaria tanto? Sim, é verdade que tivemos bandas que cujo visual era quase tão importante quanto o que produziam musicalmente (como o Secos e Molhados e a segunda banda hippie do mundo, o Novos Baianos – a primeira morreu com o cérebro frito).
Mas Mauro Borges nos deu o pacote completo: sandálias, polainas, muita maquiagem, muito glitter, muita diversão e o vazio existencial do glamour da moda. As letras falavam do chamado “mundinho” e geralmente davam margem a grandes idéias sociológicas, como “Aqui Não Tem Chanel” e “Fashion”, normalmente repetidas 300 vezes para melhor compreensão. Se tivesse ficado nisso, já seria incrível. Mas não. Há sites que inclusive os colocam como “pioneiros da cena rave nacional”, por terem tocado abrindo para o Inner Circle e Madonna. Eles foram muito longe e muito além do que pensavam poder chegar. É pena que o Italo House não os descobriu a tempo, afinal o OFLR surgiu uns 4 anos depois que a cena já tinha acabado.
Mas o rastro de importância deles permaneceu imbuído e embebido, em especial na cena indie brasileira. A idéia de que uma banda pode ser só uma banda de atitude marcou profundamente a nova cena nacional. O Cansei de Ser Sexy é um bom exemplo. Sua vocalista é conhecida por parecer permanentemente de TPM e de saco cheio de estar numa banda. Todos os músicos parecem muito mais preocupados em usar uma roupa que os façam parecer desencanados do que efetivamente em produzir algo musical, porque no fundo, isso é irrelevante. E isso é o máximo! Porque é a atitude que nós compramos, não o conteúdo.
Veja o caso do Copacabana Club, o CSS do James Bar de Curitiba. Querem prova maior de que style é o novo rock? Com o hip-hop sendo o gênero musical hoje mais vendido no mundo, resta ao “rock/pop” se reinventar e isso passa pelo visual. E é essa a cara do rock dos novo século: o visual se tornou 100% mais importante que o conteúdo, assim como no hip-hop mainstream. De nada adiantou a era dos anos 1990, que serviram para sepultar o rock farofa e as mega-produções. Hoje a era é dos manos de Cadillac e dos indies poseurs, a variante Poison dos alternativos.
