Maria Candida (2)

Maria Candida não fuma. Fumar não é hábito, é vício. Auto-degradação inaceitável, imoral. Leva à dependência orgânica, experimenta e não consegue parar. O cigarro te domina. Não, é a indústria do cigarro que te domina, e seus entes queridos, que fumam passivamente. Nicotina é câncer. Entope as suas veias e ataca o coração mais como alimento gorduroso. Destrói o seu pulmão como a fumaça dos carros. Dá impotência, como remédios para pressão. Leva a batidas de carro, como o celular, além do próprio carro, que é a causa principal da batida, óbvio. O cigarro altera o estado de consciência, e faz um tanto de outras coisas que não são socialmente aceitáveis. Tudo sem perceber. A dor no peito pode ser o ataque do coração, mas o fumante não deixa de apagar o cigarro. A confusão pode ser o derrame, mas ele acha que é transe. O nódulo, somente uma brincadeira. Cigarro é ilusão.

Olha seus dentes ao espelho, com orgulho. Estão brancos, nada daquelas coisas amarelas e marrons penduradas nas gengivas inflamadas dos fumantes. Quem consegue olhar? E o bafo? O cheiro de cinzeiro que fica no carro, o rastro de cinzas e guimbas pelo chão? Maria Candida é prevenida. Para evitar o fim da sua boca, já comprou Sensodine White, Colgate branqueador, Binaca, escova abrasiva, escova automática, fio dental metálico, bombril, chicletes para dentes amarelos e até nicorette, caso ela precisa diminuir, para em seguida parar. Um monte de produtos químicos que não devem fazer mal para saúde e que promentem restaurar a bela cor dos dentes.

O cigarro tinha coisas bonitas, mas foram proibidas. Propagandas e embalagens. Ela guardou todas as que podia. Viajou com Hollywood para o oceano radical, e fez windsurf.  Ficou séria com Shelton, e cuidou de su asaúde com Free lights. Era elegante com Charm, culta com  Carlton e vulgar com Derby. Mas o melhor sempre foi Marlboro, o homem marcante que sempre quis ter ao seu lado.

Cigarro tem sua cultura, isto atraía Maria Candida. Com filtro, sem filtro, alto teor de alcatrão, longo, curto. Acetona, ácido cianídrico,  formaldeído, polônio, pirênio. Doença pulmonar obstrutiva crônica, obstrução vascular, arterioesclerose, neoplasia de boca, má formação fetal. É muita coisa, a profusão sempre estimula Maria Candida.

Mas, para ela, a legislação é fraca. Não basta limitar a propaganda ou limitar o uso em aviões e lugares públicos, somente para beneficiar terceiros. Fumar é hábito imoral, mesmo para um indivíduo sozinho. Não é possível aceitar uma pessoa abusar e se autodestruir com uma substância tão perigosa. É preciso podar a sociedade, extirpar o mal. Salvar a saúde das pessoas. Maria Candida já pensou muito a respeito, pois ela tem nojo de qualquer forma de vício. Onerar produtores, aumentar impostos e jogá-los para a saúde, exigir documentos no momento da compra, internar viciados, tratar como tráfico o contrabando e a sonegação fiscal, fechar estabelecimentos que fazem venda ilegal, instalar detectores de fumaça indiscriminadamente, além da vigilância eletrônica, prender quem joga cinzas no chão.

Mas, no fundo, Maria Candida sabe. Se ela tivesse começado, jamais desejaria parar de fumar.

Renato Grinbaum

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