Ícones da Cultura Brasileira (11) – O Pobre
Nada se compara ao pobre no Brasil. Ele é o detentor das maiores riquezas que um ser humano pode ter: a riqueza da vida e do olhar. Aquele olhar pronto para ser fotografado pelo Sebastião Salgado, que enche o pobre de dignidade, de olhar profundo, de uma poesia que ele mesmo nunca leu nem vai ler.
O pobre no Brasil é um objeto a ser admirado e principalmente tutoriado. Ele precisa da curadoria do muderno e do badauê para entender que cultura é olhar para si próprio e reproduzí-lo. Nada de olhar e desejar essas coisas pequeno-burguesas de classe média como carro, casa e geladeira cheia. Pobre não percebe, mas já é feliz por não ter que se preocupar com essas coisas.

Photo by kindgottPobre não consegue ter acesso à cultura (apesar dele próprio ser o maná da cultura brasileira, o que é contraditório) então vamos criar um vale-cultura. Mas nada de usar no pagode, no rodeio ou no show de brega: só pode usar em eventos que são populares de verdade, como show do Lenine e Zeca Baleiro e teatro experimental, que representam o pobre na arte brasileira. Pobre deveria entender melhor o que é a cultura certa para ele. Para isso, Lula criou a TV Brasil, uma TV que é feita para o povo.
Na faculdade, pobre tem que ter acesso, mas nada de alterar a base de educação dele, porque se não, ele perde seu élan. O bom é mudar lá no topo, depois que ele perdeu a chance de sair da pobreza (e portanto, se prostituir como classe média). Assim, ele entra pobre na universidade e continua pobre ao sair dela. Para isso, o brasileiro inventou um vale-faculdade: o tal do Pro-Uni. Dessa forma, o pobre continua com seus amigos pobres em faculdades pobres, de onde saem pensando que estarão ricos, mas continuarão ainda pobres, do jeito que o brasileiro gosta. Afinal, o que seria do brasileiro sem uma elite para culpar o pobre? Ou sem uma pobreza para culpar a elite?

Photo by George Eastman HousePobre também é legal para ver na rua: assim, posso twitar reclamando como tem pobre na rua e xingando o prefeito que não toma providências. Tá certo que fiz um abaixo-assinado pedindo para não permitirem aquele conjunto habitacional há 2km de casa, já que tem tanto terreno na periferia, por que vão querer pegar esse terreno perto de casa? Lá ao menos eles terão terreno. Mas tem pobre que é obrigado a ir para albergue, o que está errado. Ele tem que ter direito de ir e vir, mendigar à vontade e exercer seu direito de molestar, roubar, sujar e incomodar a área pública, especialmente quando não me afeta.
Ri, parabéns por mais um texto muito bem escrito. Já conversamos algumas vezes sobre isso, né? acho que daria pra incluir algo aí nesse texto que os “favela movies”, que vão na mesma direção: a pobreza é algp bonito e digno de arte e não algo sofrido e que merece cuidado de verdade. beijos!
Jo
10 Mar 10 at 2:57 am
Revisado
Caro Amaral, gostei da clareza com que você escreveu sua tese sobre o olhar que muitas vezes se tem dos pobres brasileiros. E também da ironia sagas usada no texto. Porém, (ai entra minha contribuição). Apesar de ser de fácil entendimento do uso da imagem do pobre como ícone estigmatizado. O risco é grande de se cair na generalização. O que por natureza intrínseca tende ao fascismo. Como você sabe existem diversas histórias diferentes para explicar pessoas morando nas ruas e ou em condições precárias. Ex-milionários alcoólatras, profissionais liberais que surtaram com a pressão capitalista, agricultores que perderam suas terras, escravidão etc. Enfim… não existe a cultura da miséria, miséria é ausência e não um perfil cultural. O que o Salgado faz é usar seu olhar trágico para mostrar para quem não quer ver a olho nu a verdade explícita do descaso e crueldade de humanos com outros humanos. Uma criança putrefando não é poesia em si, mas pode ser bela para chamar a atenção para o horror de uma guerra. Contraditório – Vendo a beleza da imagem despe-se da necessidade de se ver além dela. Neste caso a beleza da fotografia do Salgado é só um convite para se olhar no espelho.
Fernando Esselin
10 Mar 10 at 8:43 pm