O Errático

Um blog cultural

Elvis Costello – Mighty Like a Rose (Rhino/Warner) 1991/2002

without comments

(escrito em 2005)

Ano: 1991. Estouro do Nirvana e a última grande aparição na mídia do chamado rock independente. Velhos dinossauros e artistas pré-fabricados somem das paradas por alguns meses. Elvis Costello havia, 2 anos antes, gravado seu maior sucesso até então, o ultra-pop Spike, produzido por Kevin Killen e T. Bone Burnett. Musicalmente, produzido para tocar em rádio, com aquela textura exagerada típica do final dos anos 80. O primeiro sem o The Attractions. Para boa parte de seus fãs mais aguerridos, seu pior álbum até então por estas mesmas razões. Eis que grava Mighty Like a Rose, com o mesmo Kevin Killen, mais Mitchell Froom e ele próprio nos créditos, e ainda sem os Attractions. O álbum foi um fiasco de vendas comparado ao anterior. Boa parte da crítica se entreolhou para entender o que era aquele trabalho. Na dúvida, torceu-se o nariz e seguiu-se em frente.
No meio de tantas bandas novas e excitantes de então, ouvir The Other Side of Summer, a ótima faixa de abertura, em seu jeitão faux-Beach Boys não era exatamente os 3 acordes ‘grunges’ esperados na época. O sarcasmo reinante, com tiradas como “Não foi um milionário que disse ‘Don’t need no possessions’ [não precisamos de posses]?” estava até alinhado com o espírito de então. Várias bandas, não custa lembrar, eram fortemente influenciadas por Costello. Mas trata-se de um álbum duro, tenso, de um homem se auto-destruindo. Quase todas as faixas são híper carregadas de instrumentos, ao ponto da saturação – nada a ver com o espírito guitarra, baixo e bateria de 91. Nenhuma faixa é sutil: tudo parece extremado, exagerado, como um sorriso do Coringa. Hoje, sabe-se que enfrentava graves problemas alcoólicos, o que adiciona uma pitada extra de verossimilitude ao clima de MLAR. Não há otimismo ou concessões à bondade em nenhuma canção – a bílis percorre o trabalho inteiro. Era um álbum de alguém cansado do pop e, de certa forma, representa o momento de inflexão da carreira de Costello, que iria dar tiro para todos os lados durante a década que se seguiu, passando por álbuns com o Kronos Quartet, Burt Bacharach, entre outras experiências fora do rock. Há boas colaborações com Paul McCartney (So Like Candy e Playboy To A Man, que Elvis gravou como se Shane McGowan do Pogues tivesse se incorporado a uma big band roqueira) e participações de Marc Ribot e Jim Keltner. O segundo CD, só de bonus tracks, explicita ainda mais este caráter extremo da época pela qual passava. Há 3 faixas do acústico MTV que mostram Costello fora de órbita, irônico, completamente desencanado do que tocava. A versão da já citada The Other Side of Summer vale o CD extra, ganhando um tom muito mais tenso e grave que o original. Olhando hoje, sem a influência da época, MLAR é um dos grandes álbuns de Costello e o que merece ser mais ser redescoberto nos dias de hoje.

RPQG: Elvis Costello em Blood And Chocolate, Neil Young, Robert Wyatt, Big Star em Third, REM em Fables of the Reconstruction

Written by Amaral

August 19th, 2009 at 8:28 pm

Leave a Reply