O Errático

Um blog cultural

São Paulo

without comments

São Paulo

São Paulo entupiu minhas veias com concreto
Para que eu pudesse flutuar/opor aí
Depois
Como uma ação
São Paulo me pregã/o no chão de quadradinhos sujos e desmontados
Essas palavras, todas as suas pal/avras, enfim

Elias Rode (ilusionista e poeta amador)

Aquele prédio

Aquele prédio ficou me olhando sair de casa de novo, hoje pela manhã. Às vezes seus olhos estão voltados para outro lado. Nos últimos três dias, virei o foco privilegiado da atenção do edifício plantado em frente ao meu. O bloco mineral vivo. E o pior: ele me olha como se eu fosse um pedaço de carne vomitado pelo seu inerte companheiro de quarteirão.

Se ele olha, pensa. Se pensa, controla. É o que eu acho. Eu acho que este prédio especificamente já estava aqui antes dos Martinelli, antes dos Matarazzo, antes dos jesuítas, antes dos americanos primitivos, andando por aqui pelados, acendendo suas fogueiras e cantando. Eu encontrei o totem. Este prédio está me enlouquecendo, o maldito. Quase disse coisas bem feias para a senhora que mora no 103, outro dia. As coisas que eu penso sobre este prédio doentio e os olhos emoldurados em madeira que ele usa para me espionar.

Fico imaginando se ele seria o único, o último de uma manada inteira de prédios nômades que vagava por aí quando as estrelas ainda eram jovens. Fico imaginando se aquelas grandes estruturas esqueléticas iluminadas por postes de luz seriam os fósseis ou os abortos da sua espécie. Com pensamentos como esses servindo de bagagem, eu entro no metrô.

No metrô

Conheci um homem chamado Elias Rode no metrô, hoje. Foi engraçado. A vagão estava vazio. Uma, duas, três estações e a composição desacelerou. As luzes se apagaram e acenderam de novo muito rápido e quando acenderamdenovoassimrápido de repente parecia que o tempo tinha desacelerado. E lá estava ele, dentro do vagão comigo. O silencioso Elias Rode.

Elias Rode

Elias Rode era uma insignificância dentro do vagão. Eu olhava para suas costas. Ele estava sentado ao lado de uma janela, acima da qual havia um anúncio de companhia aérea. Do outro lado, perto das portas automáticas, anúncio de curso de inglês. Bancos plásticos e corrimãos metálicos reclamavam presença, atenção. Cercado por coisas que gritavam cores, promoções, ritmos, descontos [30#) minutos por dia 3 vezes por semana de qualquer coisa e você é Deus#)], o Elias Rode era um inseto, quase menos humano do que os bancos, por exemplo. Ah, não, estava quente, quente. Já perto da estação Paraíso, o homenzinho levantou, virou-se, espalhando o corpinho ereto dentro do paletó com colete. Óculos. Bloco de papel e lápis tremendo entre os dedos. Olhou para mim, aproximou-se e entregou-me o bloco. Ficou com o lápis. Apresentou-se: “elias rode, cidadão” (modesto, não admitiria maiúsculas no nome). “Um coelho. Alice no País das Maravilhas”, pensei. “Tenha um bom dia”. Elias Rode desceu do vagão. O falante Elias Rode.

Poema bom ou ruim

O bloco de papel que ora me pertencia era composto por treze folhas timbradas. Letras vermelhas desproporcionais, ocupando um quarto do espaço da folha, dos dois lados: “Elias Rode – ilusionista e poeta amador”. Na primeira folha havia um poema e uma anotação. Não vou mentir e dizer que era bom ou ruim. Não sei. Não sabia. Não sabia que seria útil. Agora sei. Elias Rode – ilusionista e poeta útil.

O poema

Com a janela do quarto aberta
Nem precisava ser dia para a luz entrar

Se fosse aquela que já estivesse dentro
Vinha quase todo o sol e a lua – driblando os cabos e fios com pipas e tênis pendurados – vê-la se debruçar – abrir um olho
estender um braço
espreguiçar açúcar
ronronar para telas de aparelhos eletrônicos
e depois virar e dormir de novo
Só valia o esforço porque era um sonho
no qual o sol e a lua não têm mais o que fazer
Como aquela graça que, sem pressa de ser útil,
Podia ser material para alguém que quisesse inventá-la
Entre um suspiro e outro
até não poder mais.

A anotação

A primeira forma de controlar alguma coisa é dando um nome para ela (pombos, flores, lenços, espelhos).

A voz gravada. Estação Ana Rosa.

A seguir, mais e maiores gotas

Estava quente em março e choveu muito aquele dia. A baldeação realmente era algo completamente sem importância àquela altura. De repente, por razões óbvias, só o bloco de papel interessava. Tudo bem: você fica a vida inteira esperando que uma coisa diferente aconteça. Pronto. Um poema e uma anotação são suficientes? Eu fico com o que eu tenho. E agora, mais água. Quando pequeno, eu sonhava que estava numa cidade praiana qualquer, acordava um dia e via um recuo monstruoso da água na praia. Focalizando o olhar à frente da linha de areia seca, grandes carcaças de peixes e cetáceos atoladas na papa de água salgada, uma poça gigantesca e abissal, era tudo que restava do Atlântico ali. Onde fora parar toda aquela água?

Veio pra cá. Barrenta. Do sonho para a Ana Rosa. Escorrendo na parede do túnel a partir de um buracO e primeiro caindo, depois espirrando e, finalmente, jorrando. Fiz uma bOlinha com o papel onde o poema e a anotação estavam escritos e atirei no buracO. Não. Fiz uma bOlinha com o pOema e a anOtação e joguei no buracO. No mínimo interessante a aderência do pequeno poema. A aderência à vida daquela água toda. A aderência da poesia à vida. Tapei o buraco e o funcionário do ssO veio me agradecer. Herói do metrô. Imagina se fosse um T.S. EliOt. Ou AdOniran.

O escamoteador francês

Havia ainda algum tempo antes das aulas matutinas. Parei na boca da escada para assistir àquela água toda ser drenada. Máquinas atlantes especiais. O pessoal se aglomerou, senhora gorda, sete meninos (três saquinhos de esmalte, lombriga provável, piolho certo como 2 e 2 são 4), além de um francês (sotaque) que, com perícia, sacou do bolso seus truques: fazia esculturas de bichinhos com bexigas e, instantes depois, passou a trabalhar com as cascas das tartarugas marinhas vindas com a água onírica. As tartarugas se arrastavam escada acima, o francês as virava e, em segundos, tartarugas-botes navegavam sobre a Domingos de Moraes. Tripulação: sete pequenos toxicômanos. Previsão de atraso.

Aula

Emolduradas pelo cinza celeste e pela corrente aquática pontuada por embarcações-tartarugas, as luzes da sala de aula instalada na antiga caixa d’água da Vila Mariana lembravam um farol. Subi as escadas correndo.
Disciplina: história paulistana das relações físico-espirituais; o evento estudado nas quatro aulas do dia: o caso rua Maria Paula – médiuns da Federação Espírita manipularam secretamente as mentes e os corpos de vereadores da Câmara Municipal durante anos sem que ninguém desconfiasse. Finalmente, a ponte energética ligando os dois prédios quase vizinhos foi vista por um sensível rapazola de comportamento tímido chamado Maurício Wanderlei. A farsa de manipulação havia acabado e o escândalo apenas começara. Os reis kardecistas estavam nus. Jornais, revistas, rádio e televisão cuidavam da cobertura. Tudo isso há exatos trinta anos.

No sofá com Maurício Wanderlei

Coincidências. Como contar uma legítima história paulistana sem apelar um pouco para as coincidências? Hora do almoço. De volta ao apartamento (o maldito prédio vizinho bocejava), liguei a televisão. Maurício Wanderlei, agora um senhor grisalho (os gestos delicados ainda estavam lá), comparecia ao programa “Bom dia, São Paulo”. Quase deixei o macarrão manchar a camiseta. O apresentador conversava com ele entre o boletim meteorológico e as tomadas aéreas do helicóptero que sobrevoava a inundada região da Vila Mariana. No final do programa, o apresentador, educadamente mas de modo emocionado, confessou que sempre amou o senhor Maurício Wanderlei, desde a primeira vez que o viu na televisão, e que sua paixão pelo então rapazola se confundiu como paixão pela televisão e fora esse o motivo de sua transformação em âncora de telejornal. Reboliço geral. A câmara tremeu e o contra-regra apareceu no ar. Correria nos bastidores do programa. Salto para o comercial.

Comercial – coleção de vinhetas, trechos de locuções e anúncios

• Shop Tour

A moça histericamente animada anunciava um Centro de Reabilitação Emocional para Homens-placa (C.R.E.H.):
- …temos aqui o caso do seu Jair. Tudo bem, seu Jair?
- Ago-gora sim, Neide.
- Seu Jair, conta para o pessoal de casa o que aconteceu com o senhor.
- Bom, Neide, trabalhei quase dois eons como homem-placa, né? Um pouco depois da última glaciação, pe-percebi que já n-não conseguia mais me despir da placa: “Compro Ouro” na frente; “Chapa do Pulmão” atrás.
- Sei, e aí…
- A-aí acontece que umas 4, 5 décadas depois disso, meu peito comess… começou a brilhar debaixo da placa e a p-pele, ossos e carnes começaram a ficar transluss…sss…transparentes na altura dos pulmões.
- E aí entra o CREH, não é, seu Jair?
- Ô-Ô-Ô CREh, certo Neide. P-participei do programa de Reabilitação do C.R.E.H. e meu mmmmantra agora é “Você não é a placa que usa”, “Você não é a placa que usa”, “V-v-você não é a…”
- … a placa que usa”. Muito bom, seu Jair, muito bom. E olha gente, o CREH fica pertinho de São Paulo, 45 minutos de carro pela Anhanguera…

• Daqui a pouco tem letra traduzida da primeira posição! Não sai daí!
• Quanto ao cheiro, são os feromônios, né? E eu me lembro muito do Napoleão…
• … e você vai descobrir logo porque nós temos o melhor conteúdo da televisão…
• Té precisando de sofá?
• A melhor!
• Se você quer café de verdade…
• Fazendo tudo por você!
• A torcida invadiu o Centro de Treinamento e agrediu dois pastores que davam um curso de motivação para os jogadores…
• …confrontos na área central da cidade…
• Invente a vida, seja Bubble Light até debaixo d’água…
• …foram encontradas flutuando sobre o lago…
• …sem marketing cultural como é que alguém trabalha aqui, porra!
• Eu quero dar dinheiro mas ninguém vem pegar. Eu quero dar amor mas ninguém quer…
• …mas aquelas pedras devem ser protegidas!
• Eu sou Bubble Light até debaixo d’água. E você?
• A seguir: “Banshee”. Só aqui, no Canal + Cinema!

Filme.

Filme da tarde

1ª parte
A menina estendeu seu braço longo e branco através do espaço que separava os dois conjuntos dentados de lâminas vítreas, superior e inferior, em direção a um punhado de granizo que escorria próximo ao vão estilhaçado. Sua mão adquiriu o contorno convexo e fechado de uma pá, conseqüência visível do propósito de matar a sede e do cuidado próprio de quem não quer ferir os dedos numa passagem estreita, ainda mais naquela, assemelhada à caverna glacial de estalactites e estalagmites pertencente ao pesadelo de algum esquimó doente.
O cuidado, entretanto, foi vão, uma vez que, se a mão não foi ferida, o descuido posterior encarregou-se de rabiscar uma onda escarlate fina em seu cotovelo.
Ventava bastante e, em alguns momentos, o corvo que espiava a cena, empoleirado num galho da árvore quase morta e frontal à cabana, perdia de vista as agitadas figuras por causa das partículas brancas suspensas do chão, pequenas manifestações físicas da pressa dos demônios aéreos em determinar o final de um ciclo.
O corvo era velho e sabia esse tipo de coisas já há algum tempo. Sabia também que o casal da cabana não morreria. Não havia Cheiro de Morte no local… Imagino que se fosse um corvo esperto e jovem, sua fome o teria levado do lugar e feito com que procurasse olhos que pudesse beliscar. Mas aquele pássaro decrépito era paciente, curioso… e tinha certeza de que não duraria até o próximo inverno para poder testemunhar, uma vez mais, a presença patética de humanos nos arredores.
Morte, gente, inverno, demônios do ar… o corvo lembrou-se da primeira vez em que viu uma panela, um livro, um relógio, pão e uma faca, óculos e um violão.
Certa feita, um jovem magro e encurvado, que certamente teria feito sucesso com as fêmeas se fosse pássaro carniceiro, visitou aquela área do parque a fim de se livrar de um fantasma. Como a preferência de tal espírito desgarrado era a cidade grande, o jovem buscou refúgio naquela cabana. Mais do que apenas exorcizar a tal entidade, o rapaz procurava um outro tipo de existência, um jogo com regras diferentes daquelas que havia respeitado durante todo o tempo anterior, a começar pela a regra segundo a qual era tremendamente estúpido falar com seres que não fossem humanos.
Assim, por mais absurdo que possa parecer, toda manhã a cabeça do sujeito aparecia na janela e sua boca soltava, aos gritos, um discurso prontinho sobre o que acontecera e acontecia em sua vida, até aquele instante.
Às vezes, o corvo prestava atenção; outras vezes, voava ao primeiro sinal de gritaria, mesmo porque a qualidade dos discursos variava bastante ( o garoto não era um orador genial). Foi assim durante dois anos e, é claro, ninguém nunca respondeu aos gritos…
Não era raro a cabeça mostrar olhos encharcados e as veias da testa saltadas. Uma vez, a cabeça vomitou no meio do discurso matutino e em outra, ainda, começou a rir sem parar, aparentemente desistindo do falatório diário.
Três dias antes de partir, no meio da madrugada, o jovem magro e encurvado levantou sobressaltado pelo sibilo ensurdecedor do seu “fantasma de estimação”. O corvo surpreendeu-se: era um Banshee! Então os dois, Banshee e magrelo, travaram uma luta espetacular. A casa tremia, as coisas voavam e todas as janelas racharam. Uma luz prateada contornava o rosto e o manto do espírito desgarrado lembrando o brilho trêmulo de uma vela ao vento. A loucura prosseguiu por toda noite até que, num abraço espiral, a carne do jovem e o éter da aparição tornaram-se uma coisa só. Num arroubo de prazer, o até então magrelo urrava, agora, pela graça do poder. Fora preciso abandonar o fedor daquela cidade gigantesca, ao norte, para conseguir lutar e vencer em causa própria.
O pássaro percebeu, então, que não havia lutado por muitas coisas interessantes durante sua vida. Era sempre a fome, a vontade de cagar e de copular, a preservação de um ou outro segmento miserável de terra, a fuga alucinada… não havia espaço para o sonho. E aí, enquanto pensava, o pássaro olhou para si e percebeu, pela primeira vez em sua vida, pela primeira vez em sua vida – o eco na cabeça não parava – que não era um corvo, não era um pássaro, não estava na floresta nem tinha presenciado a luta de um magrelo aventureiro contra um espírito, e tampouco havia sentido o cheiro de sangue que jorrava do braço alvo da garota na cabana…

Intervalo: “Invente a vida, seja Bubble Light até debaixo d’água…”

2ª parte
Era um homem! Patético e nu, na cela acolchoada de uma clínica psiquiátrica! O corvo morrera, cedendo seu lugar ao inferno da sanidade recém desperta que acorrenta qualquer vestígio de coerência numa jaula tão profunda quanto evidente, som e tormenta da vida de todos os que ousam duvidar dos limites e da possibilidade de estragos causados por uma garrafa de vodka, seu conteúdo transparente e os cacos afiados, ambos atravessados, em gargantas opostas, doze cabalísticos anos atrás, numa rua em frente ao portão da casa alugada para a temporada, e… e…

O telefone tocou. Reunião numa churrascaria do centro com um demônio do terceiro ciclo infernal para discutir a liberação de verba para a reforma do laboratório fotográfico na faculdade. O demônio trabalha para a mantenedora já há algum tempo (os demônios têm invadido a administração escolar já há um bom tempo). Vou descer caminhando mesmo.

Podia ser pior. Podia ser um demônio do quarto ciclo do inferno (eles gostam de marcar reuniões em cemitérios). Ou um hippie. Ou esse maldito garoto-propaganda dos refrigerantes Bubble Light.

O ciclo das marés e as placas teu(tec)tônicas

O centro estava uma zona. Duas grandes ondas humanas se chocaram na 25 de março. A incompetência costumeira da prefeitura permitiu que dois grupos de manifestantes se encontrassem no mesmo local, na mesma hora: centenas de representantes da segunda onda white power, simpatizantes confessos do movimento neo-black e abstinentes sexuais conhecidos, simplesmente esbarraram com a ala gay do P.E.B. (Partido Evangélico Brasileiro). Eu ia entrar nas masmorras da 25 para comprar óleo de peixe-boi (não sei porque, demônios do terceiro ciclo infernal adoram óleo de peixe-boi) mas dava para ouvir o barulho dos sabres de luz evangélicos de longe, então, para evitar o terremoto, simplesmente continuei a Boa Vista até o fim, passei pelo Largo do Café e desci a São João em direção à churrascaria.

Primeiras impressões do almoço

Mesa próxima à janela, ou seja, sol batendo na sua cara o tempo todo. Ar condicionado no talo (o maldito deve até saber que eu tenho sinusite, não suporto ar condicionado). Bufê de saladas com esculturas de gelo “enfeitando” o ambiente. Área dos fumantes. Um inferno.

O demônio não poderia ser mais brega, arrogante e insignificante. Você, leitor, conhece o tipo: magro, vermelho, bigodes, chifres, e rabo pontudo. Vestia um terno azul marinho bem cortado e bebia, é claro, Bubble Light com gelo, enquanto mastigava o copo de vidro. Foi extremamente cordial, como era de se esperar. Dez minutos depois de iniciar a conversa já havíamos acertado o valor a ser depositado como orçamento para a reforma do laboratório e a conversa caminhava inevitavelmente para o futebol. De repente, o previsível terceiro golpe. Só não sabia como nem quando ele chegaria, mas quando você trata com um demônio, antes ou depois do refrigerante, ele fode você:

- Por favor, amigo, não me pergunte como, mas fui informado que você se encontrou com um homem chamado Elias Rode hoje cedo, após uma indisposição com o edifício em frente ao seu. É verdade?
- É.

Ele fode você

Carreguei o bloco com os papéis restantes que Elias Rode havia me dado. Não tinha como mentir. O bloco esta ali comigo, na churrascaria.

- Quer um pedaço de chouriço?
- Não. Fico com vontade vomitar. (pombos, flores, lenços, espelhos).
- O que é isso?
- Isso o que?
- “(pombos, flores, lenços, espelhos)”.
O cretino lia pensamentos.
- Desculpe, você estava me perguntando sobre Elias Rode…
- Oh, sim é verdade. O senhor Rode trabalhou conosco durante alguns anos. Seus serviços de escriba e sua perícia e bom humor como ilusionista amador eram muito apreciados pelos colegas e pela direção da mantenedora. Há três dias, perdemos qualquer tipo de contacto com o senhor Rode.
- Ela trabalhava para vocês até há três dias?
- Não, já não trabalhava para a mantenedora há algum tempo, mas havia, digamos, uma conexão entre o senhor Rode e nossa mantenedora e gostaríamos muito de preservar oãxenoc asse…
O demônio começou a falar de trás para frente, o que indicava a presença ou a proximidade de uma autoridade superior. Era hilário. Se já não fosse vermelho, poderia dizer que corou como uma garotinha.
- Desculpe. Meu celular está tocando. Com licença.
- À vontade.
(…)
- Pronto. Era o pessoal da televisão. Queriam um depoimento sobre o que aconteceu agora há pouco no ar com o senhor Maurício Wanderlei e o apresentador do jornal da manhã. O senhor deve saber, Maurício Wanderlei é um grande investidor de nosso grupo…
Não sabia.
- Então não sabe? Bem, senhor, acho que nossos negócios aqui estão concluídos. Obrigado por ter vindo e tenha um bom dia!
Nem tentei voltar ao assunto do Elias Rode. Não haveria como, se o demônio não quisesse. E o demônio não queria.

Fodido. Certamente fodido.

As ruas

Saí da churrascaria e percebi que havia anoitecido. Acontece assim quando você encontra essas criaturas. Às vezes eles roubam algumas horas do seu dia discutindo qualquer coisa que poderia ser resolvida em 10 minutos.

São Paulo à noite às vezes parece uma grande tela em cima da qual caminhamos. A cidade de cimento e luz elétrica borrada pela abertura dos obturadores da nossa cabeça cheira café recém passado e urina no Centro.
“Anhangabaú” significa “buraco do diabo”. Infame. Caminhava de volta para a casa e procurava ……., cruzando centenas de ondas eletromagnéticas invisíveis, prostitutas, policiais, pessoas e outros seres de terno e gravata. Havia também, é claro, o povo-vaca, homens com olhar cansado e mulheres roliças, geralmente carregando sacolas que esbarram em você toda hora, não falam nem se comunicam por meio de gestos e por isso não sabem/podem pedir licença. Tipologia Antropozoomórfica Urbana (T.A.U.) era uma das minhas disciplinas preferidas na época em que era aluno. O povo-vaca, aprendi, foi o resultado mal sucedido de uma experiência genética realizada nos laboratórios da Unicamp. Triste mas engraçado. Com os chifres raspados e as tetas escondidas, parados, nem dá para perceber.

!!!!!!!!!!

*segredos*
São Paulo à noite desenha um mapa ilógico e encantador. Para mim. E esse é um segredo que eu conto para você, leitor. Todo o lixo e o despedaçamento constante da produção de corpos, mentes e sonhos não parece suficiente para apagar a saudade que eu sinto de lugares, aqui, que só eu conheço, e de lugares, por toda parte, aqui, que nunca existiram além da minha cabeça, pessoas fronteiriças que usam minhas retinas como ruas, vilas, avenidas infinitas e alamedas, becos, ruelas, barracos infiltrados e coberturas – para dançar.

Eu nunca tive uma dança sozinho com minha senhorita preferida, a triste, triste fábrica de notas encantadas – que não existe se a procurarmos em cada e toda forma maníaca e grandiloqüente de celebrá-la e que ainda assim se impõe nos cacos de vidro da sagrada colisão nossa de cada dia. Tudo bem. Há noite em São Paulo escorrendo por nós e por nossos filhos. Há noite em São Paulo se interpondo entre os porcos e nossos ossos. Há o sagrado cotidiano noturno da bruxaria néon e, com as condições certas, nada poderá ser aqui esquecido. Ao contrário do que pensam todos os idiotas, nada é esquecido em São Paulo. Nada. E isso nunca foi segredo para o homem que eu procurava debaixo dos viadutos, enquanto voltava para casa.

Meu pai (a terceira margem da rua)

Ali estava ele. Meu pai era o gigante a ser batido. Aquele cara que aparece na televisão com raios e trovões acendendo atrás. O celta matador de ursos. Meu pai fora um grande rei-mendigo mas na época dos fatos narrados já estava muito doente para lembrar de qualquer coisa. Sempre havia um séquito ao redor das cama de caixotes dele, então fazia um tempo que eu não me aproximava, mesmo quando ia para o centro. Bem, era isso e o cheiro. Naquela noite, havia poucas pessoas com ele, de modo que ele conseguiu me ver passando. Cochichou alguma coisa no ouvido do segurança impecavelmente vestido que guardava o seu leito e o cara veio falar comigo. Pediu-me que esperasse um pouco. Momentos depois (a essa altura da espera chovia novamente), outro segurança veio falar comigo. “Esse é realmente grande, o filho de uma puta”, lembro de ter
pensado, enquanto o castelo ambulante vinha marcando o cascalho do chão com seus coturnos lustrados.
Meus encontros e minha vida inexistente com papai me perturbavam mais quando chovia. O segundo segurança me entregou um pedaço de papel com um bilhete do meu pai. “Se eu pudesse, ajudaria você, mas estou doente. Talvez você morra antes de mim. Talvez eu morra hoje. Lute. A propósito: o Rode está escondido naquele desmanche de submarinos perto da Cidade Tiradentes. Ele sabe que você é meu filho.”
As pessoas achavam que eu não tinha mais o que fazer. Meu pai, aquele demônio do caralho, esse Elias Rode. Bem, de um modo bem específico, eles estavam completamente certos.
Fui embora quando uma das futuras viúvas do meu pai, stripper aposentada, chegou chorando. Havia uma lousa pendurada em uma das colunas do viaduto nas quais se via os horários de “vizita” (estava escrito assim). Dentro de meia hora, exatamente às 23h. e 45min., a stripper teria que ir embora. Um ônibus cheio de turistas de Ribeirão Preto iria chegar para os autógrafos. Bem, eram os autógrafos e o cheiro.

A cidade escamoteada

Agora sim. Para casa direto. Não. Ainda não. No caminho, uma capa de revista de divulgação científica exposta em banca de jornal mostrava o rosto do francês fazedor de esculturas com bexigas e botes com cascos de tartarugas marinhas. Eu sabia que o conhecia. Comprei a revista para relembrar toda a história…

Gaston Stalk viera a cidade 15 anos antes dos fatos narrados aqui, a fim de pesquisar as emanações cromáticas da aura paulistana, tema de sua tese de doutorado. Para poder sustentar cientificamente os resultados, Gaston precisou medir distâncias em toda a cidade a partir do marco zero, na praça da Sé. Foi então que o improvável foi revelado: medida do céu, de um lado a outro, a cidade tem 90 quilômetros. Medida do chão (com ajuda de fitas, cálculos e muita paciência), em linha reta, a distância entre o marco zero e o principal terminal urbano de ônibus da Cidade Tiradentes somou 305 quilômetros! As medições foram repetidas 38 vezes. O resultado foi exatamente o mesmo: 305 quilômetros. Depois de 3 anos de intensa pesquisa internacional, físicos hindus atribuíram a diferença de distância à existência de uma “zona neutra”, uma dobra espaço-temporal, e até hoje essa tem sido a teoria mais aceita pela comunidade científica para explicar o fenômeno. Depois da descoberta, toda pessoa que entra ou sai da Cidade Tiradentes é pesada, medida e tem que fazer exame de retina. Os exames são conduzidos por agentes municipais. Quando entram ou saem da Cidade Tiradentes, muitas pessoas mudam de tamanho (variações de até dois metros) e têm a cor dos olhos e da pele transformada. Gaston Stalk foi diagnosticado como esquizofrênico um ano após sua descoberta. Fugiu de duas clínicas e, como não tem parentes vivos na França, transformou-se numa figura errante da cidade. Nunca mais se aproximou da Cidade Tiradentes. Alguns dizem que virou um alquimista-sátiro, seja lá o que isso signifique.

Já em casa (o prédio vizinho cantava uma música estranha), lia enquanto preparava uma mochila para a viagem do dia seguinte até a Cidade Tiradentes. Telefonei para a faculdade e avisei que não iria trabalhar.

O vôo

A viagem até a Cidade Tiradentes foi mais agradável e segura do que eu imaginara que seria. Na fronteira, fui abordado por um “stalker”. Stalkers são moradores da Cidade Tiradentes que levam turistas para tours ousados pela “zona neutra”. Aceitei os serviços do stalker mas marquei um encontro com ele mais tarde, já dentro da zona, pois não queria que ele soubesse quais eram minhas intenções ali e ainda não havia pensado numa desculpa convincente. Entretanto, precisava de alguém que me levasse ao desmanche de submarinos.

Na fronteira, além dos stalkers, dos moradores e do pessoal da prefeitura, havia pelo menos mais dois grupos, ambos femininos: as devotas da fraternidade Aulukya e as senhoras da paróquia de Santa Tereza D’Ávilla.

As mulheres da fraternidade estavam sempre na fronteira e faziam o gênero “Racional Superior – Universo em Desecanto”, exibindo cartazes sobre o santo hindu Aulukya, o “comedor de átomos”, nascido há 2900 anos e responsável pela formalização de uma teoria segundo a qual os diferentes estímulos sensoriais a que o homem reage são produzidos por variações vibratórias nos elétrons e prótons. As vibrações, por sua vez, são reguladas por “prana” ou energias mais finas que as atômicas. De acordo com “o comedor de átomos”, algumas pessoas ou circunstâncias específicas podem fazer com que o prana recombine a sua estrutura vibratória, provocando efeitos “maravilhosos” para os olhos não iniciados. Exatamente o caso da Cidade Tiradentes. Não, eu não sabia e não sei que circunstância específicas são essas mas as devotas acreditavam e ainda acreditam que o próprio espírito de Aulukya providencia a “dobra” espaço-temporal dali
).

Já as senhoras da paróquia da Santa Tereza D’Ávilla estavam ali pela primeira vez, apesar de seu interesse pelo local antecipar sua presença em muitos, muitos anos, graças à profecia de que um milagre “estilo” Santa Tereza ocorreria ali exatamente naquele dia.

Para mim, um pouco de cada crença daquelas parecia fazer sentido. Ainda mais quando, depois dos exames, atravessei a fronteira e comecei a flutuar. Meu corpo simplesmente perdeu a gravidade, desprendeu-se e fui subindo, enquanto uma das senhoras da paróquia de Santa Tereza D’Ávilla, super preparada para a situação, sacava um par de sapatos de chumbo e gritava “Segura, meu filho, segura!”

Não segurei. Claro. Continuei subindo. Vista de tomada aérea a partir de um balão. Bonito, luminoso. Diferente. Ficava cada vez mais frio e o ar rarefeito tornava a respiração difícil. Lá em cima, depois de um tempo, comecei a alucinar. Ou não. O que sei é que conversei com o sábio Aulukya, que me esperava “num dos portões do paraíso, não o mais bonito ou o maior mas, ainda assim, meu amigo, um portão do paraíso” (como ele mesmo disse) e exalava perfume de sândalo, rosas e jasmim.

- Amigo, há um pomo emocional para cada emoção que acalentamos. Uma vez rompida sua casca, uma série de memórias vêm à tona e isso nem sempre parece benéfico ainda que seja, certamente, benéfico.
- Senhor Aulukya, certo? Apenas um palpite.
- Certo, amigo.
- Senhor Aulukya, estou alucinando ou o senhor é real? Esse ar rarefeito…
- Você não está alucinando, amigo. Mas também não está como pensa que está e não está onde pensa que está.
“Conversa filosófica”, pensei. “Tentemos algo mais prático”.
- Senhor Aulukya, onde exatamente eu estou?
- Num dos portões do paraíso, não o mais bonito ou o maior mas, ainda assim, meu amigo, um portão do paraíso. E também em outro lugar.
- Meu pai me disse que eu talvez morra em um futuro breve. Meu pai é um rei-mendigo, por isso é como um corvo, fareja morte. Aliás, assisti a um filme hoje à tarde… bem, não importa. Então: vou morrer mesmo, o senhor pode me dizer?
- Pode agüentar a verdade, amigo? Vejo uma recombinação em sua energia vital que revela uma transformação importante para breve.
- enTão…
- Sim.
- …
- VeJA AmigO, dois PaPgaiOS!
Cabeça embaralhada. Eu não estava preparado para esse tipo de revelação, é claro! Quis dar uma de macho e quebrei a cara. Hora de ir embora.

- Algum recado para as suas devotas lá embaixo?
- Diga-lhes para comer mais vegetais e fazer sexo mais vezes.
- OK. Até.
- Até MaiS AIMIgggo.

Segurei na linha de uma das pipas (não chamo de “papagaio”) e usei como guia para descer. Tinha cortante, é óbvio, e minha mão começou a sangrar. Espero que as gotas não caiam na cabeça de ninguém. Isso seria pior do que cocô de passarinho.

Peregrinos

O stalker com quem eu havia conversado há pouco me encontrou. Eu estava ao lado do empinador de pipa. O menino achou o maior barato eu vir descendo pela linha. Não estava assustado nem nada. Eu também não. Durante toda essa puta loucura, permanecia num estado soberano. Não entendia como, mas não estava nem aí.
- Que show você deu, hein, cara?
- Ninguém tinha flutuado antes por aqui?
- Não. As velhinhas ali fora ficaram loucas mas têm o maior cagaço de entrar. Pediram que eu trouxesse esses tamancos aqui, ó. Cada um pesa um bujão de gás. Comédia. A televisão está vindo. Vai querer falar com eles?
- Não vou não. Vou soltar a linha agora amiguinho.
- Ô tio, deixa o Bruno e o Rafael virem aqui pra ver você?
- Quem são o Bruno e o Rafael?
- Meu primo e meu irmão. Eles estão quase chegando da escola. Eles passam aqui na rua.
- Não sei. Você está com pressa, amigo?
- Se o preço ainda for o mesmo que nós combinamos, não, posso ficar o dia inteiro aqui. Mas aí quem perde é você. Quer conhecer o quê primeiro?
- Me disseram que aqui existe muito submarino usado pra comprar. Um cara rico me pagou uma grana pra vir aqui comprar um dos grandes. Estudei com ele no colegial. Virou um publicitário colecionador estúpido. Mas dinheiro é dinheiro.
- É. Então, a área dos submarinos é meio longe. Era bom a gente sair daqui a pouco pra conseguir voltar de noite.
- Certo, longe quanto?
- Cento e três quilômetros. O ônibus sai do terminal e pega o túnel Paulo Maluf, que atravessa a Cidade Tiradentes. Duas horas com trânsito bom.
- Duas horas debaixo da terra numa dobra espaço-temporal. Não é perigoso?
- Outro dia um ônibus sumiu e reapareceu em Machu Pichu, no Peru. Lembra aquela história do túnel em São Tomé das Letras que os doidos falava que ia até Machu Pichu? Então, o túnel de verdade é aqui, cara!! Tirando essa loucura, sem perigo.
- Vamos lá, então. Amiguinho, não vai dar pra esperar. A gente se vê.
O olhar do menino mudou. Assustador.
- O Bruno e o Rafael pediram para você esperar, tio. O Bruno e o Rafael sabem quem você é, sabem quem é o Elias Rode, sabem que o senhor conversou com um demônio do quarto ciclo do inferno, sabem que o senhor dorme de porta aberta, sabem que o senhor é canhoto, que nasceu numa quarta-feira e que talvez morra hoje à noite.
Quando o moleque terminou de falar, o stalker já tinha se mandado. Se eu fosse ele, depois de escutar o que ele escutou, também me mandaria.
- Quem são o Bruno e o Rafael?
- O Bruno é meu primo e o Rafael é meu irmão. Eles são peregrinos.
- Peregrinos?
- Peregrinos paulistanos. Eles andam pelo túnel, tio. Eles conhecem lugares e tempos diferentes e me contam um monte de histórias. Eles me contaram que o senhor ia segurar a linha da minha pipa hoje.
De repente, uma sombra atrás de mim.
- Oi Bruno! Oi Rafael! Olha o voador aqui…
Assustador.

Gigantes e submarinos

O Bruno tinha pelo menos dois metros e meio, dois e sessenta de altura. O Rafael era um pouco mais baixo, mas era mais forte que o primo. Os dois vestiam aquelas roupas de jogador estadunidense de basquete mais jóias. Bruno tinha aquelas marcas que as espinhas deixam no rosto: dezoito anos no máximo. Rafael era mais novo, uns quinze, e não tinha cicatrizes visíveis no rosto porque ainda tinha as tais espinhas.

- A altura tem alguma explicação?
- A gente é filho cruzado, tio. Tipo, minha mãe é nascida aqui na C.T. Meu pai, não.
- Você é o Rafael, irmão dele aqui, não? Mas ele não é gigante.
- Porra, tio! “Gigante”? A gente não gosta de “Gigante”. O seu Rode chama a gente de “titãs”.
- É. “Titãs”.
- Vocês conhecem o Elias Rode, então? Nada surpreendente, na verdade. E aí, onde ele…
- O seu Rode disse pra gente vir buscar você. Vamos!
- Tchau, tio!

Reparei direito no menino da pipa, o irmão do Rafael. Tinha olhos violeta. Bonito.

No caminho, fui lembrando a história toda dos submarinos. As constantes cheias, enchentes, inundações e invenções transformaram 25% da cidade em provável rede de “pluviovias”. Analistas econômicos, urbanistas, jornalistas e cientistas começaram a opinar que comprar um submarino seria um excelente “investimento” (odeio essa palavra). A “classe média alta” (?) começou a encomendar submarinos da ex-URSS a “preços especiais” e o resto o leitor pode imaginar. O impressionante era que ali na Cidade Tiradentes os submarinos eram realmente úteis pois parte do túnel Paulo Maluf ficava permanentemente submerso e alguns trechos só eram transitáveis com ônibus adaptados ou carros híbridos, as “barquinhas” anfíbias criadas a partir de peças originais dos submarinos.

Os moleques gigantes me guiavam por uma galeria que corria quase paralela ao acesso principal do túnel. Na galeria só dava pra ir a pé. De vez em quando a gente encontrava umas pessoas. Era escuro, abafado e poeirento mas não era apertado. Parece que a idéia original era fazer um túnel para o metrô, também. Por que túnel? Porque é mais caro. Por que não deu certo? O prefeito não se reelegeu e o candidato vencedor descobriu “irregularidades” no processo de licitação. Um enredo conhecido e eterno.

As galerias subterrâneas formavam sinapses a cada 100 ou 150 metros. Caminhos infinitos. Uma trama neurótica inconsciente na cidade. Onde sairiam os que por este ou aquele caminho se aventurassem?

- Chegamos. É só subir a escada ali, ó. Qualquer coisa, avisa pro seu Rode que a gente vai estar no fliper da esquina jogando.

O plano se revela

O cachorro não parava de latir. Havia um cachorro guardando o portão do desmanche. Um cachorro preto. Veio então uma voz correndo lá de dentro e o cachorro parou. Voltou-se e foi em direção da voz. Era o Elias Rode. O fato de reconhecer a voz dele me acalmou e depois, quase instantaneamente, me acorrentou numa parede de apreensão. De um jeito ou de outro, a coisa começava a acabar ali.

Elias Rode veio me encontrar. Vestia camiseta regata e bermuda. Estava suado, como qualquer ser humano ficaria naquele tempo abafado. Não havia, aparentemente, nada sobre-humano nele. Era a mesma pessoa mas era, também, alguém muito diferente da figura que eu encontrara no metrô.

Rode me cumprimentou de forma muito amistosa e a cena toda aconteceu de modo convincente. O aperto de mão foi cordial. O homem era “gostável”. A conversa:

- Senhor Rode, estou aqui porque gostaria de saber o que está acontecendo na minha vida. Já há alguns dias não me sinto bem. Meu encontro com o senhor, a impressão de não estar “aqui”. Eu não sei… e além de tudomefalaramqueeuvoumorrerempoucotempo!!!
- Com calma, meu amigo. Eis o que ocorre: São Paulo será sacudida por uma nova realidade. E São Paulo renascerá para aqueles que ainda não o entenderam. Veja que a explicação de tudo está, de algum modo, no bloco que lhe entreguei ontem de manhã.
- Desculpe, senhor, mas tive um impulso e atirei a folha para tapar um buraco na parede do metrô, instantes após ter recebido seu presente.
- Compreendo. O senhor deve saber que realmente não está exatamente “aqui”, como mesmo disse. O senhor, meu amigo, transita simultaneamente por dois mundos, está em estado permanente de dormência superconsciente, sim?
- Sim… sim. Estou dormindo, não é? É um sonho?
- Não exatamente. O senhor está mais acordado do que o costume. Entretanto, devido a natural incapacidade de sua consciência em organizar percepções de modo satisfatório em tal estado, o senhor tem uma sensação de dormência permanente e a sua São Paulo interna intercala momentos de esplendor com a São Paulo que não depende do senhor para existir.
- Como sabe isso, senhor Rode?
- Querido amigo, sou um peregrino, assim como os jovens titãs que o trouxeram até mim. Como tal, há privilégios que me são concedidos por São Paulo.
- São Paulo. O santo?
- Pois é essa a questão: “A primeira forma de controlar alguma coisa é dando um nome a ela”. O senhor se lembra? Esta é a chave para a compreensão de nossa condição neste momento. O santo e a cidade são uma e a mesma coisa em diversos e caprichosos modos, uma vez que ambos são conhecidos pelo mesmo nome. “A” São Paulo é trânsito permanente, o não-lugar perfeito, o espaço de todos e de ninguém, o que compactua com a disposição de “O” São Paulo para a viagem. A noiva cidade representa a organização pitoresca e grandiloqüente de um sonho coletivo; eis que não deve ser surpresa perceber que o cortês e santificado noivo é o grande responsável pela institucionalização do cristianismo. Finalmente, há o inconveniente que nos trouxe a essa situação. “A” São Paulo deveria ser usada e não usar, deveria servir para comprovar a poderosa capacidade de convívio e tolerância humana mas, como em nossos tempos, acabou servindo para desacreditar os esforços humanitários. Do mesmo modo, a mensagem paulina vem sendo usada para justificar os mais odiosos atos desde sua apresentação para o mundo: escravidão, abusos cometidos contra a mulher e tantos outros, meu amigo…
- Eu e você, senhor Rode, o que isso tudo significa para nós?
- Para mim, a oportunidade de usar minha capacidade de sugestão em prol de uma causa santificada. Com a ajuda desta magnífica dobra temporal onde estamos e com a cobertura que os veículos de comunicação estão prestes a nos conceder, farei os paulistanos acreditarem que podem ser os titãs para os quais essa cidade foi construída. Retomaremos o controle da cidade. Os prédios insensíveis se curvarão uma vez mais a nossos comandos. O dinheiro engraxará os sapatos dos engraxates. Os carros nos observarão com respeito. Os produtos químicos que inundam nossas narinas e poros serão purificados pelo toque de nossas vozes.
- E quanto a mim?
- Você será um canal e um mártir para nós. Ou será um canal. Ou um mártir.
- Não. Eu serei apenas “morto” segundo meu pai. Eu tenho um demônio me perseguindo, senhor.
- Errado. Os demônios não podem lhe fazer nada, senhor. Se tirarem sua vida, serão varridos da cidade pela indignação dos telespectadores que doravante acompanharão sua vida. Se o pouparem anonimamente, o senhor me seguirá. “Insolente presunçoso”, o senhor pensa? Pois saiba que fui informado por ele!
O pequeno homem apontou para cima.
- Ele?
- Senhor!
O pequeno homem agora apontava uma arma para mim. Precisei admitir: ele tinha um plano.
- Senhor!
Um belo tiro no peito e eu ainda consegui fazer a pergunta:
- Se a idéia estava na anotação, porque o poema?
- Um presente, senhor.

Antes de apagar, percebi que o cachorro lambia meu rosto. Lembrei-me de uma música e de uma pessoa. Talvez fosse o caso de deixar o poema como herança para ela.
A música (a letra):

A black eye dog he called at my door
The black eye dog he called for more
A black eye dog he knew my name
A black eye dog he knew my name
A black eye dog
A black eye dog

I’m growing old and I wanna go home
I’m growing old and I don’t wanna know
I’m growing old and I wanna go home

A black eye dog he called at my door
A black eye dog he called for more

São Paulo – a santa cidade

Porque, sendo livre de todos, fiz-me escravo de todos, a fim de ganhar o maior número possível.
Procedi, para com os judeus, como judeu, a fim de ganhar os judeus; para os que vivem sob o regime da lei, como se eu mesmo assim vivesse, pra ganhar os que vivem debaixo da lei, embora não esteja eu debaixo da lei.

Aos sem lei, como se eu mesmo o fosse, não estando sem lei pra com Deus, mas debaixo da lei de Cristo, para ganhar os que vivem fora do regime da lei.

Fiz-me fraco para com os fracos, com o fim de ganhar os fracos. Fiz-me tudo para com todos, com o fim de, por todos os modos, salvar alguns.
(trecho da Primeira Epístola de Paulo aos Coríntios)

Conexão São Paulo-Carolina do Sul

1709

Numa carta a seus superiores eclesiásticos, o Reverendo Francis Le Jau, missionário huguenote francês que labutava nos campos do Senhor, ou mais prosaicamente, nas plantações de fumo da Carolina do Sul colonial, descreveu sua prática costumeira ao batizar escravos africanos.

Le sentia uma responsabilidade de “afastar toda pretensão dos escravos adultos que vou batizar de serem livres por causa do batismo” e exigia que o escravo consentisse em fazer uma declaração formal antes do batismo: “declaras na presença de Deus e perante esta Congregação que não pedes o santo batismo por qualquer intenção de te livrares do dever e da obediência que tens para com teu patrão enquanto viveres, mas só para o bem de tua alma e para participar das graças e bênçãos prometidas aos membros da Igreja de Jesus Cristo”.

E nos diz São Paulo, a santa cidade:

“Quero que todos os homens sejam tais como também eu sou; no entanto, cada um tem de Deus o seu próprio Dom; um, na verdade, de um modo; outro, de outro.

Os projetos de Paulo

“Irei ter convosco por ocasião da minha passagem pela Macedônia, porque devo percorrer a Macedônia.

E bem pode ser que convosco me demore ou mesmo passe o inverno, para que me encaminheis nas viagens que eu tenha que fazer.

Porque não quero, agora, ver-nos apenas de passagem, pois espero permanecer convosco algum tempo, se o Senhor o permitir.”

Acordei com a voz de um homem dentro da minha cabeça. Quase imediatamente lembrei que havia levado um tiro e que, portanto, ou estava em algum Posto de Saúde estranho ou estava Morto. A segunda hipótese me parecia, de longe, a mais provável, ainda mais depois que vi o que vi.

Helicópteros

Ouvi o barulho das hélices de helicópteros e me lembrei de um trecho do Apocalipse de João que se refere a gafanhotos e coisas do tipo. O mundo havia terminado para mim. Agora só havia formas brancas no ar, que eu perseguia com os olhos mortos mais vivos do que sempre. Os helicópteros gafanhotos se bandearam para baixo, a fim de derramar sua fome sobre a terra, consumir os infiéis ou coisa que o valha, e foram substituídos pela forma de pássaros que escalavam correntes de ar quente e pairavam acima da minha cabeça. Durante alguns minutos eu acompanhei seus movimentos. Eram dezessete ao todo. Brancos. Os pássaros e aquele som de vento, fraco e inspirador. Ah, me lembrei de uma vez e preciso contar:

“Embriagado, numa madrugada de 1997, sentei-me aos pés do Cristo de gesso ou cimento de uma cidade no sul de Minas Gerais, acompanhado por um amigo Márcio. Fizemos de conta que era possível conversar com o Nazareno e, assim, monologamos por algum tempo. O Cristo de gesso parecia prestar atenção nas colinas em frente. Olhamos para a mesma direção, o sol já raiava, e percebemos umas plantas trepadeiras contorcendo-se em torno do arame farpado que dividia as propriedades. O Márcio desceu, pegou uns dois metros de trepadeira e nos enrolou com aquela planta. Aí, ali parecíamos dois reis madrugadores, esperando o carro que nos levaria aos nossos súditos, após período de retiro no qual uma revelação divina nos fora oferecida. Um carro, real e não Real, realmente apareceu para nos levar dali. Nossos amigos tinham voltado, após escoltar as ‘namoradas’ de ocasião para as suas casas.”

“Bem, de qualquer forma, bêbado, foi nesse dia que mais me aproximei de alguém como você”, já pensava, enquanto olhava aquela figura recém revelada. Magro, barba, camiseta branca, calça jeans e tênis genérico estilo All Star. Segurava um crânio na mão.

- Certo. Só uma correção. Aquelas criaturas ali em cima não são pássaros. São anjos, amigo.
- Dezessete Serafins?
- Tronos.
- Tronos. E você é São Paulo.
- Sim, eu sou.
- E fui morto para que você me revelasse que tudo o que está acontecendo na cidade que leva o seu nome faz parte de um grande plano, blá, blá, blá…
- Não. Elias Rode pensou que assim seria, mas foi um pensamento estúpido porque, como facilmente se nota, você não precisaria levar uma bala no peito para perceber tudo isso.
- Não vou pedir para voltar. Não vou agradecer a dádiva de estar conversando com um santo. Não vou participar dessa tentativa de resgate dos propósitos da cidade. Foda-se o fato de que São Paulo desviou-se de seu propósito inspirador e nobre de servir como acolhedora e prova da possibilidade de convívio para se transformar naquele pesadelo de louco em que vivi minha vida toda. Foda-se que o destino da cidade está ligado ao seu destino porque, por alguma lei cósmica estúpida, ter nomeado a cidade com o seu nome criou um vínculo perpétuo entre vocês. Fodam-se as sincronicidades e até mesmo esse trocadilho “sincroni/CIDADES”. Estou morto. Tenho livre-arbítrio. Posso nascer em Curitiba na próxima vida, se existir reencarnação. Existe?
- Existe.
- Certo. Próxima fase do videogame de Deus. Pra onde vai esse bonequinho aqui?
- Não sei. Não tenho que responder nada para você. Estou aqui para conversar rapidamente sobre a sua condição, pois imaginei que alguns assuntos que me interessam possam interessar a você, também. Se quiser, pode me ouvir. Depois, talvez um daqueles anjos desça até aqui e converse com você sobre o seu futuro.
- Não tenho nada a perder ouvindo você. Estou morto. Tenho a eternidade. Posso ouvi-lo, então.
- Bom. A questão é a seguinte: você não está morto porque nunca viveu. Você nunca existiu realmente, assim como eu. Somos apenas o exercício de criatividade de um homem que ora brinca de Deus, escrevendo. Somos personagens de uma história e, se nosso criador tiver sorte, várias pessoas estarão lendo esse texto, em que eu, você, Elias Rode, seu pai, o demônio, os meninos de rua e outros personagens aparecemos. A única diferença entre eles e nós é que, por um capricho de vontade do Autor, podemos questionar e discutir nossa condição e temos consciência de que somos personagens enquanto os outros acreditam que vivem uma vida real.
- E esse autor ao qual você se refere, quem é?
- Eu o chamo de Autor, com maiúscula. Ele não me dá o direito de saber quem é, ainda que eu saiba que ele é.
- Por que você?
- Porque sou um santo. Estou mais próximo da Verdade.
- Por que eu?
- Possivelmente porque você é, nesta história que chamamos de realidade, o protagonista, aquele personagem com o qual o autor se identifica, então alguma coisa interessante teria que acontecer com você.
- Por que São Paulo?
- Imagino que o autor deva morar em São Paulo. Possivelmente, existe algo semelhante à São Paulo Real na cidade que você habitava. Possivelmente existiu um São Paulo na Realidade habitada pelo autor…
- E esse autor não sabe que essas histórias com realismo fantástico são consideradas clichês ultrapassados por muitos críticos? E essas sentenças que ele nos força a dizer. Nossa! Muitas delas são tão óbvias…
- Ninguém disse que o Autor é um grande autor. Eu mesmo desaprovo muito dessa construção narrativa toda. Mas, enfim… Ele é o Autor…
- …
- Você deve estar se perguntando “E agora?”.
- Certo.
- Talvez o Autor tenha usado você, eu e os outros personagens para transmitir algumas idéias sobre a cidade em que ele, de fato, mora. Talvez sejamos uma forma de comunicar algo para as pessoas. É o que me diz minha inspiração divina, como santo.
- E eu?
- Talvez seja a hora de uma “fusão”. Você é, sim, uma espécie de profeta. Você é…

Uma explosão gigantesca dentro da minha mente. Eu sou…

- Eu sou… Rodrigo Vilalba Caniza. Eu sou o Autor. Esta é a minha cidade. Mas ela não é só minha. Ela é nossa. Ela é a soma de nossos desesperos e fantasias. Mas ela também é algo além. São Paulo é uma possibilidade.

São Paulo é uma possibilidade.

São Paulo é uma possibilidade.

Como o “OM”, o mantra criador, essa frase se espalhou pela São Paulo da história e a destruiu.

Estou aqui, sozinho.
Contei essa história.
E agora, eu também não mais serei.

Written by Villa

March 12th, 2009 at 1:42 am

Posted in Ensaio

Tagged with , ,

Leave a Reply