A cena de Birmingham, através do universo paralelo de Roy Wood e Jeff Lynne I
Responda: qual banda inglesa dos anos 60 conseguiu nove Top 20 em 6 anos, sendo um primeiro lugar, produziu 4 álbuns, substituiu o The Who no Marquee Club e continua completamente desconhecida em terras brasileiras? Se você respondeu, é um dos raros que conhecem o Move, um dos mais interessantes sub-produtos do mod e psychedelic rock inglês. Originalmente de Birmingham (noroeste de Londres), cidade que também geraria o Moody Blues, The Idle Race e Denny Laine, um outro importante desconhecido, que foi um dos criadores do “baroque” rock e seria a outra metade do Wings de Paul McCartney. História esta que merecerá um futuro texto.
Formado em 1966 por Bev Bevan, Carl Wayne, Chris “Ace” Kefford (Carl Wayne & the Vikings), Roy Wood (The Nightriders) e Trevor Burton (Danny King & The Mayfair Set), começaram como uma banda de covers, principalmente de R&B e soul music, cantada em 4 ou 5 vozes, mas com aquele típico punch das bandas mod. Aos poucos, com a ascenção de Roy Wood à liderança da banda, passaram a compor seu próprio repertório. Foram, então, contratados pelo svengali Tony Secunda (que já cuidava do Moody Blues e do The Action). Foi ele o grande responsável por relocá-los a Londres e assegurá-los um lugar no histórico Marquee Club, a ex-casa do Who. Mas também era expert em criar factóides e gerar barulho – aliás, com o outros tantos naqueles anos. Entre outras, mandou um postal com a montagem de uma foto do primeiro-ministro inglês nu para promover um single, à revelia da banda, causando um pequeno furor (e causando ao Move a perda dos direitos autorais do single até hoje também). Também vinha dele boa parte das idéias para os shows, marcantes pelas loucuras e pelo espetáculo visual da banda. Destruiam carros ao vivo, usavam roupas mais extravagantes que os Beatles de Sgt. Pepper’s, estouravam alarmes nos clubes para que os bombeiros aparecessem durante a canção Blackberry Way, quebravam aparelhos de TV com um machado no meio do público, que se ralava inteiro, entre outras bobagens. Roy Wood não era muito fã disto, sendo um verdadeiro freak bigodudo, e talvez um dos mais reclusos líderes de banda de então. Tanto é que Carl Wayne, vocalista, era considerado o porta-voz para a imprensa – apesar de Wood ser o compositor. Se por um lado, estes esquemas de marketing funcionavam no curto prozo, acabou machucando a percepção de muitos sobre a qualidade da banda, isto sim inquestionável.
O Move era uma banda de singles: seu primeiro álbum só foi lançado em 1968, e era quase que uma coletânea destes. Seu primeiro single, Night of Fear, que chupa o riff da Overture 1812 de Tchaikovsky, chega a segundo lugar nas paradas inglesas em janeiro de 67. Apesar de um grande gancho pop, não era ainda o som típico da banda. O lado B, The Disturbance, contudo, acaba sendo mais representativo da mente de Roy Wood: aliás, se passa num hospital psiquiátrico. Tinham o punch de um Small Faces, a coesão de um Who, mas com um sotaque ainda mais inglês, mais florido (pela ampla influência do som da Costa Oeste americana – Byrds e Love, especialmente) e, principalmente, mais melancólico. O sensacional clássico psicodélico I Can Hear The Grass Grow veio em seguida, com uma daquelas letras nonsense que só ingleses em 1967 poderiam fazer. Enfiaram mais uma seqüência de hit singles. Flower In The Rain, que pode ser colocada junto a Waterloo Sunset (Kinks) e Itchicoo Park (Small Faces), como as mais representativas canções do flower pop britânico. Cherry Blossom Clinic, o single seguinte, foi vetado pela gravadora depois da série de problemas legais, pois tratava também de uma clínica mental e acabou sendo lançado só em 1969 no segundo álbum. Seu melhor momento até então foi (Here We Go Round) The Lemon Tree, obra-prima psychpop que imediatamente virou nome de banda e cover de um importante grupo que já falaremos: o Idle Race. Fire Brigade, pop irresistível, de riff chicletão, e Blackberry Way, um clássico, uma espécie de marcha-rock com um refrão majestoso, imponente, fecham esta primeira fase.
Nesta época, Ace Kefford, que queria a banda caminhando mais para o blues, resolveu sair. O quarteto seguiu em frente, cada vez mais incluindo metais e cordas, cujos arranjos eram feitos por Tony Visconti, e paradoxalmente, cada vez mais pesada. Não em barulho, mas em peso mesmo: sax alto, baixo com volume lá em cima e guitarras carregadas nos graves. Os singles Yellow Rainbow e o corretamente nomeado Brontossaurus davam uma boa idéia desta fase. Logo em seguida, gravariam o segundo álbum, o esquisitíssimo Shazam. Na contramão dos singles, que eram pérolas pop dentro dos 3 minutos de praxe, o álbum tem só 6 músicas – batendo quase todas acima dos 5 minutos. Guitarras intrincadas, longos interlúdios musicais, muitos intrumentos e, principalmente, muita confusão. Uma verdadeira massa sonora, de fazer Phil Spector parecer minimalista. Exceção feita à belíssima Beautiful Daughter, balada com quarteto de cordas e slide guitar.
Roy Wood já começava a indicar seus caminhos futuros. Um pouco depois de Shazam, um EP ao vivo é lançado e mostra uma outra face da banda. Com covers de Byrds, Love, Eddie Cochrane e Spooky Tooth, mostra uma banda matadora ao vivo, com uma pegada própria para as covers. E, sim, completamente distinta dos trabalhos dos singles e do álbum citado. Não haviam muitas bandas com esta capacidade de explorar caminhos tão diversos como The Move em 1969, e muito menos com esta qualidade.
Trevor Burton sai da banda, na época em que fazem uma desastrada turnê nos Estados Unidos. Aliás, o Move nunca estourou no mercado americano, assim como aqui. Resultado de problemas com a gravadora, apesar de queridinhos do underground. Carl Wayne também resolve sair, para cantar em cabarés, antecipando David Lee Roth em uma década.
Com isso, se encerra este período do Move. Wood assume os vocais e guitarras, Bevan continua na bateria e vocais e dois novos membros surgem: Rick Price no baixo e Jeff Lynne, outro guitarrista. Jeff vinha da cult fovorite The Idle Race (uma das favoritas dos DJs John Peel e Kenny Everett, que era até presidente do fã-clube!) e era amigo de Wood, desde Birmingham. Com sua entrada no Move, a banda passa a ter dois compositores e ganha uma nova dinâmica. Jeff era uma espécie de gênio produtor e arranjador e, com isso, tornou o som da banda mais complexo. Pode-se creditar a sua influência como fundamental para a guinada do Move para uma banda de estúdio.
O terceiro álbum não tardaria. Chamado Looking On, era mais uma cacetada sonora. O Move nesta época (1970) passaria a fazer show insanos, com maquiagens tribais, um som beirando ao heavy metal –no sentido literal, pesadão nos graves e cheio de metais de base. When Alice Comes Back To The Farm já indicava os novos tempos: violoncelos em multi-track (vários canais ao mesmo tempo), sax tenor, vocais rasgados. Mas ainda pop. Kilroy Was Here é uma pérola tipicamente britânica, na linha English Hall tão típica do Kinks e do Small Faces de então.
Contudo, Roy estava se cansando do Move. De certa forma, Lynne havia sido convidado por Wood para participar do Move porque gostaria de tê-lo em seu novo projeto paralelo, que em breve se iniciaria: o Electric Light Orchestra. Sua idéia era uma banda que partisse exatamente de onde I Am The Walrus havia deixado, ou seja, de um rock misterioso cheio de cordas que fosse além da guitarra/baixo/bateria. Por isso, Roy passa a aprender a tocar violoncelo, bateria, entre outros instrumentos. O Move de então passou a ser apenas uma obrigação contratual, pois tanto Jeff quanto Wood e Bevan já estavam trabalhando no ELO. E, portanto, Electric Light Orchestra era o próprio Move, com outro nome. Rick resolve sair por causa disto e o Move/ELO vira trio. A distinção entre as bandas fica ainda mais borrada, já que as gravações do Move, do Electric Light Orchestra e até do futuro primeiro álbum solo de Roy Wood eram gravados ao mesmo tempo e até nas mesmas fitas master!
Estas mudanças não passaram desapercebidas. As bandas assinam contrato com o selo progressivo Harvest (casa de outros importantes artistas, como o Pink Floyd, Syd Barrett, Barclay James Harvest e o pessoal de Cantenbury). E então é lançado o último álbum do Move, o bom Message From The Country, onde uma espécie de banda heavy blues maníaca assume o controle. Chega até a soar paródia em determinados momentos – vocais estilo cabaré, riffs carregados e gracinhas em geral. O ouro na verdade estava guardado para o primeiro homônimo álbum do Electric Light Orchestra. A soberba 10538 Overture, de Lynne, é a faixa de abertura. Um início com uma guitarra fuzzy, chamando o riff, para a entrada triunfal do violoncelo furioso de Roy Wood, que mais parece um ataque. Realmente, soava como a continuação de I Am The Walrus, em sua estranheza, em seu clima sorumbático e dark. Whisper In The Night, de Wood, é uma belíssima balada que fecha o álbum, que passeia por faixas inteiramente instrumentais, cuja base é Roy ainda no violoncelo e mais músicos convidados no corne inglês, noutro violoncelo, e um par de violinos. Muito estranho e sombrio, como The Battle of Marston More, pouco parecido com o prog da época. Não havia a intenção erudita ou exageros jazzísticos, ou mesmo exercícios em técnica. Havia pegada, punch. E, sim, chegou a sair em vinil quadrafônico no Brasil. 10538 Overture entra em primeiro lugar na parada inglesa miraculosamente.
Enquanto isso, mais dois singles do Move, que continuava sendo o veículo pop do trio, são lançados pela EMI: Tonight e a deliciosa Chinatown. Provando serem imbatíveis nos compactos, eram típicos clássicos que reuniam o melhor de dois mundo: o arranjo esmerado de Lynne e melancolia estranha de Wood. Para complicar, nesta época, o Move consegue pela primeira vez entrar na parada americana com o futuro sucesso do ELO: Do Ya, numa versão muitíssimo superior àquela, por sinal. Mas que ficou relegada ao lado B do derradeiro single inglês, California Man. Para quem se lembra, se tornaria um hit nas mãos do Cheap Trick em 1978. E aqui se encerra a história do Move. E de certa forma do Electric Light Orchestra fase 1?
Sim, acontece que Roy Wood não achava correto que os holofotes estivessem sobre ele, quando Jeff Lynne era tão importante quanto ele próprio na visão do grupo. E, claro, por seu sucesso no Move, isto acabava ocorrendo. Mas é importante afirmar que ELO é sim um disco muito diferente do que viria a ser a Electric Light Orchestra, sintomático pela presença de Roy Wood. De qualquer forma, durante as gravações do ELO II, Wood deixa amigavelmente a banda, que continuaria com Bev Bevan e Jeff Lynne. Aliás, ganhariam muito dinheiro no final da década com hits como Last Train To London, Rock’n’Roll Is King e a infame Xanadu. E faria a fama de produtor de Lynne – para bem (ultra-fidelidade, som quente) ou mal (agudos lá no talo e orchestração exagerada) –, que se tornaria amigo de George Harrison e Tom Petty – fazendo inclusive parte dos injustiçados Traveling Wilburys – e responsável pela produção da série Anthology dos Beatles.
E Roy Wood? Cada vez mais excêntrico, monta o Wizzard, mega-banda (sim, tinha trocentos membros) que mistura rock básico, R&B vocal da Motown, Beach Boys fase Pet Sounds com muitos metais e orquestra, numa mistura estranha, mas que conseguiria vários primeiros lugares ingleses, como a genial See My Baby Jive, uma espécie de Beach Boys encontra Ronnettes e Phil Spector ao cubo, Angel Fingers, em seu estilo cabaré post-punk, e a única canção de Natal que importa, It’s a Wonderful Rock’n’Roll Winter. Grava, então, o álbum Wizzard’s Brew que, claro, nada tem a ver com os singles! Trata-se de um álbum de produção chapada, carregado nos graves e médios, com faixas de 8 a 13 minutos que provoca ódio ou paixão, dependendo de quem as ouve. Não deixa de ser, contudo, sintomático da carreira de Roy Wood, que nunca seguiu o que se esperava dele. Seus shows viram então grandes eventos: cabelos compridos coloridos, palco que parecia palco de guerra de paintball, pintura na cara – isso, bem antes de KISS e outras bandas. Lança ainda um álbum em 1973, atualmente fora de catálogo, chamado Boulders, muito elogiado, onde toca todos os instrumentos e havia sido gravado na época do Move/ELO. Passa então a ter uma carreira cada vez mais errática, montando vários ensembles, trabalhando com Brian Wilson (Beach Boys) em 1975, produzindo alguns trabalhos menores e montando sua atual formação, o sensacional Roy Wood’s Army, que é formado por 8 mulheres no metais!
O mais importante é que, finalmente, está em preparação o relançamento de todo seu catálogo remasterizado, desde o Move até seus mais obscuros trabalhos. Não acho que isso irá alterar grande coisa no conhecimento dos brasileiros sobre seu trabalho, já que o mercado brasileiro sequer está preparado para relançamentos prosaicos de gente como Roberto Carlos, mas pelo menos o tornará mais acessível, que é um grande avanço.
Discografia Recomendada
The Move
Electric Light Orchestra
Roy Wood
Wizzard
Sites
The Move
http://www.moveonline.com
Electric Light Orchestra
http://www.ftmusic.com
Roy Wood
http://www.roywood.co.uk
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2 Sep 09 at 4:15 pm