O Errático

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Chico Mello – Do Lado Da Voz (Thanx God Records/Eldorado) 1999

with one comment

(resenha escrita em 2002)

Quando menos se espera, surge um álbum que dá um pouco de fé na música brasileira. E, claro, viria de um outsider, como sempre. Chico Mello é curitibano radicado em Berlim, onde trabalha com música contemporânea. Discípulo da escola de desconstrução, já trabalhou com Andrew Dreiblatt (minimalista alemão, ligado ao selo Cantaloup, do Bag On A Can) e com as orquestras de Berlim e Colônia. Sendo, portanto, sua formação muito mais ligada ao erudito que ao popular. Mas este álbum, lançado pelo selo de Arrigo Barnabé, é essencialmente pop. Não só pelo repertório, que passa por algumas figurinhas bastante populares (Noel Rosa, Chico Buarque, Herivelto Martins), mas principalmente porque é um trabalho vocal. A voz do título não é a toa: trata-se do instrumento por onde os demais passam.
Mas não pensemos que se trata de mais um albumzinho de MPB ou, seu contrário, um trabalho hermético. Pelo contrário: é instigante, provocativo e, até por sua formação erudita, muito pensado e (des)construído, sem exageros. Ouso fazer uma analogia ao trabalho de desconstrução de Tom Zé em Estudando o Samba. Só que enquanto Tom fracionava o samba, Chico brinca com outros ritmos como a valsa brasileira, o samba de morro, o samba-canção, entre outros. Gravado em Curitiba, Nürenberg e Berlim, passeia por instrumentação acústica, sopro, cordas e samples, inclusive na surpreendente releitura de Pensando Em Ti, onde fragmentos vocais de Nelson Gonçalves são inseridos por entre a re-interpretação minimalista, contrastando volume, intensidade e pausas perturbadoras. Ao dobrar e triplicar vocais e instrumentos em Achado (dele com letra de Carlos Careqa), e alterando seus tempos, acaba dando um efeito quase eletrônico à faixa. Carolina, de Chico Buarque, é executada praticamente à cappela, pois a base é feita com ruídos de arcos arranhando as cordas de um violino. E o efeito é rítmico: ou seja, nada do que se espera deste instrumento. A ótima Valsa Dourada, composição própria, resgata numa releitura contemporânea a valsa brasileira, ritmo praticamente morto. Mentir, de Noel Rosa, é gravada e sonorizada como se saísse de um estúdio dos anos 30, mas alterando o ritmo e a velocidade de execução. Há muita coisa para se descobrir neste álbum, que nos traz novas sensações a cada escuta. De quais trabalhos recentes brasileiros podemos dizer o mesmo? Aguardamos ansiosamente novos trabalhos de Chico Mello, que é certamente um dos melhores compositores surgidos na época recente da música brasileira. Fato até não difícil, já que nada de novo na MPB desde a chamada vanguarda paulistana presta.

RPQG: David Grubbs, Tom Zé, Gastr Del Sol, Mario da Silva, Waltel Branco, Walter Franco

Written by Amaral

August 21st, 2009 at 4:00 pm

One Response to 'Chico Mello – Do Lado Da Voz (Thanx God Records/Eldorado) 1999'

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  1. Excelente resenha. O disco realmente é muito bom.

    Gustavo Alvaro

    4 Oct 09 at 8:38 pm

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