Como a brodagem pode estragar um bom argumento


Lourenço Mutarelli é hoje o maior quadrinista brasileiro. Há várias razões para afirmarmos isso. A principal é que ele sabe construir roteiros, o grande mal do quadrinho brasileiro fora do terreno do cartum e do humor. Seu último projeto, a ambiciosa Trilogia Do Acidente, de quatro partes, baseada no detetive Diomédes, formado pelos livros O Dobro de Cinco, O Rei do Ponto e A Soma de Tudo (parte um e dois) poderia ser um marco no quadrinho brasileiro.

Se ele chegará um dia a ser, é questão de tempo. Mas Mutarelli se perdeu no final da história. Vamos por partes. O paulistano Lourenço iniciou seus trabalhos com o hermético e assombroso Transubstanciação, lançado em 1991; um trabalho intrincado de arte, provocador ao ponto escatológico, muito distante do que acontecia no mercado brasileiro. Desde esta época, Mutarelli se aproxima da bande desinée européia, de autores que lançam projetos que, naquelas pairagens, são celebrados e respeitados como livros. Nada mais natural, na verdade. A prova de que os quadrinhos deveriam ser tratados como arte e literatura vem da própria incapacidade do cinema em realizar qualquer filme decente sobre quadrinhos. O primeiro Batman passou perto, somente pelo apelo visual, já que o roteiro foi um desastre; piegas, com um Batman frouxo e concessões demais ao cliché. Aliás, desafio a qualquer leitor em provar um filme que seja melhor que o quadrinho em que foi baseado.Enquanto isso, nossos quadrinistas passaram, em especial o grupo ligado à Fábrica de Quadrinhos, a exportar trabalhos artísticos ao mercado americano. A verdade é que há uma grande quantidade de bons artistas/desenhistas no Brasil, vide os ótimos trabalhos de Marcelo Campos, Kipper, os irmãos Cariello, Luciano Queiroz entre outros. Mas não há bons roteiristas, ou como se diz em inglês, bons storytellers, contadores de histórias. Este era um diferencial de Mutarelli – saber contar uma história e, principalmente, criar bons personagens, algo dificílimo na HQ adulta brasileira. Esta sofre o mesmo problema da jovem literatura brasileira: excesso de auto-depreciação e indiferenciação, história que não se move, nenhuma crise moral a ser testada ou confrontada.

Em Diomédes, Mutarelli cria um personagem atípico: um detetive durango sem moral, porém que aparentemente vive em luta constante para ser alguém. Sua não-moral por vezes parece uma fachada que simboliza sua expectativa zero em relação ao mundo. Sim, é um clown melancólico, não em verdade simpático ou mesmo empático, mas Lourenço consegue movê-lo a ponto de nós, leitores, querermos ao menos saber o que acontecerá com Diomédes. Já é um grande ponto. Afinal, o que de pior pode ainda acontecer com alguém que perde a bruaca da esposa para outro, que vive da pindura e que, aparentemente, cai num grande esquema que, por algum motivo, busca encrencá-lo. Há muito de filme noir e pulp por trás da história, mas é só parte do que ocorre.

Mutarelli perde o controle do personagem: só isso explica que o final tenha sido extendido por um livro a mais e o final, que já estava desenhado no primeiro livro, mude completamente até A Soma de Tudo. Isso é na verdade um bom sinal: era prova de que o personagem rendia muito mais do que o autor imaginava. E tudo isso foi graças ao excelente O Rei Do Ponto, segunda parte da trilogia e, por conseqüência, o ápice do trabalho na primeira parte d’A Soma de Tudo. Segundo o próprio autor, Diomédes ia incorporando cada vez mais elementos da personalidade de seu próprio pai. Isso fica visível na mudança gradual da personagem, que pouco a pouco vai se libertando do espírito loser e passando a literalmente esquiar por entre as fissuras do roteiro armado contra ele. Torna-se uma versão deformada do Besouro Azul de Keith Giffen, uma personagem melancólico, consciente de suas limitações como herói, mas que tenta primeiro sobreviver e depois, resolver os seus problemas, nesta ordem. Esta mudança não é súbita: é gradual e são provações que atuam como agentes dela. Diomédes sente vergonha de evoluir intelectualmente, nada mais sintomático dos atuais tempos.

Outra grande contribuição é causada pela evolução tanto da arte como da ambientação. Lourenço move a história para Portugal, impressionado com uma viagem que fez para o próprio lançamento de O Dobro de Cinco. E acaba dedicando cada vez mais espaço para o detalhamento do ambiente, para as nuances do cenário. Não é gratuita esta atenção; Portugal passa a ser outra personagem da história, talvez a maior após Diomédes, a despeito do bem desenvolvido companheiro Waldir.

E quando tudo parecia bem… O livro final escorrega. A influência aqui é, sem sombra de dúvida, o trabalho de Grant Morrison em Homem-Animal, onde a realidade do autor se mistura com a ficção do personagem, como Mutarelli bem conhece. Do lado bom, a história não liquida Diomédes, transformando-o em um herói renascido ou alterando sua essência. Pelo contrário, o final reafirma todas suas características. Mas Mutarelli cai em dois defeitos. O primeiro é o excesso de citações e personagens amigos. Praticamente todos seus amigos aparecem no último número como personagens secundários e vira um pouco rasgação de seda e, para quem não conhece estas pessoas – entre elas, os editores/donos da editora Devir – perde-se grande parte do referencial. Parece que Mutarelli resolveu agradecer a todos que lhe ajudaram nesta vida e aproveitou o momento para colocar todo mundo na revista, o que diminui um pouco o impacto. Uma coisa é brincar com a realidade, utilizando elementos e personagens reais para reforçar uma história. Não foi o caso: em certos momentos, parecia tudo meio gratuito, poluindo o fluxo do conto. O segundo e mais importante problema foi que Mutarelli aparentemente não conseguiu resolver graficamente a história. Há texto demais no último livro, o que contrasta brutalmente com os livros anteriores, onde sua arte insinuava mais, deixava mais espaço para a imaginação. Tenta explicar demais, dá voltas, tenta resolver coisas demais pela escrita. O que desbalanceia muito a HQ, e na verdade, à toa, já que a solução da história é completamente aberta e não resolvida. Em certas páginas, há tanto texto que mal se vê os personagens.

Apesar disto tudo, não se compromete o trabalho por completo, como posso estar dando a impressão. É a melhor HQ que já tenha lido no Brasil, um primor de trabalho artístico, um caminho completamente novo para a arte mais “maldita” no país que, curiosamente, gera alguns ídolos nos EUA, como Deodato e Rogério Cruz. Mutarelli é bom argumentista, talvez o único bom em atividade no Brasil neste gênero de HQ adulta. Nossa tradição de tiras e HQs infantis já é bem estabelecida, mas não temos tradição ou volume qualitativo nas demais formas. O Cheiro Do Ralo (Devir), seu primeiro livro, mostra que sabe ser um contador de histórias, sempre com foco no personagem, sem cair na máxima atual de carregar no estilo e no domínio extremo da linguagem, sem nada a dizer.

Esperamos que este trabalho de Lourenço Mutarelli renove o gênero no país e que novos trabalhos deste nível se desenvolvam.

Ricardo Amaral

(texto originalmente escrito em 2004)

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