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São Paulo
São Paulo
São Paulo entupiu minhas veias com concreto
Para que eu pudesse flutuar/opor aí
Depois
Como uma ação
São Paulo me pregã/o no chão de quadradinhos sujos e desmontados
Essas palavras, todas as suas pal/avras, enfim
Elias Rode (ilusionista e poeta amador)
Aquele prédio
Aquele prédio ficou me olhando sair de casa de novo, hoje pela manhã. Às vezes seus olhos estão voltados para outro lado. Nos últimos três dias, virei o foco privilegiado da atenção do edifício plantado em frente ao meu. O bloco mineral vivo. E o pior: ele me olha como se eu fosse um pedaço de carne vomitado pelo seu inerte companheiro de quarteirão.
Se ele olha, pensa. Se pensa, controla. É o que eu acho. Eu acho que este prédio especificamente já estava aqui antes dos Martinelli, antes dos Matarazzo, antes dos jesuítas, antes dos americanos primitivos, andando por aqui pelados, acendendo suas fogueiras e cantando. Eu encontrei o totem. Este prédio está me enlouquecendo, o maldito. Quase disse coisas bem feias para a senhora que mora no 103, outro dia. As coisas que eu penso sobre este prédio doentio e os olhos emoldurados em madeira que ele usa para me espionar.
Fico imaginando se ele seria o único, o último de uma manada inteira de prédios nômades que vagava por aí quando as estrelas ainda eram jovens. Fico imaginando se aquelas grandes estruturas esqueléticas iluminadas por postes de luz seriam os fósseis ou os abortos da sua espécie. Com pensamentos como esses servindo de bagagem, eu entro no metrô.
No metrô
Conheci um homem chamado Elias Rode no metrô, hoje. Foi engraçado. A vagão estava vazio. Uma, duas, três estações e a composição desacelerou. As luzes se apagaram e acenderam de novo muito rápido e quando acenderamdenovoassimrápido de repente parecia que o tempo tinha desacelerado. E lá estava ele, dentro do vagão comigo. O silencioso Elias Rode.
Elias Rode
Elias Rode era uma insignificância dentro do vagão. Eu olhava para suas costas. Ele estava sentado ao lado de uma janela, acima da qual havia um anúncio de companhia aérea. Do outro lado, perto das portas automáticas, anúncio de curso de inglês. Bancos plásticos e corrimãos metálicos reclamavam presença, atenção. Cercado por coisas que gritavam cores, promoções, ritmos, descontos [30#) minutos por dia 3 vezes por semana de qualquer coisa e você é Deus#)], o Elias Rode era um inseto, quase menos humano do que os bancos, por exemplo. Ah, não, estava quente, quente. Já perto da estação Paraíso, o homenzinho levantou, virou-se, espalhando o corpinho ereto dentro do paletó com colete. Óculos. Bloco de papel e lápis tremendo entre os dedos. Olhou para mim, aproximou-se e entregou-me o bloco. Ficou com o lápis. Apresentou-se: “elias rode, cidadão” (modesto, não admitiria maiúsculas no nome). “Um coelho. Alice no País das Maravilhas”, pensei. “Tenha um bom dia”. Elias Rode desceu do vagão. O falante Elias Rode. Read the rest of this entry »
Uma bola de luz misteriosa
Well, I kept thinking about what the weatherman said
And if the voices of the living can be heard by the dead
Well, the day is gonna come when we find out
And in some kind of way I take a little comfort from that
Now and then
‘Cause people often talk about being scared of change
But for me I’m more afraid of things staying the same
‘Cause the game is never won
By standing in any one place
For too long
(N. C.)
Da janela do meu quarto eu posso avistar uma grande bola de luz que ilumina toda uma vasta região da zona sul da cidade e isso não é uma metáfora para nada. A bola de luz alaranjada apenas está lá, brilhando e impregnando o horizonte com seu brilho, e eu não faço a mínima idéia do que essa bola de luz possa ser.
Pensei em ligar para um amigo que trabalha numa emissora de televisão e contar pra ele o que estou vendo mas já está meio tarde… pensei em dizer pra ele que esse evento é impressionante e que algum repóter deveria estar trabalhando nesse caso agora. Eu e minha namorada procuramos na internet e em canais de notícias alguma informação sobre a bola de luz mas não encontramos nada. Brincamos: e se for o Messias? OVNI’s? Bem, eu realmente não sei o que é.
Durante muitos anos, milhões de pessoas têm disfarçado sua ignorância das coisas mais elementares por debaixo de um olhar e uma postura de conhecimento e sabedoria. Eu mesmo faço isso diversas vezes por dia, principalmente quando estou trabalhando. Nossos estudos e os milheres de anos de civilização vão refinando a arte do embuste, vamos aprendendo a controlar nossa angústia diante da própria ignorância e vamos nos cercando de mecanismos de controle, documentos e cúmplices que são capazes de jurar que sabemos, de fato, alguma merda.
Cargos e profissões são criados para avaliar e fornecer pareceres sobre coisas absolutamente insondáveis, imprevisíveis e eu sempre tenho a impressão de que as pessoas mostram saber mais do que realmente sabem. Bem, nos últimos anos essa impressão se transformou numa certeza empírica e então acho que posso dizer que a única certeza que tenho, além do fato de saber que não sei nada, é saber que você, provavelmente, também não sabe porcaria nenhuma.
Veja só: alguns modelos são adotados para todo tipo de conhecimento mas a realidade muda e dá provas muito concretas de que esses modelos, seja lá quais forem, não dão conta de toda a grandiosidade da existência. Mesmo as pessoas mais despreocupadas não admitem ser rotuladas a partir desses modelos, ou seja, o ser humano criador do modelo acaba por se sentir desconfortável com sua aplicação sobre si próprio. Um cientista que define o amor como o resultado de estímulos e respostas eletroquímicas em determinadas regiões do cérebro simplesmente não pode levar essa definição a sério quando sente o que sente ao segurar sua filha querida no colo. Não estou dizendo que devemos desistir de querer saber alguma coisa de fato ou que devemos parar de querer ter alguma certeza ou mesmo de criar modelos. Acho apenas que deveríamos parar de querer parecer que sabemos tanto quando na verdade não sabemos quase nada.
Estamos diante de uma grande bola de luz alaranjada no meio da noite da nossa ignorância e essa bola é linda e poderosa. O mínimo que poderíamos fazer é tirar o sorriso cínico do rosto e parar de fazer pose.
Pequenos Homens Enfezados
Há uma cena do filme “Além da linha vermelha”, que retrata a batalha de Guadalcanal, na qual o sargento interpretado por Sean Penn vai até o meio do fogo cruzado a fim de levar doses de morfina para um soldado que agoniza de dor após ter levado um tiro no abdômen. Depois de entregar a morfina para o soldado moribundo, o sargento se despede, volta para a posição na qual o resto do pelotão está e reencontra seu capitão, que lhe revela a intenção de indicar o nome do sargento para condecoração. A reação inesperada do sargento é responder violentamente que não desejava nenhuma condecoração por ter feito aquilo e ameaçar agredir o atônito capitão caso o mesmo insistisse com a idéia.
Em alguns casos, para algumas pessoas, o prêmio é um insulto, porque passa a impressão de que se fez o que se fez em nome do prêmio e não em nome da realização da própria ação.
Um prêmio como uma condecoração é um distintivo público valioso. Você pode ostenta-lo porque ele vira um ornamento. Na vida civil, na cidade, sua roupa, seus títulos, o lugar em que trabalha, a casa em que mora ou seu carro podem ser distintivos e as pessoas exigem reconhecimento para essas conquistas. Muitas fazem do reconhecimento de suas conquistas a própria razão da existência em sociedade e pautam totalmente seu comportamento por essa necessidade de serem assistidos como “aqueles que mereceram ter o que têm”.
Eu duvido que toda a pressa e o desconforto do trânsito e da fila no banco sejam causados pela vontade de chegar mais rápido nos destinos. Eu duvido que toda a falta de educação seja causada pela pressa. Eu duvido que toda a sua agressividade, em palavras ou atos, seja apenas a reação básica de defesa a uma condição de vida opressiva.
Eu acredito que você está muito chateado porque quase ninguém lhe diz que você é bonito, inteligente, atencioso, especial, competente.
Você não salvou da dor ninguém com os intestinos pra fora do corpo em pleno fogo cruzado de uma batalha na Segunda Grande Guerra mas você pertence a uma família de gente boa, certo? Você se matou de estudar, se matou de trabalhar para ser quem você é. Você leu tanto, você se dedicou tanto e foi até o fim para ter essa carreira, essa esposa, esse senso de humor sofisticado, para ter os nomes todos das pontes, dos afluentes do São Francisco, dos remédios, das doenças e dos ministros na ponta da língua, mas só os seus amigos reconhecem isso, e ainda assim apenas de vez em quando. Bem, o que se pode fazer então, quando poucos reconhecem o seu valor?
Uma solução para muitos, me parece, é a auto-celebração constante, a permissividade, a auto-indulgência. Você é um folgado, um escroto, no trânsito, na rua, com seus subordinados, com sua mulher, com seus amigos, esquece os protocolos básicos e não faz nenhum esforço para ser tolerante ou agradável porque, afinal de contas, esse é o luxo mínimo frente ao desprezo alheio.
Você é um pequeno homem enfezado e desconta essa ira de meia pataca atrás do volante ou repetindo bordões sobre “meus direitos” e a “incompetência” alheia enquanto caga em tudo e todos ao seu redor. Bem, meu amigo, reconhecemos sua dor. Seus problemas realmente terminaram e, com eles, parte dos problemas da cidade. Deposite 190 dólares na conta d’O Errático e enviaremos para você um exclusiva MEDALHA em formato de supositório, uma celebração ao tão maltratado esfíncter da classe-média.
Foi um prazer. Não mais.
Clube
The club is (still) open!
Dá para contar a história da minha juventude pelos roteiros feitos em clubes da Zona Norte de São Paulo. As partidas de futebol no Pinheiral, atrás do hospital São Camilo (na verdade não sei nem se o Pinheiral é um clube, tecnicamente falando). As domingueiras no Clube dos Oficiais da Polícia Militar, ao lado do Horto Florestal. Algumas vezes ia também à domingueira do clube dos Oficiais da Aeronáutica. A festa chamava-se “Vênus” e ficava numa rua paralela à avenida Brás Leme. Meu irmão Diego freqüentou a domingueira do Acre Clube e minha irmã Cynthia ia no Espéria, quase em frente ao Clube de Regatas Tietê, do outro lado do rio, na margem oposta, clube do qual ainda sou sócio e ao qual vou toda a semana para nadar e correr.
Tenho histórias de todos esses lugares e de alguns outros, como bailes de debutantes e formaturas no Círculo Militar e no Clube Pinheiros. Histórias de amizade e de brigas. Havia um claro comportamento de gangue entre a meninada. Eu gostava de chegar a um desses locais e, sendo apresentado por um “membro” mais velho ou mais popular ao resto do grupo, ganhar o respeito e a simpatia do resto. Não havia muitos compromissos a cumprir, apenas ficar no mesmo canto da pista de dança com o resto do pessoal e, em caso de briga, tomar o partido certo e distribuir uns chutes em quem “invadisse o território”.
A música nesses lugares era uma mistura de rock e house, principalmente. Os sets se repetiam quase da mesma maneira, todo o domingo. As pessoas ensaiavam coreografias e dançavam em linha, às vezes umas trinta, totalmente sincronizadas.
No final da noite, às vezes havia ainda uma última parada em alguma lanchonete próxima, antes de voltar pra casa. Em algumas noites eu conseguia carona e em outras tinha que voltar de ônibus ou até a pé, quando o dinheiro era contado.
O Clube de Regatas Tietê, ou simplesmente Tietê, é o meu clube até hoje, como já disse. Voltei a freqüenta-lo há pouco mais de quatro meses, depois de oito ou dez anos ausente. Meu irmão se mudou com a mulher para o bairro da Ponte Pequena e ficou vizinho do clube. Com isso, voltou a usar academia de musculação, pista de corrida e piscinas do Tietê. Ele insistia para que eu também voltasse até que um dia resolvi reativar meu título.
O Tietê é um clube decadente, tentando sair do buraco. Lembra muito a história daquele filme argentino, “Clube da Lua”. Ele tem mais de 100 anos, mas se afundou em dívidas e assisitu a uma debandada geral de seus sócios, em parte pela própria política adotada pelos seus diretores (que não incentivavam a entrada de visitantes e pararam de promover eventos para arrecadação de fundos), em parte pela ascensão de academias e em parte pelos escândalos de roubos de recursos envolvendo funcionários. Apesar disso, mesmo decadente, a estrutura é impressionante. O parque aquático é fabulosos. São duas piscinas olímpicas (uma com trampolins para a prática de salto ornamental) e uma piscina semi-olímpica coberta e aquecida, além da piscina infantil e da social. Há um salão de festas enorme onde um amigo, o Mauro, realizou sua festa de casamento. Seis ou sete quadras de tênis, pista de corrida, campo de futebol, quadras cobertas de vôlei, squash, ginásio poliesportivo, espaço para prática de judô, tênis de mesa, arco-e-flecha e mais. Os vestiários centenários têm armários de madeira nobre polida e algumas chaves usadas para tranca-los ainda são as originais. A água que sai dos chuveiros vem de uma caldeira. Não há nada igual em academias, eu penso… e essa é a mensagem. Tem gente de academia, tem gente de personal trainer em casa, tem gente de esteira na sala e tem gente de clube. Eu sou um cara de clube. Gosto do clima. Gosto de andar nas alamedas do Tietê e ver verdadeiros bandos de gatos ferais circulando. Gosto dos personagens, como o seu Toninho e o seu Olívio, que trabalha no vestiário do clube há mais de 45 anos. Na sala de troféus, tem coisas que deveriam estar num museu do esporte brasileiro, alguns artigos e fotos da Maria Esther Bueno, tenista multiganhadora de Wimbledon e imagens da época em que se praticava regatas no rio Tietê.
A família de minha tia Estela vivia no clube Espéria. Na época (eu devia ter uns dez ou onze anos), sentia inveja dos meu primos porque não ia tanto ao Tietê e não tinha uma turma de amigos no clube, como eles tinham. Quando nos encontrávamos, geralmente nas férias de final de ano, eles me venciam em praticamente tudo que disputávamos. Era melhores nadadores, boleiros e tenistas, masi fortes e mais seguros, e também tinham mais histórias de garotas pra contar. Lembro do meu primo Fábio falando sobre uma menina chamada Georgia. Achava o nome dessa menina demais e pelas histórias que eles me contavam ela parecia um personagem saído de alguma canção do Buddy Holly, uma espécie de Peggy Sue de Santana.
Uma vez, quando fiz dezoito anos, convidei meu primo Fábio para uma festa de aniversário que comemorei junto com um amigo, o Fábio Yanikian, na casa dele, no bairro do Jardim São Bento. Meu primo apareceu com um amigo do clube e o cara era um tremendo escroto!
Estou escrevendo este texto aqui e, na verdade, o que quero dizer é que nossa vida se confunde com a nossa cidade, com o nosso bairro, com os lugares pelos quais passamos. Hoje, não sei como é. Essas crianças de condomínio fechado, essas crianças de video-game, esses jovens fechados dentro de um mundinho estranho de auto-adulação eterna na internet, eu não sei como essas coisas funcionam. Tenho 33 anos e o mundo que eu conhecia quando era jovem acabou, foi varrido da face da terra por novos interesses, novas tecnologias, e só sobrevive na memória.
Para mim, os clubes são inspiradores. Neles, você encontra pessoas muito diferentes de si próprio e, além de praticar esportes, pratica o senso de convívio social, a tolerância, o respeito e até a competição com o outro (o velho ranzinza que não é seu tio, a gostosa que não te dá bola e a que te dá bola, o cara mais velho que te enche o saco e o que é camarada etc). Para os jovens da minha época, esses clubes todos serviram como um espaço relativamente seguro para o exercício de habilidades que depois seriam bastante cobradas pela vida adulta. Neles o encontro era físico, entre físicos, e ali os moleques e garotas podiam se medir, se testar e se provocar à vontade, sem a proteção de se estar em casa, na frente de um monitor e atrás de um teclado. Era mais emocionante, me parece, e um tanto mais perigoso.
Eu celebro os clubes, hoje, em meu texto, porque quero que você saiba que eles existiram e que alguns ainda existem. Essas construções ainda fazem parte da paisagem urbana e, se dermos a oportunidade, talvez ainda tenham alguma colaboração a oferecer para nós e os jovens paulistanos.
Várias vezes, quando estou no Tietê, vejo uma professorinha passeando com as filhas gêmeas do meu amigo Mauro, o mesmo que festejou seu casamento no salão do clube. Elas ainda são bebês e ficam na escola do clube durante a tarde, enquanto os pais trabalham. Apesar de estar encostadas na Marginal, as alamedas do clube são silenciosas e arborizadas, perfeitas pra embalar o sono da Lívia e da Lais (o nome delas). Essa imagem, uma professora passeando com as filhas de um amigo de infância à tarde, enquando nado sozinho numa piscina olímpica oficial fabulosa, me enche de paz. E é isso.