Rene Vermont (4)

Ano retrasado fiz o leste europeu. Pessoal simples, mas de tradição. Estive na Polônia, em Praga e na Rússia. Muita história, os países islâmicos têm muito a ensinar a nós, cristãos. Lindas as mesquitas da Praça Vermelha, em Moscou.

Também fiz o sul da França recentemente, Cannes e o lindo autódromo de Monte Carlo. A cidade que fizeram em cima dele é bem arquitetônica, preserva o ambiente. Viajar é realmente o momento mais supremo do ser humano. Nada de se acomodar, é preciso mudar de ares. Conhecer a casa dos artistas, a comida que eles comiam e a culinária mágica que tornou famosa a nação em que nasceram. Bendita França: Monet, Renoir, Van Gogh. Gostaria muito de fazer um país a cada semestre, mas não posso deixar a loja sozinha.

Veruska, minha adorável esposa, também ama viagens. Nos últimos tempos tem preferido cruzeiros, onde gasta muito tempo com lojas de duty free comprando perfumes. Às vezes some por horas, mas volta cansada e bem perfumada, satisfeita com o dia cansativo.

A viagem, e em especial a foto, é um dos sentidos da vida. Plante uma árvore, tenha um filho, escreva um livro e depois viaje. A vida perde o sentido quando você faz as mesmas coisas todos os dias. Quando você parte, nem que seja uma vez ao ano, você dá um rumo diferente às suas aspirações, ganha cultura, peso, mas esvazia um pouco sua carteira. Este é um fator limitante para alguns, que lamentavelmente não possuem um aporte financeiro minimamente aceitável. Não faço parte deste grupo.

Imagine: o que conversar coms seus amigos? Viagem te diferencia. Você compartilharia a mesa e a sua paciência com alguém que não se desloca mais do que trezentos quilômetros? Dá para conversar  com um paulista que vai todo ano para o Guarujá, sempre a mesma coisa? Exija um mínimo, viagens com passaporte. Estes são os seus amigos.  Quando eles te contarem que fizeram a China, diga que fez Japão. E ainda dirigiu sozinho, lá. Se é a escandinávia o destino deles, diga que foi mais longe, por exemplo a Suécia, você ganha. Estados Unidos não valem. Disney e Parque da Monica são baixaria. Confissão secreta: não nego que gosto de viajar aos nossos parentes anglicanos do norte, comprar belas coisas por preços honestos, mas o inglês deles é decadente, prefiro o da inglaterra. Além disto, os americanos aceitam muita vulgaridade por lá. Muitos pobres e imigrantes de países esquisitos, ásia, américa latina. Deviam proibir a imigração por lá. Mas, de toda forma, têm uma ótima escola de comércio e ótimas ofertas. Veruska traz roupas para revender, quando nossa moeda suplanta a deles.

Nem sempre podemos voltar às origens, e temos que viajar onde nossos comparsas estão. Costumamos ir à praia, em residência de verão de colegas. Recentemente fomos à meca de veraneio dos comerciantes da nossa cidade, Guarapari. Lugarejo simples, mas com turismo honesto. Na verdade, fiquei pouco na praia, e fiz o que mais me apetece, aproveitei o tempo para aprender alguns macetes da culinária local que poderei aproveitar em misturas com tradições asiáticas ou escandinavas.

É muito curioso que a cidade possui um “Restaurante pizzaria”  que não serve pizzas. O nome só existe para chamar atenção. Ele serve o quitute preferido destas bandas: o peixe. A cara desta cidade é o peixe, além da tal areia monazítica que parece uma sujeira. Tem gente que vem de longe para se sujar.

Vamos ao peixe. Este pequeno animal aquático tem regras. Em primeiro lugar, a forma de abate. Nada de sufocamento ou instrumentos cortantes. De preferência o anzol, que garante ao peixe uma morte em contração muscular e, consequentemente, mais tônus da carne.

Os olhos devem estar bem abertos e brilhantes, comprovando que sua morte é nova. Observe também as escamas, não pode ter perdido muito. Aprendi que na hora de limpar o melhor mesmo é pedir para alguém fazer o serviço, não tem nada mais nojento que encostar em dejetos de animais aquáticos e outras tripas esverdeadas. Cozinhar sem fazer o serviço sujo. Você pesca? Então por que não pode ir direto ao momento da panela? Nesta terra, eles adoram higienizar peixes, eles têm uma técnica toda especial utilizando o facão e dedos em pinça. Muito elegante.

A moqueca, prato típico, é fácil e as receitas disponíveis em qualquer livro são exatamente idênticas às que observei. O segredo deste pessoal é uma dose extra de coentro, e aí entra a história: como uma erva tão fina foi surgir num estado tão remoto e distante como o espírito santo? Alguns dos guias me seduziram com suas histórias. Remontaram a um passado remoto. Cabral e Anchieta. Olhe que belo: os monges franciscanos e os templários  aqui aportaram no século XVI, e utilizaram o coentro como disfarce contra os cães farejadores. É muito gostoso saborear um alimento quando sabemos de sua história.

Gostamos de nos sentar em pequenas barracas à beira da praia. Nada que se compare ao luxo de um bistrô em Pigalle, mas conhecer hábitos dos nativos, sentar à sua mesa primitiva e utilizar seus instrumentos é um ganho em história. Vale mais que mil vestibulares. Veruska gosta de conversar com os nativos, aprendeu a dançar com eles. Eu os olho com bastante pena, pensar que tiveram este país tão grande só para si e agora têm somente este pedaço de terra, uma reserva demarcada, perto do mar. De toda forma, estou tão impressionado comas habilidades nativas, que oferecerei um jantar para meus amigos capixabas, que moram perto de casa, para lhes contar esta aventura exótica que passamos. Oferecerei moqueca, bolinho de aipim, que é muito saboroso e nutritivo, ainda mais com a pimenta tabasco. Fusion, totalmente fusion, amigo.

A técnica que mais me seduz é a do peixe frito à beira da praia. Mesclam técnicas árabes e indígenas. A garçonete e a cozinheira me explicaram com detalhes, na barraca que sentei. Contaram dos libaneses que chegaram no final do século XIX e não se acostumaram com a comida dos índios, e começaram a pegar a maior parte dos ingredientes e lidar com eles à sua moda. Misturado a tudo, a miscigenação dos povos e as palavras reminiscentes destas culturas ancestrais. Mas, à comida. Do árabe utilizam o  azeite de soja, uma fina casca crocante e o corte fino das fatias. Do indígena, a farinha de mandioca, a pimenta, e o uso sossegado das mãos. Muito instrutivo. Quando perguntei de que tribo indígena derivavam os nativos, nenhum deles soube explicar. Disseram que histórias antigas, dos avós, não interessam muito.

Renato Grinbaum

One Response to “Rene Vermont (4)”

  1. Cynthia writes:

    Confesso que, ao iniciar a leitura, tive que retornar aos países citados (do leste europeu), pois fiquei imaginando as mesquitas na Polônia e qual parte da viagem que eu havia perdido. Pior: só no meio do texto, é que me dei conta do título.

    Mas sabe que fui convidada para um trabalho numa certa cidade do interior de Minas, onde grandes médicos com títulos importantes, os Larapinideo furtatorum, pensam exatamente como o comerciante que escreveu o maravilhoso texto?

Leave a Reply