Bita (1)

Bita faz cinema, e vai se formar qualquer dia. Precisa de inspiração, pra fazer arte que faça diferença pras pessoas. Já até pensou no seu plano, cuidadosamente elaborado na mesa do bar lá no centro, bem perto do povo. Copo sujo, mano, isso é que é ser autêntico. Já tem a idéia para o seu primeiro longa.

Difícil é conseguir o financiamento. Não tem coragem de vestir um terninho e usar seu nome de verdade, Bittencourt. Bita é mais arte, combina mais com seu jeito de ser. Graças à lei de incentivo à arte, terá dinheiro pra fazer a sua. As empresas terão desconto, e o povo, chance de se educar. Afinal, dinheiro público é pra isso, levar educação às pessoas.

A história é bem bacana. Original, cara, e entertainment. Quem é que tem saco pra ver filme cabeça? Cineminha iraniano? Mil vez Se eu fosse você 2. Toca o coração do povo, mostra pro mundo aquilo que o brasileiro pensa. Não é muito, mas já é um começo. Pensou numa trama policial, na favela, pra dar um toque de realidade bacana. Um pouco de sexo, pra por pimenta, e pro Bita poder ver umas garotas peladas bem de perto, ao vivo. Quem sabe, não rola uma. De atriz, pode ser a Aninha, colega gostosa. Pena que tem namorado.

Depois circuito comercial. Nada de filme educativo, nem documentário. Tem que ser ação e muito sexo. Arte pura, que é emoção. Arte não é racionalidade, é educação dos sentidos. Marquês de Sade, William Burroughs, Kerouac. Poesia concreta. Coisa do corpo para contestar o cérebro. Tudo barato, pra não fazer mal uso da Lei Rouanet. Arte é emoção, e não gasta. Que nem aquele filme de faroeste mexicano que custou uns quinhentos dólares, sabe-se lá o que do pistoleiro. Com cento e cinquenta mil Bita faz melhor. Cangaceiro, traficante, o que quiser.

Bita quer disseminar idéias, porque a arte não tem fins lucrativos, e é a base da sociedade. Melhor gastar com arte que com as escolas. Afinal, todo o dinheiro da merenda escolar é roubado, mesmo. Pelo menos a produção artística pode ser registrada, e também copiada. Mas Bita não quer nem saber de alguém pirateando as coisas dele. Agora que ele faz, resolveu até tirar o Torrentz do seu computador.

Para achar a sua arte, inspiração, Bita precisa de verba pra cerveja, pra ficar em hotel, banho bacana, e pra deixar o filme daquele jeito, um estúdio bonito. Dublagem, uns efeitos bem maneiros. Quem sabe, o filme não dá um lucrinho. Se vender pra televisão, pra passar na segunda de noite na globo, ou na HBO. A trilha sonora pode ser bem bacana, também. Dá pra lançar uns amigos dele que fazem um violão e banquinho, e dar uma pirateada nuns rocks bacanas, tipo Radiohead, Chemical Brothers que têm cara de ação, e aí um rockinho brasileiro pra depois vender CD. Não existe almoço de graça, mano. Artista vive de quê? De lei, é? Mas não dá pra por em questão, em em mesa de bar. Porque se não tivesse esse incentivo ao cinema, ao DVD, à televisão, como é que o povo ia ter acesso à educação?

Renato Grinbaum

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