O Errático

Um blog cultural

As 8 Maravilhas do Mundo Pós-Moderno: I – O PAC

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Inauguramos aqui a série das novas Maravilhas do Mundo. Não contente com a limitação de escolher apenas obras concretas, certamente imposta por machos dominadores, O Errático ousa desafiar a opressão e apresentar as maravilhas pós-modernas da humanidade. São legados que elevam a capacidade humana de criação a patamares que nem mesmo a arquitetura e a geologia conseguiram.

A primeira das novas maravilhas do mundo certamente é o PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento. O brilhante conceito, certamente desenvolvido por um grupo de cientistas neurolinguísticos de PNL – que é o pai do PAC, já que a mãe verdadeira fugiu e a adotiva está em campanha pelo filho – já era um sucesso antes mesmo de sê-lo. Vamos desconstruir cada uma das palavras que anunciam a nova aurora da política pública.

Programa – É aquilo que se assiste na TV, aquilo que prende e seda as pessoas, trazendo felicidade e conforto. É também a forma mais correta de se comunicar algo para o grande público, afinal ler dá azia e cansa demais.

Aceleração – é a batida do coração, é aquilo que se move, a Marcha dos Milhões, é Pol Pot e Mao Tse-Tung, só que sem as mortes. É uma mudança cultural, que se volta para a emoção de cada um dos seres humanos que habitam o Brasil. Lembra também Ayrton Senna (Acelera, Ayrton!), Copa do Mundo, Galvão Bueno e mais um monte de coisas que só quando se acelera se sabe.

Crescimento – Essa palavra sintetiza o lado malemolente tipicamente brasileiro. Porque brasileiro nasce com aquilo roxo e não dá chance para a cabroxa reclamar: cresce e pronto. Crescimento também é algo inerente ao Brasil: estamos sempre fadados ao crescimento, se não hoje, possivelmente depois de amanhã, porque amanhã é feriado.

Juntas, essas 3 letrinhas com tanto conceito e conteúdo intrínsecos representam o que há de mais avançado em META-política no mundo hoje. O PAC é a filosofia por trás da engenharia e dos gastos – qualquer gasto. E é isso que o torna tão genial – o PAC é o tudo: cabe absolutamente qualquer coisa dentro dele. Três letrinhas que, 2000 anos após Cristo, significam mais do que o Pai e do que Havaianas, já que o PAC é onipresente, onisciente, não solta tiras e não deixa cheiro.

Investimento em infraestrutura? É PAC. Asfaltamento da rua de casa? É PAC. Vai comprar um carro? É obra do PAC. Produziu metano depois de comer uma feijoada? Também é do PAC. O gás e o feijão. O melhor de tudo é que nem precisa ser real, nem o metano e nem o feijão: basta apenas dizer que potencialmente o feijão e o metano irão ser produzidos e gerados, e que estão dentro do PAC. Pronto: como um milagre da pós-hipnose, temos um PAC de feijão e metano prontinho para ser servido na mídia.

O PAC também é número, de preferência, na casa dos milhões. Todo mundo sabe que no Brasil, qualquer coisa que fale acima de dez mil não faz a mínima diferença para a população média. Dez mil, cem mil e dez milhões são a mesma coisa. E como a obra em si não importa, já que sugestiona-se apenas a futura existência da mesma, podemos dizer que o PAC é o primeiro simulacro de política pública do mundo realizado com sucesso. Nem a China, com a Revolução Cultural, conseguiu sustentar por tanto tempo um movimento de tal envergadura. Talvez porque cometeram o erro de FAZER a revolução e não só ANUNCIÁ-LA, que foi a grande sacada por trás do PAC. Brasileiro gosta é de gente com coração bom e boas intenções. O resto é detalhe.

É por criar o primeiro simulacro real de revolução anunciada que o PAC merece ser incluído entre as maiores maravilhas do mundo pós-moderno.

Written by Amaral

March 11th, 2009 at 8:27 pm

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