O Errático

Um blog cultural

Entrevista: Sasha Frere-Jones, da banda UI

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Os anos 90 são bem peculiares: mesmo com uma visão pessimista de esgotamento do pop, novos caminhos vão sendo sólida e espontaneamente traçados. A experimentação  ocorre em particular  na reciclagem  de gêneros e principalmente na busca de espaços, texturas e timbres diferentes.  Não há  tanta mudança na linguagem nem na estrutura, ao contrário, ela está muito mais na sonoridade. Muito resumidamente, estas características formam o que vem sendo chamado de pós-rock, termo ainda vago e mal definido.

Entre as bandas de pós-rock, uma das mais ouvidas e citadas é  a americana Ui. A banda experimenta texturas diferentes, a começar com sua marcante característica: dois baixos e bateria. Com esta formação, o que mais se espera é  uma forte base rítmica. Esta base surge da mescla do funk com sua batida forte e, principalmente com o baixo bem visível, claramente derivado do dub. A banda ainda mescla elementos eletrônicos e, principalmente, jazz. O resultado é  um som diferente do usual, novo, sem perder o punch e  o ritmo, sendo bastante acessível, apesar de pouco usual.

Esta possibilidade de se fazer um som mais experimental e ao mesmo tempo continuar sendo divertido e mais acessível não é  unanimemente aprovada. Em primeiro lugar, existem aqueles acostumados a um som divertido, sem grandes mudanças, mais previsível, com fórmula e sonoridade sem grandes vôos. Estes certamente sentirão algum estranhamento com as liberdades aceitas pelo pós-rock, até por não fazerem muitas concessões em seu gosto. Por outro lado, existem aqueles que se colocam no extremo oposto, exigindo sempre da música uma evolução mais radical de forma e sonoridade, música totalmente livre das amarras do ritmo e estrutura do pop tradicional e, diversas vezes, de assimilação muito mais difícil, requerendo algum conhecimento musical prévio, ou ouvido bem aguçado. Estes enxergam no pós-rock, e em Ui uma inconsistência e superficialidade, uma vez que a ruptura não é  completa: apesar das experimentações, persistem o ritmo marcado, a fácil assimilação. Negam a profundidade e o valor de um gênero  pelo simples fato der não ser tão inovador e permanecer de alguma forma acessível.

Entrevistamos Sasha Frere-Jones (nenhum parentesco com a Xuxa), da banda Ui, que de uma forma bem clara respondeu a todos estes questionamentos.

SFJ – Para começar, o nome da banda é Ui, e não UI, e se pronuncia como no ing;ês Louie… sem o L. É um nome próprio, não um acrônimo.

RG – Vamos começar com uma pergunta meio difícil. Nos anos 90 uma das modas é o pos-rock, ou avant-rock. Este gênero realmente existe? Você conseguiria me dizer o que é uma banda de pós-rock?

SFJ – Lamentavelmente não sei.

RG – Ui é uma das bandas mais comentadas nesta área, do circuito “alternativo” ou, me desculpe o horrivel termo, “inteligente”.  A crítica coloca a banda como uma das expoentes do pós-rock. Você concorda com isto? O que é o Ui?

SFJ – É muito lisonjeador que alguém tenha uma opinião como esta a respeito de nós, mas eu não entendo nem dou valor ao pós-rock como uma categoria. Quanto ao que é o Ui, não tem nada a ver com o que falei anteriormente. Ui é  uma banda de rock.

RG – Ainda um pouco neste tema, um zine inglês (“Obsessive Eye”) publicou um texto grande sobre esta pretensa cena do pós-rock, escrito por Jade Gordon. Neste texto, Gordon afirma que o pós-rock, em especial Ui e Tortoise são bandas “fascistas” e retrógradas por que usam ritmos dançantes, se distanciando de uma prioposta mais experimental e livre como o free-jazz. Afirma que o pop de valor deve ser difícil e hermético, como Fushitsusha e outras bandas japonesas. O que você pode comentar a respeito deste texto?

SFJ – A corrente onda de bandas  “pós-rock” (math-rock”) soa quadrada e reacionária quando comparada aos genuinamente radicais noise-makers do selo japonês seminal PSF ou ao Corpus Hermeticum de Bruce Russel. Ambos deixam Tortoise e Ui cobertos por uma aura cheia de poeira. Coincidentemente, tanto Fushitsusha e The Dead C e muitos dos seus contamporâneos compõem baseados em fontes não-brancas e não-rock, mas ao invés de se renderem à batida fascista eles procuram se voltar para os estranhos experimentos do free-jazz para redefinir as fronteiras do rock. Assim faz bastante sentido – rock foi sempre algo a respeito da liberação da música das batidas repetitivas e da estrutura tradicional do “pop”,  e o free-jazz é muito mais próximo desta visão do que as fusões do pós-rock.

Deixe-me falar algo a respeito das motivações do “artigo” de Gordon.  A pessoa que publica o Obsessive Eye, David Howell (para meu deleite funcionário da SRD, um distribuidora do selo Southern na Inglaterra) requisitou uma faixa do Ui para uma coletânea do zine. Isto foi depois do artigo de Gordon e de um texto dele mesmo sobre Labradford, detonando Ui. Isto quer dizer que Howell não põe muita força nas suas convicções. Ele não nos suporta, mas quer vender revistas nos usando no seu CD. Ou ocasionalmente ele gosta da banda, mas acha muito mais legal expressar uma opinião diferente. Ele e Gordon preguiçosamente alinham Ui e Tortoise como se fossem a mesma banda, operando como se fossem franquias diferentes da mesma coisa.  As duas bandas são bem distintas.

Para ele (ou ela?), Gordon, escrever deve seguir a tradição da crítica (usualmente branca) que iguala obscuridade, barulho e confusão com crítica radical e expressão. Este debate, da divisão entre arte superior e inferior é  agora rejeitado pela maioria das pessoas inteligentes, mas, não se esqueça, você nunca pode deixar em segundo plano um jornalista inglês de rock. Igualar forma (barulhento ou suave) com experiência (êxtase ou monotonia) parece uma fórmula fraca e desgastada. Isto deu margem ao surgimento de algo chamado a teoria do receptor: Tanto faz qual seja o disco ouvido, seja o “Jump”, do Van Halen, “Extra ball” de Loketo ou “Bad Politics” do Dead C, a liberdade criadora e a liberação da mente ocorre ao nível do ouvinte, não na gravação. Eu posso ter o mesmo “sentimento”ou experiência estética com Chic ou com Albert Ayler. As emoções, experiências psíquicas e o make-up químico de cada pessoa vai interagir de modo diferente com cada gravacão. Some-se a isto o condicionamento social necessário para que alguém possa “ouvir” Dead C sem achar que a banda é um barulho desorganizado ou ouvir Beatles considerando como somente melódico. Só assim você poderá começar a sua ascenção até o pico onde você hasteará a bandeira das suas medidas.  Eu consideraria um esforço infrutífero a missão de ouvir discos e ordená-los em alguma escala de importância social ou radicalidade. Eu não faço isto, e nunca achei que isto seria positivo.

Se você quisesse realmente analisar a importância social – estou assumindo que o termo “radical” tem muito a ver com isto – então o número de pessoas que ouvem um disco é mais importante do que o quão chocante ele é. Esta afirmação poderia chocar Gordon, que na verdade está a fim de balançar o caminho da Maxwell House com um pouco de Clifford Geertz. Mas Spice Girls são mais potencialmente radicais do que Dead C porque mais pessoas as conhecem. Nem melhores, nem mais gostosas de ouvir, nem mais interessantes, mas socialmente mais radicais porque porque seus textos estão  em milhões de mãos e existe algum sentimento de consenso ao redor deles. Agora, se radical quer dizer musicalmente mais satisfatório esteticamente, então isto é  simplesmente á prática  baixa de se buscar credibilidade através do ato de se gostar de algo que tenha sido feito para ser  inacessível para o maior número de pessoas o possível. O ataque de Gordon parece ter este espírito, o novo “cool”, que desmerecendo muitas bandas, desde “Don’t Look Back” de Bob Dylan até o pós-rock, acaba no ato de se falar de bandas que as pessoas não conhecem  e faz com que se sintam idiotas por causa disto. Para este espírito, minha única resposta é: “Lambam meu pé”.

Um outro problema na “crítica” de Gordon é  a idéia de que uma escolha do consumidor é mais radical que outra. Todos os discos aqui citados são discos, e por isto são produtos também. Da Warner até a PSF a circulação destes todos estes ítens é regulada pelo mercado livre, um conceito precariamente não-radical. E discos não são música, são de certa forma representações da música. Isto não faz deles algo chato ou desinteressante: eu os tenho, gosto, e mesmo faço eles. Mas para 99% das pessoas que compram Spice Girls ou Dead C, incluindo a mim mesmo, discos são diversão, catalisadores para as experiências dos ouvintes descritas anteriormente, que são solitárias (mesmo se experimentadas numa multidão) e associal por uma definição operacional. Discos underground de noise são talvez formalmente diferentes de “Titanic” mas nada mais radicais, não interessa o quão mal gravados ou quanto de retorno ou de delírios de um eremita eles possuam.  Esta natureza conservadora na essência dos discos significa que, por bem ou por mal, embora Spice Girls sejam socialmente mais potentes que Dead C, este potencial nunca será totalmente realizado. Mesmo se uma pequena garotinha resolver se levantar e responder um machão sexista baseada no seu fanatismo pelas Spice Girls, este vai ser somente um ato isolado, improvável de se provocar uma mudança social, por mais que esta seja desejável. E se um rapaz gorduroso resolve se afundar na sua cama mais alguns centímetros porque Dead C “arrebatou a sua mente”, este ato não tem nada de radical ou novo. Ou tem?  Mais uma vez  Gordon levantou esta poeira radical. Eu acho que é  um jeito burro de se falar sobre o rock e eu não falaria sobre o valor social  de NENHUM  disco meu em particular. Nem mesmo Public Enemy, The Clash ou Gang of Four, não importa quanto prazer me dão ou o quanto fomentaram qualquer ação na “vida real”. Se você quer uma lista de ações radicais, eu deveria incluir serviços de saúde universais e gratuitos, uma estrutura justa de impostos, salários iguais independente de raça ou sexo, amar abertamente, tratar seus semelhantes de forma decente e honesta e trabalhar por outros motivos que não o auto-benefício (Esta é uma imagem muito sincera e “mainstream” para Gordon. Peça para Gordon observar uns poucos parentes morrendo, e depois peça para voltar e contar o quanto que Dead C soa radical). Por mais que eu ame, abrace e me devote à música, eu não acredito que a música vá fazer grandes transformações sociais e eu não acho que ela seja uma força para nada a não ser para o prazer individuale para o ato de arrebentar minha mente.

Por acaso eu gosto de Fushitsusha, Dead C, Musica Transonic, Stockhausen e todo tipo de música afim, porque eu embarco  nelas da mesma forma que eu embarco em Sabbath, Biggie e Elliott Smith.
Nunca me ocorreu de confrontar meus discos da KK Null records com os do Kid Creole and the Coconuts, mas agora, curado pelos ensinamentos de Gordon, vou tentar e ver que coisa que vai acontecer.

Musicalmente eu não tenho o que responder para Gordon, agora se ele/ela não gosta de Ui eu estou pouco me fudendo.

Gordon poderia perguntar para Don Moye (não procure saber se você não sabe quem é) se as faixas mais funk da Art Ensemble parecem mais desprezíveis que as viagens mais abstratas. Só porque você é  inglês e não pode dançar você não pode desprezar toda a história da música negra. Qualquer pessoa que começa a frase “Rock foi sempre algo que falou a respeito…” na língua do meu país é  um idiota.

Entrevista concedida em 1997 a Renato Grinbaum

Written by Renato Grinbaum

October 23rd, 2008 at 11:34 am

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