O Errático

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Entrevista com David Thomas, do Pere Ubu

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Por Renato Grinbaum, em 1998

 

Pere Ubu é uma banda seminal. Ela é pouco conhecida no Brasil, graças ao conservadorismo do nosso público, crítica, e conseqüentemente das gravadoras. Fora não chega a ser exatamente popular, no entanto é uma

das bandas mais influentes de todo o rock a partir de 1975.

David Thomas é praticamente o Pere Ubu, embora tenha existido Peter Laughner, morto há mais de trinta anos. Ele se diz herdeiro de Beach Boys e Captain Beefheart, uma ironia talvez. A banda mais pop dos anos 60 e

a mais experimental. Não é ironia. Thomas faz uma música inteligente, instigante, sem deixar de ser pop e acessível.

Se você ouvir seus primeiros álbuns, vai entender de onde nasceram muitas bandas punk, pós punk (exemplo: Joy Division) e mesmo New Wave(David Byrne copia muito o estilo de cantar de Thomas). Ao contrário dos demais, o cheinho Thomas parece um daqueles meninos super-dotados que tem a inteligência sempre à frente de todos, com um sarcasmo impagável.

 

 

Pere Ubu iniciou sua produção entre dois importantes momentos culturais: o fim do sonho libertário dos anos 60 e o início de uma cena mais política, o punk rock. O que você pode dizer a respeito da importância do Pere Ubu e sua inserção nestas cenas?

 

Nós não temos nada a ver com nenhuma cena externa. O punk rock não foi uma cena política. Ela representou a corrupção da cultura americana por estrangeiros que procuravam uma desculpa para fugir das exigências que o caminho evolucionário do rock estava fazendo.

 

Os críticos dizem que o punk inglês foram muito importantes para a mudança social da época, e uma evolução no modo de pensamento. Olhandopara trás, você acredita nesta idéia, ou você preferiria dizer que as idéias mudaram a música?

Críticos britânicos são obcecados por aclamar seu punk como responsável por grandes mudanças. Não sendo britânico, posso falar livremente. Punk pode ter sido importante para uma mudança social, mas não do tipo que os críticos afirmam. O punk era e é reacionário. Ele rejeita a natureza da arte, que é um ofício. Ele é covarde e fraco. Ele teme toda experiência humana que não vem pré-embalada numa estilo licencioso, caracterizações de um cartoon.

Eu realmente acredito que Pere Ubu eram muito mais livre e radical que os reacionários Pistols e a maioria da cena punk dos anos 70. Mesmo agora, passados mais de vinte anos, Pere Ubu faz rock com muito mais liberdade criativa do que a maioria das bandas atuais (sendo liberdade mais do que punch – punch, volume e energia não são a essência. Mesmo assim Pere Ubu tem muito de tudo isto. Se punch fosse a questão, os Stones seriam a melhor banda da atualidade).

Logo que começamos a trabalhar juntos, ficou claro para nós que éramos as pessoas certas no momento certo. Nós tínhamos o material certo. Nós nos posicionamos no limite do rock como uma forma de arte. Nossos antecessores passaram a tocha para nós e nos olharam com expectativa e esperança. Agora, enquanto tudo isto estava tomando forma nas nossas cabeças, nós nos achamos vivendo num local peculiar. Para as bandas bem estabelecidas de rock, para aquelas que tocavam nos clubes, nós éramos amadores. Parecia que nós éramos muito incompetentes para aprender as convenções do ofício ou, pior, nós éramos tão ignorantes que estas coisas nem pareciam existir. Nosso método, segundo uma “celebridade”

local, envolvia tomar toneladas de drogas e esmurrar os nossos instrumentos num torpor até que chegasse o momento de parar. Nossos supostos “colegas” na cena de rock local nos consideravam desprezíveis. Nós ocupávamos um “underground”, no pior sentido da palavra. Mas, pior, uma vida “underground” em uma cidade que era erradamente considerada um atraso por si mesma. Fomos avisados que tudo que era considerado significativo, de ponta, só poderia ser encontrado em New York City. Nós não éramos nada mais que broncos provincianos. Ninguém fora de um grupo muito pequeno e muito restrito parecia gostar daquilo que fazíamos. Aparentemente, jamais alguém fora deste mundo pequeno conheceria ou ouviria falar a respeito de nós. As escolhas podem se tornar simples: mude suas idéias ou aceite o seu “destino”. Sabendo o que sabíamos, sentindo a corrente do imperativo histórico,

como nós poderíamos voltar atrás? Então, rejeição, uma vez escolhida, é personalizada, se volta contra aqueles que não se encaixam nesta visão e nosso modo de encarar o mundo se torna mais agudo. Ninguém gosta do que fazemos, de forma que podemos fazer tranquilamente o que gostamos. Está inscrito nas nossas almas. Nós somos “livres”. Anos depois, e, ironicamente, quando nos aproximamos da possibilidade de um

sucesso comercial que antes era impossível de ser imaginado, a lição foi reforçada. Depois de gravar Dub Housing, nós tivemos um encontro com

nosso agente naquele tempo:

CB: “Se vocês gravarem este álbum duas ou três vezes mais vocês se

tornarão estrelas.”

PU: “E se não pudermos ou não quisermos fazê-lo?“

CB: “Vocês conseguirão sobreviver neste negócio fazendo o que querem por tanto tempo quanto desejarem, continuando a fazer discos artísticos, mas vocês nunca farão sucesso.”

 

Soou como um bom negócio. Um negócio justo. Nós estávamos dispostos a pagar o preço por fazer o que desejávamos. Você pode chamar isto de liberdade. Nós não. Nós chamamos de fazer o que nós queremos.

 

O rock é arte? E isto realmente interessa?

 

Sim e sim. Importa porque arte gera questões, é socialmente consciente,é historicamente consciente.

 

Nós estamos discutindo agora o poder da arte. Um escritor (bastante acadêmico) escreveu num importante jornal brasileiro que na modernidade, arte e sociedade são distintos, são coisas separadas. Arte pertence muito mais aos museus e catálogos do que à vida das pessoas. E mesmo quando a arte traz um elemento social ou revolucionário, ou se é mostrada nas fábricas, igrejas ou outros locais públicos, ela ainda assim está fora da realidade e não tem força para mudar o mundo. Arte não é parte do mundo real, como foi no passado. A questão é esta: a arte tem este poder?

 

É claro que tem. Arte é o empreendimento na linguagem verdadeira. Homens percebem, entendem, sentem por meio da metáfora. Consciência humana, na minha impressão, é um complexo de sensações hieroglíficas que nós interpretamos e somente podemos interpretar por meio da metáfora e da visão. Arte é o meio de expressar a consciência não-linear, não-lógica da natureza, uma vez que a sua linguagem é o mesmo que a linguagem da mente: metáfora, sensação e visão.

 

A arte pop é mais poderosa que a arte acadêmica?

 

Boa arte é mais poderosa que arte ruim.

 

 

Written by Renato Grinbaum

February 29th, 2012 at 5:36 pm

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A Grande Feira – Uma Reaçao Ao Vale-Tudo Na Arte Contemporanea

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Belo livro de Luciano Trigo, tocando num ponto nevrálgico da arrogância pseudointelectual: a vaidade de parecer novo, de ser intelegente pela dificuldade, ainda que vazia. Pois valor na arte contemporânea, é o choque e a diferença, exclusividade, que aumentam o valor agregado da obra. Não o seu conteúdo. Leitura essencial para leigos que beiram a ignorância, como os autores de O Errático, mas que ainda assim enxergam a arte como o espaço para discutir a realidade além do óbvio. Trazendo para os reles  mortais percepções e discussões de outra forma somente acessíveis aos iniciados. Resta saber se a polícia do da arte de vanguarda vai  aceitar ou excomungar o infiel, queimando-o numa fogueira em praça pública.

Written by Renato Grinbaum

December 9th, 2009 at 7:01 am

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Os críticos: uma visão crítica

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Uma entrevista e um texto com a crítica musical brasileira – realizada em 1998 por Rodrigo, Ricardo e Renato

Uma das instituições mais criticadas no Brasil e no mundo é a própria “instituição” que normalmente é responsável por esta tarefa: os críticos. Se considerarmos que a música não é exatamente um quesito muito lógico ou racional, a validade dos críticos musicais passa a ser ainda mais questionada. Por isso, fomos saber o que se passava na cabeça de algum dos críticos musicais de importantes veículos nacionais, através de algumas perguntas genéricas. Eram eles Marcel Plasse, do Estado de São Paulo, Pedro Alexandre Sanches, da Folha de São Paulo e Celso Masson, da Revista Veja. Nossa intenção foi deixá-los à vontade para responderem o que quisessem, sem qualquer interpelação. É interessante também notar como suas respostas envelheceram nestes anos entre a primeira publicação, em 1998, e hoje em dia. Estas foram suas respostas.

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Entrevista: Sasha Frere-Jones, da banda UI

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Os anos 90 são bem peculiares: mesmo com uma visão pessimista de esgotamento do pop, novos caminhos vão sendo sólida e espontaneamente traçados. A experimentação  ocorre em particular  na reciclagem  de gêneros e principalmente na busca de espaços, texturas e timbres diferentes.  Não há  tanta mudança na linguagem nem na estrutura, ao contrário, ela está muito mais na sonoridade. Muito resumidamente, estas características formam o que vem sendo chamado de pós-rock, termo ainda vago e mal definido.

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Written by Renato Grinbaum

October 23rd, 2008 at 11:34 am

Tornozelo de canard com chuchu selvagem e broto de mandioca, acompanhado de risoto de arroz selvagem com orquídeas

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Ingredientes

8 onças de tornozelo de canard de Ontário jovem e bem educado

2 onças de chuchu selvagem

1 penca de broto de mandioca bem dura, africana

1 bota de azeite desvirginado, de baixa acidez

3 colheres de açafrão descascado

1 panela de espumante de pelo menos 300 dólares

Farinha de aveia demagnetizada

Zinco a gosto

Folhas de relva para decorar

Sal de bananeira marinha da índia

1 Máquina fotográfica digital de pelo menos 12 megapixels

Email da revista Gula para enviar seus dotes, na coluna do leitor

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Written by Renato Grinbaum

September 23rd, 2008 at 6:43 pm