Os críticos: uma visão crítica
Uma entrevista e um texto com a crítica musical brasileira – realizada em 1998 por Rodrigo, Ricardo e Renato
Uma das instituições mais criticadas no Brasil e no mundo é a própria “instituição” que normalmente é responsável por esta tarefa: os críticos. Se considerarmos que a música não é exatamente um quesito muito lógico ou racional, a validade dos críticos musicais passa a ser ainda mais questionada. Por isso, fomos saber o que se passava na cabeça de algum dos críticos musicais de importantes veículos nacionais, através de algumas perguntas genéricas. Eram eles Marcel Plasse, do Estado de São Paulo, Pedro Alexandre Sanches, da Folha de São Paulo e Celso Masson, da Revista Veja. Nossa intenção foi deixá-los à vontade para responderem o que quisessem, sem qualquer interpelação. É interessante também notar como suas respostas envelheceram nestes anos entre a primeira publicação, em 1998, e hoje em dia. Estas foram suas respostas.
Quais são suas bandas e estilos favoritos?
Marcel Plasse – Mudam o tempo todo. Apenas no ano passado [1997], quatro novos rótulos ganharam destaque na mídia – big beat, speed garage, Paris Disko e electronica. Banda também é uma expressão restritiva, que ignora cantores, produtores, músicos, rappers e DJs. Mas você deve estar querendo uma resposta objetiva. No momento, o estilo favorito é breakbeat, que virou toda uma cultura. Break é uma expressão do funk, que virou breakbeat nos dias do hip-hop old school (1974 -1983) e voltou à moda nos últimos anos, passando a ser usada no jungle, no big beat e também como substitutivo para o rótulo trip-hop entre os artistas das gravadoras Ninja Tunes e Mo’Wax. Nos últimos meses, os DJs de breakbeats radicalizaram uma cena específi ca, à parte, originária do hardcore (estilo de dance music) como o jungle, mas que representa um racha em relação ao estilo drum’n’bass para os lados do big beat. Gosto de todos as fases e variações das breakbeats, mas nos últimos tempostenho dedicado mais interesse sobre essa nova cena, chamada de nu school breaks. Também tenho comprado quilos de CDs de house music francesa, o tal Paris Disko. Dentre os estilos clássicos, nada bate a soul music dos anos 60. Artistas que se revezam na fila ao lado do meu CD-Player nas últimas semanas: DJ Shadow, Fatboy Slim (Norman Cook), Radiohead, Air, Roni Size/Reprazent, Alan Freeland, Thursday Club/Rennie Pilgrem, Riverdales, Grooverider, The Mr. T Experience, Kid Loco, Jon Spencer, Nas, Missy Elliot, Cornershop, Aquasky, Plug, Fiona Apple (só para fi carolhando o encarte), Sleater-Kinney, Portishead, Belle and Sebastian, Beth Orton, Spiritualized, Monkey Mafi a, Etienne de Crecy/Motorbass, Stereolab, Bentley Rhythm Ace (BRA) Artistas que, volta e meia, fazem fila ao lado do meu CD-Player: the great Sam Cooke, the greatest Marvin Gaye, The Clash, Lou Reed, David Bowie, KRS-One, Ultramagnetic MC’s, Isaac Hayes, Run-DMC, Beastie Boys, Afrika Bambaataa, Charlatans, My Bloody Valentine, Big Star, Replacements, Funkadelic, Curtis Mayfi eld, Moonshake, AR Kane, The Loft, The Jesus and Mary Chain, The Shirelles, Herman’s Hermits, Donovan, Melanie, The Ronettes, James Brown, Roy Orbison, Eric B & Rakim, The Who, Otis Redding, The Kinks, Small Faces, Herbie Hancock, The Trane(John Coltrane), The Byrd (Charlie Parker), Count Basie, Booker T, Jan & Dean, Dee Dee Sharp, Mantronix, Blondie, Kraftwerk, The Crystals, Lee “Scratch” Perry, U. Roy, Junior Murvin, Joseph Hoo Kim, L. Lindo, Leith Stevens, The Archies, The Byrds, The Chiffons, Shop Assistants, Joe Gibbs and the Professionals, Buzzcocks, The Beat, The Cars, Kiss, Beach Boys, The Fantastic Baggys. Que fila, hein?
Celso Masson – Você não acha que isso é um pouco indiscreto demais para ser colocado assim, na rede? Eu jamais cairia nessa, meu chapa!
Pedro Alexandre Sanches – Bem, como são muitos, vou responder muitos. Os de sempre: Lou Reed e Velvet, Patti Smith, David Bowie, Rita Lee e Mutantes, Jorge Ben, Paulinho da Viola, Erasmo Carlos, Television, Love, Roxy Music e Brian Ferry, Blondie, Sly Stone, Smokey Robinson e Miracles, Sam Cooke, Marvin Gaye, Supremes, Temptations, Clara Nunes, Roberto Carlos, Prince, Michael Jackson e Jackson Five, Sonic Youth, Beach Boys, Nara Leão, Leonard Cohen, Marianne Faithfull, Itamar Assumpção, Elza Soares, Assis Valente, Clementina de Jesus, Araci de Almeida, Cartola, Elizeth Cardoso, Funkadelic, Tim Maia, Novos Baianos, Leno e Lilian, Troggs, Ira!, Marina Lima, Lobão, Modern Lovers, Big Star, Tim Buckley, Nick Drake, Tom Tom Club, Chic, Zé Ramalho, Nick Cave, Maria Bethânia, Gilberto Gil… Nos anos 90: Beck, Luna, Chico Science e Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Yo La Tengo, Júpiter Maçã, Ben Harper, Neneh Cherry, Air, Daft Punk, Sex Beatles, Alvin L. e Cris Braun, Edgard Scandurra, Cássia Eller, Humberto Effe, Björk, Primal Scream, Beat Happening, PJ Harvey, Chemical Brothers, Cowboy Junkies, Chris Isaak, Fernanda Abreu, Lenine, Virginia Rodrigues, Wander Wildner, Rita Ribeiro, Soul II Soul, A Tribe Called Quest, Jungle Brothers, Lenny Kravitz, Wyclef Jean, Jota Quest…
Visão sobre o que é a crítica musical (sua função, necessidade etc.)
MP – A famosa questão: defi na “vida” em 20 toques. Ok, objetividade: crítica musical é algo que a revista Rolling Stone vendeu como vital nos anos 60 e que tem pouca tradição no Brasil. A primeira geração de críticos famosos e tupi-guaranis era toda carioca e nos legou o Barão Vermelho.
A segunda era paulista e nos legou o RPM. Crítico costumava ser aquele palhaço que levava porrada do Nasi na Folha de S. Paulo. Depois, virou aquele que dizia que andava armado para o Nasi na Bizz. Engraçado, mas a função da crítica não é humor, embora ajude. Cada qual tem sua idéia de crítica. Para começar, gosto se discute e por isso existe a crítica. Minha visão particular vai além disso. A música é apenas a ponta do iceberg. Há um elitismo muito grande na imprensacultural, que desdenha do pop (cinema de ficção científi ca, literatura de horror, quadrinhos, rock, etc.), mas ele é a marca mais importante da cultura contemporânea. A pop art, último movimento artístico a ser considerado como tal, copiava os quadrinhos, ia ao Club 54, fazia filmes pornôs, se entupia de cocaína e bancava o Velvet Underground. É tudo interligado: trilha sonora, comportamento, política cultural. Não é dizer que o Tchan é brega porque é brega. As Spice Girls também são. Não é dizer que Madonna é tudo. Ela já foi considerada brega. Ainda é brega, na minha opinião. Na verdade, meu ideal de crítica é uma variação da antropologia cultural, uma forma de desvendar signos, índices, ícones, símbolos, signifi cados e signifi cantes, de forma a perceber a realidade/atualidade. Não creio que a função da crítica seja ensinar, mas, sim, desvendar o zeitgeist. Não adianta nada você ter ouvido todos os discos de guitar bands (denominação de zineiros brasileiros para o chamado indie rock, que fazia sentido nos anos 80), porque a realidade musical não é monotemática e, no máximo, essa experiência só serve para avaliar ou falar de um grupo de comportamento muito restrito. Como um fã de Radiohead, que só ouviu guitar bands, avalia uma declaração de que OK Computer foi infl uenciado por DJ Shadow? O que significa a relação abobalhada da mídia diante do show do U2 no Brasil? Porque a comparação com os Beatles funcionou para o Oasis no Brasil? – até o jornal do SBT destacou a banda por conta desse cliché. Por que o disco de Madonna é um lixo pop vulgar se toda a crítica adorou? Por que alguém tem coragem de defender a misoginia dos Funk Fuckers? É preciso ter essas respostas e elas dizem muito sobre o estado das coisas, o inconsciente coletivo, grau de alfabetização, etc. de um país, de uma cultura, e, nessa época de globalização, que já é total numa cidade como São Paulo, essas respostas funcionam como senhas no computador da realidade. Uma vez acessado esse mainframe, a cultura pode ser vista por uma perspectiva muito mais agressiva.
CM – A melhor definição não poderia ser minha mesmo, então pego essa, de Federico Fellini: “a crítica serve para colocar um produto cultural em seu devido lugar, dentre os demais”. Se essa é uma função necessária, não sei. Mas deve ser, porque há dez anos me pagam salário para ouvir discos e escrever a respeito.
PAS – Acredito que a crítica (em qualquer área, não só a musical) seja uma forma de auxiliar a compreensão do mundo como um todo. Sendo brasileiro e gostando pra caramba de música, acabei me interessando mais pela crítica de música brasileira, acreditando que refletir sobre o último disco da Marina Lima ou do Júpiter Maçã possa ajudar, mesmo que de forma insignificante, a entender o próprio país, qual é a dele, o que está acontecendo. Aí entra também o interesse histórico: pelo passado da música (os relançamentos, os nomes injustiçados, as mudanças que foram acontecendo) acho que é possível refletir também sobre evoluções (ou retrocessos) em escala maior. Pensando em música estrangeira, também nas relações (em geral colonialistas e colonizadas) do Brasil com o mundo. Parece esdrúxulo, mas utilizo a coisa que mais gosto (a música), para tentar entender todo o resto, até o que eu próprio penso e sinto. Bem, se puder ser assim mesmo, não acho difícil responder que acho a crítica (de qualquer natureza) crucial, essencial, fundamental – tanto quanto a arte, talvez, embora menos importante e impactante.
Relação imprensa/gravadoras
MP – Um exemplo: o Estadão proibiu viagens pagas por gravadoras. Resultado: o Estadão não deu a coletiva do Oasis no Chile – único jornal importante do país a fi car de fora dessa. O que é mais importante, a notícia ou contar vantagem de jornalismo independente? Por outro lado, historicamente os cadernos de Turismo sobrevivem de jabás de agências. Acho que o pior caso desse tipo de relacionamento entre notícia e jornal é o do jornalista político, que costuma ser convidado por um político de direita para assumir um cargo de assessoria de comunicação numa campanha eleitoral – mamãe de Gabriel, o Estupor, por exemplo. Um jornalista político da Globo é hoje o péssimo governador do Rio Grande do Sul. No campo da música, o lobby é forte e há vários exemplos de jornalistas que passaram para o outro lado, fazendo releases ou mesmo assumindo cargos em gravadoras. Mas, uma coisa que poucos percebem fora do meio, é que jornalista também derruba assessor de imprensa e pressiona por lançamentos de discos. Os setores que têm verba, numa gravadora são os de mídia eletrônica. É notório que há um incentivo financeiro para certas músicas tocarem no rádio. Não há isso na imprensa, porque o alcance é pequeno. A crítica pouco influi na decisão de compra da massa. Björk nunca vendeu bem no Brasil, por exemplo – os números são mais ridículos do que se pensa. Também, Björk não toca no rádio. Mas tem quilômetros de rodagem na imprensa. A única hora em que a gravadora investe na imprensa é na hora do show, quando pode rachar a verba com alguma produtora ou patrocinador de evento, e quando há algo mais para ser promovido além de música – uma presença física (a banda). As gravadoras chiam quando você fala mal de um produto prioritário. Ficam de mal por uma semana. Na outra, têm outro produto prioritário e já esqueceram do anterior, porque precisam concentrar-se na divulgação do novo disco/artista. A maioriados assessores de imprensa estudou jornalismo. São profissionais como oscríticos e respeitam o trabalho do outro lado da cerca, embora tenham que apresentar resultados para os patrões capitalistas. Hoje em dia, já estão mais conformados com as idiossincrasias de parte da crítica, que prefere falar de Roni Size ou Cornershop ao novo disco do Hanson ou das Spice Girls. Mas Hanson e Spice Girls não precisam da crítica para vender, embora as multinacionais vejam o papel do jornalista como uma ferramenta de vendas. No fundo, é o que o jornalismo atrelado ao cronograma de lançamentos de produtos capitalistas se torna na prática.
CM – Costuma ser cordial. A dependência é mútua e ninguém é ingênuo a ponto de se achar mais importante. As gravadoras não lançam discos para a imprensa, que também não publica artigos para satisfazer os interesses das gravadoras. Quanto mais nítida for essa situação, melhor.
PAS – É, hoje em dia, absolutamente mercantilizada. Usando um exemplo recente, adoraria receber da gravadora na minha caixinha na Folha o último CD da Marina Lima. Aí eu poderia olhar, ficar curioso com a capa, ir ouvir, perceber que tem algo muito especial lá dentro, ficar com vontade de falar com ela, ligar pra ela, falar com meu editor e convencer ele que tinha algo importante aí pra virar notícia (e crítica) de jornal. Claro que nada é assim. A gravadora manda em cima da hora, eu tenho tantas horas para ouvir e ir entrevistar a mulher, que vai estar falando a mesma coisa no mesmo dia para todos os jornais. E todo mundo vai ficar desesperado pra sair no mesmo dia, pra ninguém “furar” o outro. Mediocridade e comodismo, acho. Resta tentar fazer o melhor possível dentro do esquema – mas sem, acredito, ficar puxando saco ou ficando amiguinho de artista pra ter vantagem sobre os outros, o que só cria constrangimentos de outra natureza.
Relação bandas/gravadoras
MP – As bandas hipócritas – as que não são do tipo Tchan – reclamam da indústria, odeiam dar entrevistas, acham tudo medíocre, abominam playback em programa de TV de baixa audiência, mas não se tornam independentes. Isso diz muito sobre elas. Agora, só 8% dos lucros de um CD para o artista é sacanagem da grossa. O dono da loja, que papa cerca de 50% do preço, é mais importante que o artista?
CM – Sei lá, não trabalho em gravadora.
PAS – Bem, isso eu acompanho de longe. Não sendo idiota, vejo que é bastante mercantilizada também, acho que desumana mesmo. Vejo bandas e bandas que certamente fazem (estou falando do Brasil, claro) sons muito diferentes do que fariam se não fossem as pressões. Pra citar um caso recente, não acredito que a Sony não tenha influenciado (mesmo que seja por expectativa de vendagens) o Skank a fazer um disco exatamente igual ao anterior, apenas com umas disfarçadinhas aqui e ali. Aposta-se no certo, só no certo. Parece óbvio, também, que artistas importantes, de qualquer idade – cito a Rita Lee, por exemplo –, são absolutamente subvalorizados por “hitmakers” de quinta categoria (como o É o Tchan, da mesma gravadora de Rita Lee, a PolyGram, que vende trilhões de discos a mais). Acho que nos EUA (na Inglaterra, menos) esse negócio é um tanto diferente, mais inteligente, mas o Brasil ainda é puro Terceiro Mundo, miséria mesmo.
Capacidade de indução de gosto musical
MP – Rádios e TV (não MTV) total. Jornais e revistas quase nenhuma. Importa apenas para uma pequena fatia da classe média com o segundo grau e universitários, cuja especialização costuma ser na área de Ciências Humanas. Ou seja, pessoas com cultura mais sofisticada.
CM – O que isso quer dizer?
PAS – É algo que foge do meu domínio. Por mais que tente ser “científico”, rigoroso e coerente nas opiniões, não posso deixar de reconhecer que elas são, também, fruto de gostos pessoais, de “crenças” pessoais. Tento acreditar que meu gosto é condicionado pelo que a arte oferece, e, sendo assim, o gosto apresenta uma linha de coerência que é ditada por fatores estéticos, artísticos, políticos até, e não só por questõezinhas do tipo “vou com a cara de fulano”. Seja como for, o que se escreve em jornal ecoa bastante num certo tipo de leitor – aqueles que são ávidos por cultura, por informação -, que acabam, sim, sendo influenciados. Com os artistas também isso é bem perceptível – eles levam muito em conta o que a gente fala, para o bem ou para o mal. Acho que o ideal seria que houvesse muitas vozes, muitas opiniões falando ao mesmo tempo e se contrapondo; quantas menos há, maior é o poder – e a arbitrariedade – das que há (é como o Caetano Veloso, ele acaba sendo nocivo não porque é do jeito que é, mas porque tudo que fala é interpretado como lei, como obrigatoriedade – e isso é apenas burrice). É péssimo, e do meu lado a única coisa que posso fazer pra tentar atenuar essa coisa de poder é tentando não me deslumbrar, manter aquelas diretrizes iniciais de refletir sobre história, sobre arte, e não sobre vaidades. É complicado.
Papel de transformação da música
MP – A música nunca transformou nada. Nem a imprensa. O único texto que fez diferença, na História, completou 100 anos recentemente, de Zola. Bob Dylan não parou a Guerra do Vietnã, embora tenha sido uma das milhões de vozes que se levantaram. Os Beatles não mudaram o mundo – na verdade, o mundo mudou os Beatles, da jaqueta de couro ensebada aos terninhos e, finalmente, ao título de cavalheiro para Sir McCartney. Contracultura? Diga isso para a herança de Linda Eastman. Punk rock? The Filthy Lucre Tour. A mulher que vira vegetariana porque Madonna virou vegetariana ignora completamente o budismo – uma cultura apenas milenar -, que agora anda influenciando a ex-garota material, que, por sua vez, representava o hedonismo nos anos 80, algo bem anti-Buda. Alguém que se veste como Michael Jackson não foi mudado pela música. Foi mudado pelo capitalismo. A música não muda o mundo, mas ela informa sobre mudanças em andamento, é um índice, em linguagem de comunicação, a fumaça que se vê, ao longe, num incêndio. Isso não é apenas na música – é no cinema, na literatura, nas artes.
CM – Poderia ser mais específico?
PAS – Bom, parece que ela já teve muito, né? Como pensar em Elvis, João Gilberto, Little Richard, Velvet Underground, Beatles, Stones, Caetano, os punks e tanta gente mais como revolucionários, alteradores do curso cultural da história? Mas hoje – não sei se por falta de distanciamento histórico – parece que tudo ruiu. Vejo o tecno modificando o mundo de um jeito entusiasmante e ainda muito incompreensível, mas de forma mais mecânica, mais fria. A época em que a música era quente parece ter ficado para trás (quem sabe volte…), sinceramente não dá pra crer que Tricky, Oasis, Blur, Massive Attack, Portishead, drum’n’bass e essas coisas todas tenham qualquer poder transformador sobre o mundo. Talvez tenham, eu é que não tô enxergando…
Bandas mais importantes da década
MP – Mudado para artista: Nirvana, Prodigy, Primal Scream, The Chemical Brothers, Wu-Tang Clan, Blur, Radiohead, Spice Girls, Oasis, Beck, Alanis Morissette, Beastie Boys, Hole, Smashing Pumpkins, Dr. Dre, Snoop Doggy Dogg, Cornershop, Goldie, Roni Size, Daft Punk, Sean “Puffy Daddy” Combs, Tupac Shakur, The Notorious B.I.G., DJ Shadow, Stereolab, Green Day, Tricky, Massive Attack, Portishead, Fatboy Slim, Bikini Kill, Sleater-Kinney, Cypress Hill, Armand Van Helden, PJ Harvey, My Bloody Valentine, Liz Phair, Pearl fuckin’ Jam, Jane’s Addiction, Nine Inch Nails…
CM – Se eu fosse lojista ou promotor de show, diria que é o Oasis – big business como não se via há tempos. Sendo crítico, fecho com Nirvana, Smashing Pumpkins, Radiohead, Morcheeba e Prodigy.
PAS – Lá fora: Beck, Sonic Youth, Daft Punk, Chemical Brothers. Aqui: Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Cássia Eller, Lenine.
Papel da imprensa musical hoje em dia.
MP – Vide respostas anteriores.
CM – No Brasil, mercado fonográfico que mais cresce no mundo, a imprensa musical poderia ser utilíssima. Como estou nesse meio, posso reconhecer que seu papel atual é péssimo, sem me excluir. Tirando as idiossincrasias de uns poucos falastrões, a imprensa musical não educa, não polemiza e não revela nada de relevante.
PAS – Deveria, na minha opinião, ser aquele de veículo de reflexão sobre o mundo e de diálogo com ele. Mas, do jeito que tá, é só bajulação, falta de coragem, “em-cima-do-murismo”, falta de criatividade. A crítica, como um todo, parece bicho em extinção, é algo que não se enxerga em quase nenhuma área, em quase nenhum órgão de imprensa, em quase nenhum fórum de discussão. Costumo pensar que é a era FHC por excelência, o mundo virou um gigantesco muro em que todo mundo ta empoleirado, e todo mundo se cagando de medo de cair. Falta de vergonha na cara, em outras palavras.
O que é pop para você?
MP – O que começou como denominação de música açucarada para adolescentes – versão branca do rhythm’n’blues de Little Richards, Fats Domino, Ike Turner e Chuck Berry – ganhou outro signifi cado nos anos 60, com o termo pop art, e virou revista nos 70, Pop. Hoje, vejo a palavra com dois sentidos: música descartável, forma como é mais empregada, e também como toda a manifestação cultural considerada descartável e inócua pela elite da Cultura – tipo, o nome do suplemento de literatura do Estadão se chama Cultura. Assim, pop é a Internet, o CD-RW, o sample, o DJ, o fi lme Scream, o gibi do Super-Homem e o álbum OK Computer. Aquele que condena o Tchan repete, numa variação de valores, condenação similar a de Julio Medaglia a qualquer grupo de rock que não seja sinfônico como George Martin – ops, The Beatles. Pop é toda expressão cultural surgida na era da comunicação de massas que sofre preconceito por parte da high culture.
CM – Uma palavra que quebra um galhão na hora de escrever qualquer bobagem.
PAS – É o conceito-coisa-valor mais forte e presente e importante que existe. Engenheiros do Hawaii podem ser o fi m da picada, mas não dá pra discordar deles que o papa é pop, o FHC é pop, o tecno é pop, a Madonna é pop, a falsificação dos remédios é pop, a novela das oito é pop, a parada gay é pop… Tudo gira em torno do pop, resta diferenciar o pop burro do pop inteligente – porque o pop pode ser, sim, a coisa mais inteligente que existe também. E o pop é, com certeza, algo muito, muito, muito sério – isso muitos estão por entender ainda.
Quais são as bandas injustiçadas da história?
MP – Herman’s Hermits, Joe Meek, Ultramagnetic MC’s, The Cars, Bohannon, Can, Jimmy Cliff, X-Ray Spex, Todd Rundgren, o grande injustiçado Johnny Thunders, Jan & Dean, Modern Lovers (primeira banda de punk rock), Nick Lowe, Eazy-E, Go-Go’s, Marianne Faithfull, Cheap Trick, Blondie, The Jesus and Mary Chain, A Tribe Called Quest, Soft Boys, Suicide, Slits, Slick Rick, o grande esquecido Schooly D, o lendário quem Sonny Sharrock, Pussy Galore, Gram Parsons, The Only Ones, Meat Beat Manifesto, MC Lyte, Magnetic Fields, Last Poets, Richard Hell & The Voidoids, Galaxie 500, Marshall Jefferson, Frankie Knuckles, Bomb the Bass, Coldcut, Fugs, Eric B & Rakim, The Hollies, King Crimson, Billy J. Kramer & The Dakotas, Cilla Black…
CM – Os Carpenters. Nixon disse que eles eram um exemplo para a juventude americana. Vindo de quem veio, o elogio foi pura sacanagem.
PAS – Nossa, são milhares!!!! Troggs, Jackson Five e Michael Jackson (porque todo mundo pensa que não são sérios), Wilson Simonal, Cassiano, Hyldon, Wanderléa, sei lá…
Madonna brega?! Lixo pop vulgar?!
Risível falar do papel da crítica levando em consideração gostos pessoais e um ignorável ar pretencioso!
Cloe
14 Oct 09 at 7:58 am
Brega pode ter duas conotações. Uma é de mau gosto, vulgaridade. Se ele utilizou neste sentido, e deve ter utilizado mesmo, tem um pouco de arrogância mesmo. Sem negar o fato que existem coisas de mau gosto mesmo. Mas na maioria das vezes, o termo brega só é utilizado para fazer uma distinção: brega é quem não é do seu nível social, ou pior, brega é quem você não é, dando uma conotação de superioridade.
Renato Grinbaum
15 Oct 09 at 10:43 pm