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A cena de Birmingham, através do universo paralelo de Roy Wood e Jeff Lynne I
Já falamos sobre Roy Wood e The Move em outro post. Mas e o Idle Race?
Era necessário um capítulo à parte para The Idle Race, grupo ainda mais desconhecido que o Move. Formado das cinzas da primeira banda de Roy Wood, que era seu guitarrista, o Mike Sheridan & The Nightriders era formado por Mike Sheridan (ex-Dakotas, ex-Checkers) nos vocais, Brian Cope no baixo, Dave Pritchard (ex-Planets) na guitarra rítmica e Roger Spencer (ex-Hound Dogs) na bateria. Com a saída de Wood e entrada de Jeff Lynne, gravam alguns singles pela Pye como Nightriders, que deram em nada.
Com uma mudança de direção e a ascenção de Lynne como compositor, mudaram de nome para The Idyll Race e, depois, The Idle Race. Assinando com o selo Liberty (parte da EMI), gravam uma cover do Move: (Here We Go Round) The Lemon Tree. Mas com a versão original ainda em alta rotação, acabaram optando por rapidamente lançar um segundo single. Este seria o excelente Impostors of Life’s Magazine, um psychpop esquisito, divertido, com múltiplos “pedaços” e produção intrincada, que se torna um cult favorite imediato, já que não vendeu nada por problemas de promoção. Impostors tem de tudo: English Hall, soul, freakbeat, rock, folk… Não à toa, entrou na caixa do Nuggets II: Original Artyfacts From The British Empire And Beyond.
Em 1968, sai The Birthday Party (teríamos aí uma conexão com Nick Cave?), álbum que teria uma das primeiras capas duplas do rock (claro, depois de Sgt. Pepper’s) e um poster central com dezenas de músicos numa festa de aniversário. Este é um daqueles clássicos trabalhos que fazem você coçar a cabeça perguntando porque não ouviu isso antes. Ou melhor, porque isso não tocou na época? Talvez a resposta esteja ao escutá-lo: trata-se de um álbum muito inglês. Inglês demais para o público americano. As influências estão por toda parte: Beatles na fase Revolver/Sgt. Pepper’s, Kinks de The Village Green Preservation Society, Small Faces de Ogden’s Nut Gone Flake
… Mas com um toque a mais de “briticismo”: nas letras, que em certos momentos são absolutamente inintendíveis para um não-local, e nas nuances excêntricas e divertidas. Roger diz até hoje que se tratava de um álbum do Rupert, o Urso… Foi nesta época que Jeff começa a se apaixonar pela produção. Read the rest of this entry »
A cena de Birmingham, através do universo paralelo de Roy Wood e Jeff Lynne I
Responda: qual banda inglesa dos anos 60 conseguiu nove Top 20 em 6 anos, sendo um primeiro lugar, produziu 4 álbuns, substituiu o The Who no Marquee Club e continua completamente desconhecida em terras brasileiras? Se você respondeu, é um dos raros que conhecem o Move, um dos mais interessantes sub-produtos do mod e psychedelic rock inglês. Originalmente de Birmingham (noroeste de Londres), cidade que também geraria o Moody Blues, The Idle Race e Denny Laine, um outro importante desconhecido, que foi um dos criadores do “baroque” rock e seria a outra metade do Wings de Paul McCartney. História esta que merecerá um futuro texto.
Formado em 1966 por Bev Bevan, Carl Wayne, Chris “Ace” Kefford (Carl Wayne & the Vikings), Roy Wood (The Nightriders) e Trevor Burton (Danny King & The Mayfair Set), começaram como uma banda de covers, principalmente de R&B e soul music, cantada em 4 ou 5 vozes, mas com aquele típico punch das bandas mod. Aos poucos, com a ascenção de Roy Wood à liderança da banda, passaram a compor seu próprio repertório. Foram, então, contratados pelo svengali Tony Secunda (que já cuidava do Moody Blues e do The Action). Foi ele o grande responsável por relocá-los a Londres e assegurá-los um lugar no histórico Marquee Club, a ex-casa do Who. Mas também era expert em criar factóides e gerar barulho – aliás, com o outros tantos naqueles anos. Entre outras, mandou um postal com a montagem de uma foto do primeiro-ministro inglês nu para promover um single, à revelia da banda, causando um pequeno furor (e causando ao Move a perda dos direitos autorais do single até hoje também). Também vinha dele boa parte das idéias para os shows, marcantes pelas loucuras e pelo espetáculo visual da banda. Destruiam carros ao vivo, usavam roupas mais extravagantes que os Beatles de Sgt. Pepper’s, estouravam alarmes nos clubes para que os bombeiros aparecessem durante a canção Blackberry Way, quebravam aparelhos de TV com um machado no meio do público, que se ralava inteiro, entre outras bobagens. Roy Wood não era muito fã disto, sendo um verdadeiro freak bigodudo, e talvez um dos mais reclusos líderes de banda de então. Tanto é que Carl Wayne, vocalista, era considerado o porta-voz para a imprensa – apesar de Wood ser o compositor. Se por um lado, estes esquemas de marketing funcionavam no curto prozo, acabou machucando a percepção de muitos sobre a qualidade da banda, isto sim inquestionável.
O Move era uma banda de singles: seu primeiro álbum só foi lançado em 1968, e era quase que uma coletânea destes. Seu primeiro single, Night of Fear, que chupa o riff da Overture 1812 de Tchaikovsky, chega a segundo lugar nas paradas inglesas em janeiro de 67. Apesar de um grande gancho pop, não era ainda o som típico da banda. O lado B, The Disturbance, contudo, acaba sendo mais representativo da mente de Roy Wood: aliás, se passa num hospital psiquiátrico. Tinham o punch de um Small Faces, a coesão de um Who, mas com um sotaque ainda mais inglês, mais florido (pela ampla influência do som da Costa Oeste americana – Byrds e Love, especialmente) e, principalmente, mais melancólico. O sensacional clássico psicodélico I Can Hear The Grass Grow veio em seguida, com uma daquelas letras nonsense que só ingleses em 1967 poderiam fazer. Enfiaram mais uma seqüência de hit singles. Flower In The Rain, que pode ser colocada junto a Waterloo Sunset (Kinks) e Itchicoo Park (Small Faces), como as mais representativas canções do flower pop britânico. Cherry Blossom Clinic, o single seguinte, foi vetado pela gravadora depois da série de problemas legais, pois tratava também de uma clínica mental e acabou sendo lançado só em 1969 no segundo álbum. Seu melhor momento até então foi (Here We Go Round) The Lemon Tree, obra-prima psychpop que imediatamente virou nome de banda e cover de um importante grupo que já falaremos: o Idle Race. Fire Brigade, pop irresistível, de riff chicletão, e Blackberry Way, um clássico, uma espécie de marcha-rock com um refrão majestoso, imponente, fecham esta primeira fase. Read the rest of this entry »
As 8 Maravilhas do Mundo Pós-Moderno: I – O PAC
Inauguramos aqui a série das novas Maravilhas do Mundo. Não contente com a limitação de escolher apenas obras concretas, certamente imposta por machos dominadores, O Errático ousa desafiar a opressão e apresentar as maravilhas pós-modernas da humanidade. São legados que elevam a capacidade humana de criação a patamares que nem mesmo a arquitetura e a geologia conseguiram.
A primeira das novas maravilhas do mundo certamente é o PAC, o Programa de Aceleração do Crescimento. O brilhante conceito, certamente desenvolvido por um grupo de cientistas neurolinguísticos de PNL – que é o pai do PAC, já que a mãe verdadeira fugiu e a adotiva está em campanha pelo filho – já era um sucesso antes mesmo de sê-lo. Vamos desconstruir cada uma das palavras que anunciam a nova aurora da política pública.
Programa – É aquilo que se assiste na TV, aquilo que prende e seda as pessoas, trazendo felicidade e conforto. É também a forma mais correta de se comunicar algo para o grande público, afinal ler dá azia e cansa demais.
Aceleração – é a batida do coração, é aquilo que se move, a Marcha dos Milhões, é Pol Pot e Mao Tse-Tung, só que sem as mortes. É uma mudança cultural, que se volta para a emoção de cada um dos seres humanos que habitam o Brasil. Lembra também Ayrton Senna (Acelera, Ayrton!), Copa do Mundo, Galvão Bueno e mais um monte de coisas que só quando se acelera se sabe.
Crescimento – Essa palavra sintetiza o lado malemolente tipicamente brasileiro. Porque brasileiro nasce com aquilo roxo e não dá chance para a cabroxa reclamar: cresce e pronto. Crescimento também é algo inerente ao Brasil: estamos sempre fadados ao crescimento, se não hoje, possivelmente depois de amanhã, porque amanhã é feriado.
Juntas, essas 3 letrinhas com tanto conceito e conteúdo intrínsecos representam o que há de mais avançado em META-política no mundo hoje. O PAC é a filosofia por trás da engenharia e dos gastos – qualquer gasto. E é isso que o torna tão genial – o PAC é o tudo: cabe absolutamente qualquer coisa dentro dele. Três letrinhas que, 2000 anos após Cristo, significam mais do que o Pai e do que Havaianas, já que o PAC é onipresente, onisciente, não solta tiras e não deixa cheiro.
Investimento em infraestrutura? É PAC. Asfaltamento da rua de casa? É PAC. Vai comprar um carro? É obra do PAC. Produziu metano depois de comer uma feijoada? Também é do PAC. O gás e o feijão. O melhor de tudo é que nem precisa ser real, nem o metano e nem o feijão: basta apenas dizer que potencialmente o feijão e o metano irão ser produzidos e gerados, e que estão dentro do PAC. Pronto: como um milagre da pós-hipnose, temos um PAC de feijão e metano prontinho para ser servido na mídia.
O PAC também é número, de preferência, na casa dos milhões. Todo mundo sabe que no Brasil, qualquer coisa que fale acima de dez mil não faz a mínima diferença para a população média. Dez mil, cem mil e dez milhões são a mesma coisa. E como a obra em si não importa, já que sugestiona-se apenas a futura existência da mesma, podemos dizer que o PAC é o primeiro simulacro de política pública do mundo realizado com sucesso. Nem a China, com a Revolução Cultural, conseguiu sustentar por tanto tempo um movimento de tal envergadura. Talvez porque cometeram o erro de FAZER a revolução e não só ANUNCIÁ-LA, que foi a grande sacada por trás do PAC. Brasileiro gosta é de gente com coração bom e boas intenções. O resto é detalhe.
É por criar o primeiro simulacro real de revolução anunciada que o PAC merece ser incluído entre as maiores maravilhas do mundo pós-moderno.
Clube
The club is (still) open!
Dá para contar a história da minha juventude pelos roteiros feitos em clubes da Zona Norte de São Paulo. As partidas de futebol no Pinheiral, atrás do hospital São Camilo (na verdade não sei nem se o Pinheiral é um clube, tecnicamente falando). As domingueiras no Clube dos Oficiais da Polícia Militar, ao lado do Horto Florestal. Algumas vezes ia também à domingueira do clube dos Oficiais da Aeronáutica. A festa chamava-se “Vênus” e ficava numa rua paralela à avenida Brás Leme. Meu irmão Diego freqüentou a domingueira do Acre Clube e minha irmã Cynthia ia no Espéria, quase em frente ao Clube de Regatas Tietê, do outro lado do rio, na margem oposta, clube do qual ainda sou sócio e ao qual vou toda a semana para nadar e correr.
Tenho histórias de todos esses lugares e de alguns outros, como bailes de debutantes e formaturas no Círculo Militar e no Clube Pinheiros. Histórias de amizade e de brigas. Havia um claro comportamento de gangue entre a meninada. Eu gostava de chegar a um desses locais e, sendo apresentado por um “membro” mais velho ou mais popular ao resto do grupo, ganhar o respeito e a simpatia do resto. Não havia muitos compromissos a cumprir, apenas ficar no mesmo canto da pista de dança com o resto do pessoal e, em caso de briga, tomar o partido certo e distribuir uns chutes em quem “invadisse o território”.
A música nesses lugares era uma mistura de rock e house, principalmente. Os sets se repetiam quase da mesma maneira, todo o domingo. As pessoas ensaiavam coreografias e dançavam em linha, às vezes umas trinta, totalmente sincronizadas.
No final da noite, às vezes havia ainda uma última parada em alguma lanchonete próxima, antes de voltar pra casa. Em algumas noites eu conseguia carona e em outras tinha que voltar de ônibus ou até a pé, quando o dinheiro era contado.
O Clube de Regatas Tietê, ou simplesmente Tietê, é o meu clube até hoje, como já disse. Voltei a freqüenta-lo há pouco mais de quatro meses, depois de oito ou dez anos ausente. Meu irmão se mudou com a mulher para o bairro da Ponte Pequena e ficou vizinho do clube. Com isso, voltou a usar academia de musculação, pista de corrida e piscinas do Tietê. Ele insistia para que eu também voltasse até que um dia resolvi reativar meu título.
O Tietê é um clube decadente, tentando sair do buraco. Lembra muito a história daquele filme argentino, “Clube da Lua”. Ele tem mais de 100 anos, mas se afundou em dívidas e assisitu a uma debandada geral de seus sócios, em parte pela própria política adotada pelos seus diretores (que não incentivavam a entrada de visitantes e pararam de promover eventos para arrecadação de fundos), em parte pela ascensão de academias e em parte pelos escândalos de roubos de recursos envolvendo funcionários. Apesar disso, mesmo decadente, a estrutura é impressionante. O parque aquático é fabulosos. São duas piscinas olímpicas (uma com trampolins para a prática de salto ornamental) e uma piscina semi-olímpica coberta e aquecida, além da piscina infantil e da social. Há um salão de festas enorme onde um amigo, o Mauro, realizou sua festa de casamento. Seis ou sete quadras de tênis, pista de corrida, campo de futebol, quadras cobertas de vôlei, squash, ginásio poliesportivo, espaço para prática de judô, tênis de mesa, arco-e-flecha e mais. Os vestiários centenários têm armários de madeira nobre polida e algumas chaves usadas para tranca-los ainda são as originais. A água que sai dos chuveiros vem de uma caldeira. Não há nada igual em academias, eu penso… e essa é a mensagem. Tem gente de academia, tem gente de personal trainer em casa, tem gente de esteira na sala e tem gente de clube. Eu sou um cara de clube. Gosto do clima. Gosto de andar nas alamedas do Tietê e ver verdadeiros bandos de gatos ferais circulando. Gosto dos personagens, como o seu Toninho e o seu Olívio, que trabalha no vestiário do clube há mais de 45 anos. Na sala de troféus, tem coisas que deveriam estar num museu do esporte brasileiro, alguns artigos e fotos da Maria Esther Bueno, tenista multiganhadora de Wimbledon e imagens da época em que se praticava regatas no rio Tietê.
A família de minha tia Estela vivia no clube Espéria. Na época (eu devia ter uns dez ou onze anos), sentia inveja dos meu primos porque não ia tanto ao Tietê e não tinha uma turma de amigos no clube, como eles tinham. Quando nos encontrávamos, geralmente nas férias de final de ano, eles me venciam em praticamente tudo que disputávamos. Era melhores nadadores, boleiros e tenistas, masi fortes e mais seguros, e também tinham mais histórias de garotas pra contar. Lembro do meu primo Fábio falando sobre uma menina chamada Georgia. Achava o nome dessa menina demais e pelas histórias que eles me contavam ela parecia um personagem saído de alguma canção do Buddy Holly, uma espécie de Peggy Sue de Santana.
Uma vez, quando fiz dezoito anos, convidei meu primo Fábio para uma festa de aniversário que comemorei junto com um amigo, o Fábio Yanikian, na casa dele, no bairro do Jardim São Bento. Meu primo apareceu com um amigo do clube e o cara era um tremendo escroto!
Estou escrevendo este texto aqui e, na verdade, o que quero dizer é que nossa vida se confunde com a nossa cidade, com o nosso bairro, com os lugares pelos quais passamos. Hoje, não sei como é. Essas crianças de condomínio fechado, essas crianças de video-game, esses jovens fechados dentro de um mundinho estranho de auto-adulação eterna na internet, eu não sei como essas coisas funcionam. Tenho 33 anos e o mundo que eu conhecia quando era jovem acabou, foi varrido da face da terra por novos interesses, novas tecnologias, e só sobrevive na memória.
Para mim, os clubes são inspiradores. Neles, você encontra pessoas muito diferentes de si próprio e, além de praticar esportes, pratica o senso de convívio social, a tolerância, o respeito e até a competição com o outro (o velho ranzinza que não é seu tio, a gostosa que não te dá bola e a que te dá bola, o cara mais velho que te enche o saco e o que é camarada etc). Para os jovens da minha época, esses clubes todos serviram como um espaço relativamente seguro para o exercício de habilidades que depois seriam bastante cobradas pela vida adulta. Neles o encontro era físico, entre físicos, e ali os moleques e garotas podiam se medir, se testar e se provocar à vontade, sem a proteção de se estar em casa, na frente de um monitor e atrás de um teclado. Era mais emocionante, me parece, e um tanto mais perigoso.
Eu celebro os clubes, hoje, em meu texto, porque quero que você saiba que eles existiram e que alguns ainda existem. Essas construções ainda fazem parte da paisagem urbana e, se dermos a oportunidade, talvez ainda tenham alguma colaboração a oferecer para nós e os jovens paulistanos.
Várias vezes, quando estou no Tietê, vejo uma professorinha passeando com as filhas gêmeas do meu amigo Mauro, o mesmo que festejou seu casamento no salão do clube. Elas ainda são bebês e ficam na escola do clube durante a tarde, enquanto os pais trabalham. Apesar de estar encostadas na Marginal, as alamedas do clube são silenciosas e arborizadas, perfeitas pra embalar o sono da Lívia e da Lais (o nome delas). Essa imagem, uma professora passeando com as filhas de um amigo de infância à tarde, enquando nado sozinho numa piscina olímpica oficial fabulosa, me enche de paz. E é isso.