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	<title>O Errático &#187; Entrevista</title>
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		<title>Os críticos: uma visão crítica</title>
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		<pubDate>Wed, 19 Aug 2009 20:08:09 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Renato Grinbaum</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Uma entrevista e um texto com a crítica musical brasileira &#8211; realizada em 1998 por Rodrigo, Ricardo e Renato Uma das instituições mais criticadas no Brasil e no mundo é a própria “instituição” que normalmente é responsável por esta tarefa: os críticos. Se considerarmos que a música não é exatamente um quesito muito lógico ou [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p>Uma entrevista e um texto com a crítica musical brasileira &#8211; realizada em 1998 por Rodrigo, Ricardo e Renato</p>
<p><img class="alignleft" src="http://thepasswordisswordfish.files.wordpress.com/2009/04/americanidol.jpg" alt="" width="158" height="109" />Uma das instituições mais criticadas no Brasil e no mundo é a própria “instituição” que normalmente é responsável por esta tarefa: os críticos. Se considerarmos que a música não é exatamente um quesito muito lógico ou racional, a validade dos críticos musicais passa a ser ainda mais questionada. Por isso, fomos saber o que se passava na cabeça de algum dos críticos musicais de importantes veículos nacionais, através de algumas perguntas genéricas. Eram eles <em>Marcel Plasse</em>, do Estado de São Paulo, <em>Pedro Alexandre Sanches</em>, da Folha de São Paulo e <em>Celso Masson</em>, da Revista Veja. Nossa intenção foi deixá-los à vontade para responderem o que quisessem, sem qualquer interpelação. É interessante também notar como suas respostas envelheceram nestes anos entre a primeira publicação, em 1998, e hoje em dia. Estas foram suas respostas.</p>
<p><strong><span id="more-972"></span>Quais são suas bandas e estilos favoritos?</strong></p>
<p><em>Marcel Plasse</em> &#8211; Mudam o tempo todo. Apenas no ano passado [1997], quatro novos rótulos ganharam destaque na mídia &#8211; big beat, speed garage, Paris Disko e electronica. Banda também é uma expressão restritiva, que ignora cantores, produtores, músicos, rappers e DJs. Mas você deve estar querendo uma resposta objetiva. No momento, o estilo favorito é breakbeat, que virou toda uma cultura. Break é uma expressão do funk, que virou breakbeat nos dias do hip-hop old school (1974 -1983) e voltou à moda nos últimos anos, passando a ser usada no jungle, no big beat e também como substitutivo para o rótulo trip-hop entre os artistas das gravadoras Ninja Tunes e Mo’Wax. Nos últimos meses, os DJs de breakbeats radicalizaram uma cena específi ca, à parte, originária do hardcore (estilo de dance music) como o jungle, mas que representa um racha em relação ao estilo drum’n’bass para os lados do big beat. Gosto de todos as fases e variações das breakbeats, mas nos últimos tempostenho dedicado mais interesse sobre essa nova cena, chamada de nu school breaks. Também tenho comprado quilos de CDs de house music francesa, o tal Paris Disko. Dentre os estilos clássicos, nada bate a soul music dos anos 60. Artistas que se revezam na fila ao lado do meu CD-Player nas últimas semanas: DJ Shadow, Fatboy Slim (Norman Cook), Radiohead, Air, Roni Size/Reprazent, Alan Freeland, Thursday Club/Rennie Pilgrem, Riverdales, Grooverider, The Mr. T Experience, Kid Loco, Jon Spencer, Nas, Missy Elliot, Cornershop, Aquasky, Plug, Fiona Apple (só para fi carolhando o encarte), Sleater-Kinney, Portishead, Belle and Sebastian, Beth Orton, Spiritualized, Monkey Mafi a, Etienne de Crecy/Motorbass, Stereolab, Bentley Rhythm Ace (BRA) Artistas que, volta e meia, fazem fila ao lado do meu CD-Player: the great Sam Cooke, the greatest Marvin Gaye, The Clash, Lou Reed, David Bowie, KRS-One, Ultramagnetic MC’s, Isaac Hayes, Run-DMC, Beastie Boys, Afrika Bambaataa, Charlatans, My Bloody Valentine, Big Star, Replacements, Funkadelic, Curtis Mayfi eld, Moonshake, AR Kane, The Loft, The Jesus and Mary Chain, The Shirelles, Herman’s Hermits, Donovan, Melanie, The Ronettes, James Brown, Roy Orbison, Eric B &amp; Rakim, The Who, Otis Redding, The Kinks, Small Faces, Herbie Hancock, The Trane(John Coltrane), The Byrd (Charlie Parker), Count Basie, Booker T, Jan &amp; Dean, Dee Dee Sharp, Mantronix, Blondie, Kraftwerk, The Crystals, Lee “Scratch” Perry, U. Roy, Junior Murvin, Joseph Hoo Kim, L. Lindo, Leith Stevens, The Archies, The Byrds, The Chiffons, Shop Assistants, Joe Gibbs and the Professionals, Buzzcocks, The Beat, The Cars, Kiss, Beach Boys, The Fantastic Baggys. Que fila, hein?</p>
<p><em>Celso Masson</em> &#8211; Você não acha que isso é um pouco indiscreto demais para ser colocado assim, na rede? Eu jamais cairia nessa, meu chapa!</p>
<p><em>Pedro Alexandre Sanches</em> &#8211; Bem, como são muitos, vou responder muitos. Os de sempre: Lou Reed e Velvet, Patti Smith, David Bowie, Rita Lee e Mutantes, Jorge Ben, Paulinho da Viola, Erasmo Carlos, Television, Love, Roxy Music e Brian Ferry, Blondie, Sly Stone, Smokey Robinson e Miracles, Sam Cooke, Marvin Gaye, Supremes, Temptations, Clara Nunes, Roberto Carlos, Prince, Michael Jackson e Jackson Five, Sonic Youth, Beach Boys, Nara Leão, Leonard Cohen, Marianne Faithfull, Itamar Assumpção, Elza Soares, Assis Valente, Clementina de Jesus, Araci de Almeida, Cartola, Elizeth Cardoso, Funkadelic, Tim Maia, Novos Baianos, Leno e Lilian, Troggs, Ira!, Marina Lima, Lobão, Modern Lovers, Big Star, Tim Buckley, Nick Drake, Tom Tom Club, Chic, Zé Ramalho, Nick Cave, Maria Bethânia, Gilberto Gil&#8230; Nos anos 90: Beck, Luna, Chico Science e Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Yo La Tengo, Júpiter Maçã, Ben Harper, Neneh Cherry, Air, Daft Punk, Sex Beatles, Alvin L. e Cris Braun, Edgard Scandurra, Cássia Eller, Humberto Effe, Björk, Primal Scream, Beat Happening, PJ Harvey, Chemical Brothers, Cowboy Junkies, Chris Isaak, Fernanda Abreu, Lenine, Virginia Rodrigues, Wander Wildner, Rita Ribeiro, Soul II Soul, A Tribe Called Quest, Jungle Brothers, Lenny Kravitz, Wyclef Jean, Jota Quest&#8230;</p>
<p><strong>Visão sobre o que é a crítica musical (sua função, necessidade etc.)</strong></p>
<p>MP &#8211; A famosa questão: defi na “vida” em 20 toques. Ok, objetividade: crítica musical é algo que a revista Rolling Stone vendeu como vital nos anos 60 e que tem pouca tradição no Brasil. A primeira geração de críticos famosos e tupi-guaranis era toda carioca e nos legou o Barão Vermelho.<img class="alignright" src="http://www.postmodernmoron.com/wp-content/uploads/2010/10/Plinkett.jpg" alt="" width="256" height="192" /> A segunda era paulista e nos legou o RPM. Crítico costumava ser aquele palhaço que levava porrada do Nasi na Folha de S. Paulo. Depois, virou aquele que dizia que andava armado para o Nasi na Bizz. Engraçado, mas a função da crítica não é humor, embora ajude. Cada qual tem sua idéia de crítica. Para começar, gosto se discute e por isso existe a crítica. Minha visão particular vai além disso. A música é apenas a ponta do iceberg. Há um elitismo muito grande na imprensacultural, que desdenha do pop (cinema de ficção científi ca, literatura de horror, quadrinhos, rock, etc.), mas ele é a marca mais importante da cultura contemporânea. A pop art, último movimento artístico a ser considerado como tal, copiava os quadrinhos, ia ao Club 54, fazia filmes pornôs, se entupia de cocaína e bancava o Velvet Underground. É tudo interligado: trilha sonora, comportamento, política cultural. Não é dizer que o Tchan é brega porque é brega. As Spice Girls também são. Não é dizer que Madonna é tudo. Ela já foi considerada brega. Ainda é brega, na minha opinião. Na verdade, meu ideal de crítica é uma variação da antropologia cultural, uma forma de desvendar signos, índices, ícones, símbolos, signifi cados e signifi cantes, de forma a perceber a realidade/atualidade. Não creio que a função da crítica seja ensinar, mas, sim, desvendar o zeitgeist. Não adianta nada você ter ouvido todos os discos de guitar bands (denominação de zineiros brasileiros para o chamado indie rock, que fazia sentido nos anos 80), porque a realidade musical não é monotemática e, no máximo, essa experiência só serve para avaliar ou falar de um grupo de comportamento muito restrito. Como um fã de Radiohead, que só ouviu guitar bands, avalia uma declaração de que OK Computer foi infl uenciado por DJ Shadow? O que significa a relação abobalhada da mídia diante do show do U2 no Brasil? Porque a comparação com os Beatles funcionou para o Oasis no Brasil? &#8211; até o jornal do SBT destacou a banda por conta desse cliché. Por que o disco de Madonna é um lixo pop vulgar se toda a crítica adorou? Por que alguém tem coragem de defender a misoginia dos Funk Fuckers? É preciso ter essas respostas e elas dizem muito sobre o estado das coisas, o inconsciente coletivo, grau de alfabetização, etc. de um país, de uma cultura, e, nessa época de globalização, que já é total numa cidade como São Paulo, essas respostas funcionam como senhas no computador da realidade. Uma vez acessado esse mainframe, a cultura pode ser vista por uma perspectiva muito mais agressiva.</p>
<p>CM &#8211; A melhor definição não poderia ser minha mesmo, então pego essa, de Federico Fellini: “a crítica serve para colocar um produto cultural em seu devido lugar, dentre os demais”. Se essa é uma função necessária, não sei. Mas deve ser, porque há dez anos me pagam salário para ouvir discos e escrever a respeito.</p>
<p>PAS &#8211; Acredito que a crítica (em qualquer área, não só a musical) seja uma forma de auxiliar a compreensão do mundo como um todo. Sendo brasileiro e gostando pra caramba de música, acabei me interessando mais pela crítica de música brasileira, acreditando que refletir sobre o último disco da Marina Lima ou do Júpiter Maçã possa ajudar, mesmo que de forma insignificante, a entender o próprio país, qual é a dele, o que está acontecendo. Aí entra também o interesse histórico: pelo passado da música (os relançamentos, os nomes injustiçados, as mudanças que foram acontecendo) acho que é possível refletir também sobre evoluções (ou retrocessos) em escala maior. Pensando em música estrangeira, também nas relações (em geral colonialistas e colonizadas) do Brasil com o mundo. Parece esdrúxulo, mas utilizo a coisa que mais gosto (a música), para tentar entender todo o resto, até o que eu próprio penso e sinto. Bem, se puder ser assim mesmo, não acho difícil responder que acho a crítica (de qualquer natureza) crucial, essencial, fundamental &#8211; tanto quanto a arte, talvez, embora menos importante e impactante.</p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>Relação imprensa/gravadoras</strong></p>
<p>MP &#8211; Um exemplo: o Estadão proibiu viagens pagas por gravadoras. Resultado: o Estadão não deu a coletiva do Oasis no Chile &#8211; único jornal importante do país a fi car de fora dessa. O que é mais importante, a notícia ou contar vantagem de jornalismo independente? Por outro lado, historicamente os cadernos de Turismo sobrevivem de jabás de agências. Acho que o pior caso desse tipo de relacionamento entre notícia e jornal é o do jornalista político, que costuma ser convidado por um político de direita para assumir um cargo de assessoria de comunicação numa campanha eleitoral &#8211; mamãe de Gabriel, o Estupor, por exemplo. Um jornalista político da Globo é hoje o péssimo governador do Rio Grande do Sul. No campo da música, o lobby é forte e há vários exemplos de jornalistas que passaram para o outro lado, fazendo releases ou mesmo assumindo cargos em gravadoras. Mas, uma coisa que poucos percebem fora do meio, é que jornalista também derruba assessor de imprensa e pressiona por lançamentos de discos. Os setores que têm verba, numa gravadora são os de mídia eletrônica. É notório que há um incentivo financeiro para certas músicas tocarem no rádio. Não há isso na imprensa, porque o alcance é pequeno. A crítica pouco influi na decisão de compra da massa. Björk nunca vendeu bem no Brasil, por exemplo &#8211; os números são mais ridículos do que se pensa. Também, Björk não toca no rádio. Mas tem quilômetros de rodagem na imprensa. A única hora em que a gravadora investe na imprensa é na hora do show, quando pode rachar a verba com alguma produtora ou patrocinador de evento, e quando há algo mais para ser promovido além de música &#8211; uma presença física (a banda). As gravadoras chiam quando você fala mal de um produto prioritário. Ficam de mal por uma semana. Na outra, têm outro produto prioritário e já esqueceram do anterior, porque precisam concentrar-se na divulgação do novo disco/artista. A maioriados assessores de imprensa estudou jornalismo. São profissionais como oscríticos e respeitam o trabalho do outro lado da cerca, embora tenham que apresentar resultados para os patrões capitalistas. Hoje em dia, já estão mais conformados com as idiossincrasias de parte da crítica, que prefere falar de Roni Size ou Cornershop ao novo disco do Hanson ou das Spice Girls. Mas Hanson e Spice Girls não precisam da crítica para vender, embora as multinacionais vejam o papel do jornalista como uma ferramenta de vendas. No fundo, é o que o jornalismo atrelado ao cronograma de lançamentos de produtos capitalistas se torna na prática.</p>
<p>CM &#8211; Costuma ser cordial. A dependência é mútua e ninguém é ingênuo a ponto de se achar mais importante. As gravadoras não lançam discos para a imprensa, que também não publica artigos para satisfazer os interesses das gravadoras. Quanto mais nítida for essa situação, melhor.</p>
<p>PAS &#8211; É, hoje em dia, absolutamente mercantilizada. Usando um exemplo recente, adoraria receber da gravadora na minha caixinha na Folha o último CD da Marina Lima. Aí eu poderia olhar, ficar curioso com a capa, ir ouvir, perceber que tem algo muito especial lá dentro, ficar com vontade de falar com ela, ligar pra ela, falar com meu editor e convencer ele que tinha algo importante aí pra virar notícia (e crítica) de jornal. Claro que nada é assim. A gravadora manda em cima da hora, eu tenho tantas horas para ouvir e ir entrevistar a mulher, que vai estar falando a mesma coisa no mesmo dia para todos os jornais. E todo mundo vai ficar desesperado pra sair no mesmo dia, pra ninguém “furar” o outro. Mediocridade e comodismo, acho. Resta tentar fazer o melhor possível dentro do esquema &#8211; mas sem, acredito, ficar puxando saco ou ficando amiguinho de artista pra ter vantagem sobre os outros, o que só cria constrangimentos de outra natureza.</p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>Relação bandas/gravadoras</strong></p>
<p>MP &#8211; As bandas hipócritas &#8211; as que não são do tipo Tchan – reclamam da indústria, odeiam dar entrevistas, acham tudo medíocre, abominam playback em programa de TV de baixa audiência, mas não se tornam independentes. Isso diz muito sobre elas. Agora, só 8% dos lucros de um CD para o artista é sacanagem da grossa. O dono da loja, que papa cerca de 50% do preço, é mais importante que o artista?</p>
<p>CM &#8211; Sei lá, não trabalho em gravadora.</p>
<p>PAS &#8211; Bem, isso eu acompanho de longe. Não sendo idiota, vejo que é bastante mercantilizada também, acho que desumana mesmo. Vejo bandas e bandas que certamente fazem (estou falando do Brasil, claro) sons muito diferentes do que fariam se não fossem as pressões. Pra citar um caso recente, não acredito que a Sony não tenha influenciado (mesmo que seja por expectativa de vendagens) o Skank a fazer um disco exatamente igual ao anterior, apenas com umas disfarçadinhas aqui e ali. Aposta-se no certo, só no certo. Parece óbvio, também, que artistas importantes, de qualquer idade – cito a Rita Lee, por exemplo –, são absolutamente subvalorizados por “hitmakers” de quinta categoria (como o É o Tchan, da mesma gravadora de Rita Lee, a PolyGram, que vende trilhões de discos a mais). Acho que nos EUA (na Inglaterra, menos) esse negócio é um tanto diferente, mais inteligente, mas o Brasil ainda é puro Terceiro Mundo, miséria mesmo.</p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>Capacidade de indução de gosto musical</strong></p>
<p>MP &#8211; Rádios e TV (não MTV) total. Jornais e revistas quase nenhuma. Importa apenas para uma pequena fatia da classe média com o segundo grau e universitários, cuja especialização costuma ser na área de Ciências Humanas. Ou seja, pessoas com cultura mais sofisticada.</p>
<p>CM &#8211; O que isso quer dizer?</p>
<p>PAS &#8211; É algo que foge do meu domínio. Por mais que tente ser “científico”, rigoroso e coerente nas opiniões, não posso deixar de reconhecer que elas são, também, fruto de gostos pessoais, de “crenças” pessoais. Tento acreditar que meu gosto é condicionado pelo que a arte oferece, e, sendo assim, o gosto apresenta uma linha de coerência que é ditada por fatores estéticos, artísticos, políticos até, e não só por questõezinhas do tipo “vou com a cara de fulano”. Seja como for, o que se escreve em jornal ecoa bastante num certo tipo de leitor – aqueles que são ávidos por cultura, por informação -, que acabam, sim, sendo influenciados. Com os artistas também isso é bem perceptível – eles levam muito em conta o que a gente fala, para o bem ou para o mal. Acho que o ideal seria que houvesse muitas vozes, muitas opiniões falando ao mesmo tempo e se contrapondo; quantas menos há, maior é o poder &#8211; e a arbitrariedade &#8211; das que há (é como o Caetano Veloso, ele acaba sendo nocivo não porque é do jeito que é, mas porque tudo que fala é interpretado como lei, como obrigatoriedade &#8211; e isso é apenas burrice). É péssimo, e do meu lado a única coisa que posso fazer pra tentar atenuar essa coisa de poder é tentando não me deslumbrar, manter aquelas diretrizes iniciais de refletir sobre história, sobre arte, e não sobre vaidades. É complicado.</p>
<p><strong>Papel de transformação da música</strong></p>
<p>MP &#8211; A música nunca transformou nada. Nem a imprensa. O único texto que fez diferença, na História, completou 100 anos recentemente, de Zola. Bob Dylan não parou a Guerra do Vietnã, embora tenha sido uma das milhões de vozes que se levantaram. Os Beatles não mudaram o mundo &#8211; na verdade, o mundo mudou os Beatles, da jaqueta de couro ensebada aos terninhos e, finalmente, ao título de cavalheiro para Sir McCartney. Contracultura? Diga isso para a herança de Linda Eastman. Punk rock? The Filthy Lucre Tour. A mulher que vira vegetariana porque Madonna virou vegetariana ignora completamente o budismo &#8211; uma cultura apenas milenar -, que agora anda influenciando a ex-garota material, que, por sua vez, representava o hedonismo nos anos 80, algo bem anti-Buda. Alguém que se veste como Michael Jackson não foi mudado pela música. Foi mudado pelo capitalismo. A música não muda o mundo, mas ela informa sobre mudanças em andamento, é um índice, em linguagem de comunicação, a fumaça que se vê, ao longe, num incêndio. Isso não é apenas na música &#8211; é no cinema, na literatura, nas artes.</p>
<p>CM &#8211; Poderia ser mais específico?</p>
<p>PAS &#8211; Bom, parece que ela já teve muito, né? Como pensar em Elvis, João Gilberto, Little Richard, Velvet Underground, Beatles, Stones, Caetano, os punks e tanta gente mais como revolucionários, alteradores do curso cultural da história? Mas hoje &#8211; não sei se por falta de distanciamento histórico &#8211; parece que tudo ruiu. Vejo o tecno modificando o mundo de um jeito entusiasmante e ainda muito incompreensível, mas de forma mais mecânica, mais fria. A época em que a música era quente parece ter ficado para trás (quem sabe volte&#8230;),  sinceramente não dá pra crer que Tricky, Oasis, Blur, Massive Attack, Portishead, drum’n’bass e essas coisas todas tenham qualquer poder transformador sobre o mundo. Talvez tenham, eu é que não tô enxergando&#8230;</p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>Bandas mais importantes da década</strong></p>
<p>MP &#8211; Mudado para artista: Nirvana, Prodigy, Primal Scream, The Chemical Brothers, Wu-Tang Clan, Blur, Radiohead, Spice Girls, Oasis, Beck, Alanis Morissette, Beastie Boys, Hole, Smashing Pumpkins, Dr. Dre, Snoop Doggy Dogg, Cornershop, Goldie, Roni Size, Daft Punk, Sean “Puffy Daddy” Combs, Tupac Shakur, The Notorious B.I.G., DJ Shadow, Stereolab, Green Day, Tricky, Massive Attack, Portishead, Fatboy Slim, Bikini Kill, Sleater-Kinney, Cypress Hill, Armand Van Helden, PJ Harvey, My Bloody Valentine, Liz Phair, Pearl fuckin’ Jam, Jane’s Addiction, Nine Inch Nails&#8230;</p>
<p>CM &#8211; Se eu fosse lojista ou promotor de show, diria que é o Oasis – big business como não se via há tempos. Sendo crítico, fecho com Nirvana, Smashing Pumpkins, Radiohead, Morcheeba e Prodigy.</p>
<p>PAS &#8211; Lá fora: Beck, Sonic Youth, Daft Punk, Chemical Brothers. Aqui: Nação Zumbi, Mundo Livre S/A, Cássia Eller, Lenine.</p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>Papel da imprensa musical hoje em dia.</strong></p>
<p>MP &#8211; Vide respostas anteriores.</p>
<p><img class="alignleft" src="http://cavernadezion.files.wordpress.com/2009/02/cultura.jpg" alt="" width="192" height="211" />CM &#8211; No Brasil, mercado fonográfico que mais cresce no mundo, a imprensa musical poderia ser utilíssima. Como estou nesse meio, posso reconhecer que seu papel atual é péssimo, sem me excluir. Tirando as idiossincrasias de uns poucos falastrões, a imprensa musical não educa, não polemiza e não revela nada de relevante.</p>
<p>PAS &#8211; Deveria, na minha opinião, ser aquele de veículo de reflexão sobre o mundo e de diálogo com ele. Mas, do jeito que tá, é só bajulação, falta de coragem, “em-cima-do-murismo”, falta de criatividade. A crítica, como um todo, parece bicho em extinção, é algo que não se enxerga em quase nenhuma área, em quase nenhum órgão de imprensa, em quase nenhum fórum de discussão. Costumo pensar que é a era FHC por excelência, o mundo virou um gigantesco muro em que todo mundo ta empoleirado, e todo mundo se cagando de medo de cair. Falta de vergonha na cara, em outras palavras.</p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong> </strong></p>
<p><strong>O que é pop para você?</strong></p>
<p>MP &#8211; O que começou como denominação de música açucarada para adolescentes &#8211; versão branca do rhythm’n’blues de Little Richards, Fats Domino, Ike Turner e Chuck Berry &#8211; ganhou outro signifi cado nos anos 60, com o termo pop art, e virou revista nos 70, Pop. Hoje, vejo a palavra com dois sentidos: música descartável, forma como é mais empregada, e também como toda a manifestação cultural considerada descartável e inócua pela elite da Cultura &#8211; tipo, o nome do suplemento de literatura do Estadão se chama Cultura. Assim, pop é a Internet, o CD-RW, o sample, o DJ, o fi lme Scream, o gibi do Super-Homem e o álbum OK Computer. Aquele que condena o Tchan repete, numa variação de valores, condenação similar a de Julio Medaglia a qualquer grupo de rock que não seja sinfônico como George Martin &#8211; ops, The Beatles. Pop é toda expressão cultural surgida na era da comunicação de massas que sofre preconceito por parte da high culture.</p>
<p>CM &#8211; Uma palavra que quebra um galhão na hora de escrever qualquer bobagem.</p>
<p>PAS &#8211; É o conceito-coisa-valor mais forte e presente e importante que existe. Engenheiros do Hawaii podem ser o fi m da picada, mas não dá pra discordar deles que o papa é pop, o FHC é pop, o tecno é pop, a Madonna é pop, a falsificação dos remédios é pop, a novela das oito é pop, a parada gay é pop&#8230; Tudo gira em torno do pop, resta diferenciar o pop burro do pop inteligente – porque o pop pode ser, sim, a coisa mais inteligente que existe também. E o pop é, com certeza, algo muito, muito, muito sério &#8211; isso muitos estão por entender ainda.</p>
<p><strong>Quais são as bandas injustiçadas da história?</strong></p>
<p>MP &#8211; Herman’s Hermits, Joe Meek, Ultramagnetic MC’s, The Cars, Bohannon, Can, Jimmy Cliff, X-Ray Spex, Todd Rundgren, o grande injustiçado Johnny Thunders, Jan &amp; Dean, Modern Lovers (primeira banda de punk rock), Nick Lowe, Eazy-E, Go-Go’s, Marianne Faithfull, Cheap Trick, Blondie, The Jesus and Mary Chain, A Tribe Called Quest, Soft Boys, Suicide, Slits, Slick Rick, o grande esquecido Schooly D, o lendário quem Sonny Sharrock, Pussy Galore, Gram Parsons, The Only Ones, Meat Beat Manifesto, MC Lyte, Magnetic Fields, Last Poets, Richard Hell &amp; The Voidoids, Galaxie 500, Marshall Jefferson, Frankie Knuckles, Bomb the Bass, Coldcut, Fugs, Eric B &amp; Rakim, The Hollies, King Crimson, Billy J. Kramer &amp; The Dakotas, Cilla Black&#8230;</p>
<p>CM &#8211; Os Carpenters. Nixon disse que eles eram um exemplo para a juventude americana. Vindo de quem veio, o elogio foi pura sacanagem.</p>
<p>PAS &#8211; Nossa, são milhares!!!! Troggs, Jackson Five e Michael Jackson (porque todo mundo pensa que não são sérios), Wilson Simonal, Cassiano, Hyldon, Wanderléa, sei lá&#8230;</p>
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		<title>Entrevista: Sasha Frere-Jones, da banda UI</title>
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		<pubDate>Thu, 23 Oct 2008 18:34:10 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Renato Grinbaum</dc:creator>
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<p>Os anos 90 são bem peculiares: mesmo com uma visão pessimista de esgotamento do pop, novos caminhos vão sendo sólida e espontaneamente traçados. A experimentação  ocorre em particular  na reciclagem  de gêneros e principalmente na busca de espaços, texturas e timbres diferentes.  Não há  tanta mudança na linguagem nem na estrutura, ao contrário, ela está muito mais na sonoridade. Muito resumidamente, estas características formam o que vem sendo chamado de pós-rock, termo ainda vago e mal definido.</p>
<p><span id="more-395"></span>Entre as bandas de pós-rock, uma das mais ouvidas e citadas é  a americana Ui. A banda experimenta texturas diferentes, a começar com sua marcante característica: dois baixos e bateria. Com esta formação, o que mais se espera é  uma forte base rítmica. Esta base surge da mescla do funk com sua batida forte e, principalmente com o baixo bem visível, claramente derivado do dub. A banda ainda mescla elementos eletrônicos e, principalmente, jazz. O resultado é  um som diferente do usual, novo, sem perder o punch e  o ritmo, sendo bastante acessível, apesar de pouco usual.</p>
<p style="center"><img class="aligncenter" src="http://www.mediabistro.com/fishbowlny/original/15_sasha_lgl.jpg" alt="" width="192" height="192" /></p>
<p>Esta possibilidade de se fazer um som mais experimental e ao mesmo tempo continuar sendo divertido e mais acessível não é  unanimemente aprovada. Em primeiro lugar, existem aqueles acostumados a um som divertido, sem grandes mudanças, mais previsível, com fórmula e sonoridade sem grandes vôos. Estes certamente sentirão algum estranhamento com as liberdades aceitas pelo pós-rock, até por não fazerem muitas concessões em seu gosto. Por outro lado, existem aqueles que se colocam no extremo oposto, exigindo sempre da música uma evolução mais radical de forma e sonoridade, música totalmente livre das amarras do ritmo e estrutura do pop tradicional e, diversas vezes, de assimilação muito mais difícil, requerendo algum conhecimento musical prévio, ou ouvido bem aguçado. Estes enxergam no pós-rock, e em Ui uma inconsistência e superficialidade, uma vez que a ruptura não é  completa: apesar das experimentações, persistem o ritmo marcado, a fácil assimilação. Negam a profundidade e o valor de um gênero  pelo simples fato der não ser tão inovador e permanecer de alguma forma acessível.</p>
<p>Entrevistamos Sasha Frere-Jones (nenhum parentesco com a Xuxa), da banda Ui, que de uma forma bem clara respondeu a todos estes questionamentos.</p>
<p>SFJ &#8211; <em>Para começar, o nome da banda é Ui, e não UI, e se pronuncia como no ing;ês Louie&#8230; sem o L. É um nome próprio, não um acrônimo.</em></p>
<p>RG &#8211; Vamos começar com uma pergunta meio difícil. Nos anos 90 uma das modas é o pos-rock, ou avant-rock. Este gênero realmente existe? Você conseguiria me dizer o que é uma banda de pós-rock?</p>
<p>SFJ &#8211; <em>Lamentavelmente não sei.</em></p>
<p>RG &#8211; Ui é uma das bandas mais comentadas nesta área, do circuito &#8220;alternativo&#8221; ou, me desculpe o horrivel termo, &#8220;inteligente&#8221;.  A crítica coloca a banda como uma das expoentes do pós-rock. Você concorda com isto? O que é o Ui?</p>
<p>SFJ &#8211; <em>É muito lisonjeador que alguém tenha uma opinião como esta a respeito de nós, mas eu não entendo nem dou valor ao pós-rock como uma categoria. Quanto ao que é o Ui, não tem nada a ver com o que falei anteriormente. Ui é  uma banda de rock.</em></p>
<p>RG &#8211; Ainda um pouco neste tema, um zine inglês (&#8220;Obsessive Eye&#8221;) publicou um texto grande sobre esta pretensa cena do pós-rock, escrito por Jade Gordon. Neste texto, Gordon afirma que o pós-rock, em especial Ui e Tortoise são bandas &#8220;fascistas&#8221; e retrógradas por que usam ritmos dançantes, se distanciando de uma prioposta mais experimental e livre como o free-jazz. Afirma que o pop de valor deve ser difícil e hermético, como Fushitsusha e outras bandas japonesas. O que você pode comentar a respeito deste texto?</p>
<p>SFJ &#8211; <em>A corrente onda de bandas  &#8220;pós-rock&#8221; (math-rock&#8221;) soa quadrada e reacionária quando comparada aos genuinamente radicais noise-makers do selo japonês seminal PSF ou ao Corpus Hermeticum de Bruce Russel. Ambos deixam Tortoise e Ui cobertos por uma aura cheia de poeira. Coincidentemente, tanto Fushitsusha e The Dead C e muitos dos seus contamporâneos compõem baseados em fontes não-brancas e não-rock, mas ao invés de se renderem à batida fascista eles procuram se voltar para os estranhos experimentos do free-jazz para redefinir as fronteiras do rock. Assim faz bastante sentido &#8211; rock foi sempre algo a respeito da liberação da música das batidas repetitivas e da estrutura tradicional do &#8220;pop&#8221;,  e o free-jazz é muito mais próximo desta visão do que as fusões do pós-rock. <img class="alignright" src="http://www.southern.com/southern/band/UI000/pics/UI3051L.jpg" alt="" width="223" height="135" /></em></p>
<p><em>Deixe-me falar algo a respeito das motivações do &#8220;artigo&#8221; de Gordon.  A pessoa que publica o Obsessive Eye, David Howell (para meu deleite funcionário da SRD, um distribuidora do selo Southern na Inglaterra) requisitou uma faixa do Ui para uma coletânea do zine. Isto foi depois do artigo de Gordon e de um texto dele mesmo sobre Labradford, detonando Ui. Isto quer dizer que Howell não põe muita força nas suas convicções. Ele não nos suporta, mas quer vender revistas nos usando no seu CD. Ou ocasionalmente ele gosta da banda, mas acha muito mais legal expressar uma opinião diferente. Ele e Gordon preguiçosamente alinham Ui e Tortoise como se fossem a mesma banda, operando como se fossem franquias diferentes da mesma coisa.  As duas bandas são bem distintas.</em></p>
<p><em></em></p>
<p><em>Para ele (ou ela?), Gordon, escrever deve seguir a tradição da crítica (usualmente branca) que iguala obscuridade, barulho e confusão com crítica radical e expressão. Este debate, da divisão entre arte superior e inferior é  agora rejeitado pela maioria das pessoas inteligentes, mas, não se esqueça, você nunca pode deixar em segundo plano um jornalista inglês de rock. Igualar forma (barulhento ou suave) com experiência (êxtase ou monotonia) parece uma fórmula fraca e desgastada. Isto deu margem ao surgimento de algo chamado a teoria do receptor: Tanto faz qual seja o disco ouvido, seja o &#8220;Jump&#8221;, do Van Halen, &#8220;Extra ball&#8221; de Loketo ou &#8220;Bad Politics&#8221; do Dead C, a liberdade criadora e a liberação da mente ocorre ao nível do ouvinte, não na gravação. Eu posso ter o mesmo &#8220;sentimento&#8221;ou experiência estética com Chic ou com Albert Ayler. As emoções, experiências psíquicas e o make-up químico de cada pessoa vai interagir de modo diferente com cada gravacão. Some-se a isto o condicionamento social necessário para que alguém possa &#8220;ouvir&#8221; Dead C sem achar que a banda é um barulho desorganizado ou ouvir Beatles considerando como somente melódico. Só assim você poderá começar a sua ascenção até o pico onde você hasteará a bandeira das suas medidas.  Eu consideraria um esforço infrutífero a missão de ouvir discos e ordená-los em alguma escala de importância social ou radicalidade. Eu não faço isto, e nunca achei que isto seria positivo. </em></p>
<p><em></em></p>
<p><em>Se você quisesse realmente analisar a importância social &#8211; estou assumindo que o termo &#8220;radical&#8221; tem muito a ver com isto &#8211; então o número de pessoas que ouvem um disco é mais importante do que o quão chocante ele é. Esta afirmação poderia chocar Gordon, que na verdade está a fim de balançar o caminho da Maxwell House com um pouco de Clifford Geertz. Mas Spice Girls são mais potencialmente radicais do que Dead C porque mais pessoas as conhecem. Nem melhores, nem mais gostosas de ouvir, nem mais interessantes, mas socialmente mais radicais porque porque seus textos estão  em milhões de mãos e existe algum sentimento de consenso ao redor deles. Agora, se radical quer dizer musicalmente mais satisfatório esteticamente, então isto é  simplesmente á prática  baixa de se buscar credibilidade através do ato de se gostar de algo que tenha sido feito para ser  inacessível para o maior número de pessoas o possível. O ataque de Gordon parece ter este espírito, o novo &#8220;cool&#8221;, que desmerecendo muitas bandas, desde &#8220;Don&#8217;t Look Back&#8221; de Bob Dylan até o pós-rock, acaba no ato de se falar de bandas que as pessoas não conhecem  e faz com que se sintam idiotas por causa disto. Para este espírito, minha única resposta é: &#8220;Lambam meu pé&#8221;.</em></p>
<p><em></em></p>
<p><em>Um outro problema na &#8220;crítica&#8221; de Gordon é  a idéia de que uma escolha do consumidor é mais radical que outra. Todos os discos aqui citados são discos, e por isto são produtos também. Da Warner até a PSF a circulação destes todos estes ítens é regulada pelo mercado livre, um conceito precariamente não-radical. E discos não são música, são de certa forma representações da música. Isto não faz deles algo chato ou desinteressante: eu os tenho, gosto, e mesmo faço eles. Mas para 99% das pessoas que compram Spice Girls ou Dead C, incluindo a mim mesmo, discos são diversão, catalisadores para as experiências dos ouvintes descritas anteriormente, que são solitárias (mesmo se experimentadas numa multidão) e associal por uma definição operacional. Discos underground de noise são talvez formalmente diferentes de &#8220;Titanic&#8221; mas nada mais radicais, não interessa o quão mal gravados ou quanto de retorno ou de delírios de um eremita eles possuam.  Esta natureza conservadora na essência dos discos significa que, por bem ou por mal, embora Spice Girls sejam socialmente mais potentes que Dead C, este potencial nunca será totalmente realizado. Mesmo se uma pequena garotinha resolver se levantar e responder um machão sexista baseada no seu fanatismo pelas Spice Girls, este vai ser somente um ato isolado, improvável de se provocar uma mudança social, por mais que esta seja desejável. E se um rapaz gorduroso resolve se afundar na sua cama mais alguns centímetros porque Dead C &#8220;arrebatou a sua mente&#8221;, este ato não tem nada de radical ou novo. Ou tem?  Mais uma vez  Gordon levantou esta poeira radical. Eu acho que é  um jeito burro de se falar sobre o rock e eu não falaria sobre o valor social  de NENHUM  disco meu em particular. Nem mesmo Public Enemy, The Clash ou Gang of Four, não importa quanto prazer me dão ou o quanto fomentaram qualquer ação na &#8220;vida real&#8221;. Se você quer uma lista de ações radicais, eu deveria incluir serviços de saúde universais e gratuitos, uma estrutura justa de impostos, salários iguais independente de raça ou sexo, amar abertamente, tratar seus semelhantes de forma decente e honesta e trabalhar por outros motivos que não o auto-benefício (Esta é uma imagem muito sincera e &#8220;mainstream&#8221; para Gordon. Peça para Gordon observar uns poucos parentes morrendo, e depois peça para voltar e contar o quanto que Dead C soa radical). Por mais que eu ame, abrace e me devote à música, eu não acredito que a música vá fazer grandes transformações sociais e eu não acho que ela seja uma força para nada a não ser para o prazer individuale para o ato de arrebentar minha mente.</em></p>
<p><em></em></p>
<p><em><img class="alignleft" src="http://www.southern.com/southern/band/UI000/pics/18535L.jpg" alt="" width="150" height="125" />Por acaso eu gosto de Fushitsusha, Dead C, Musica Transonic, Stockhausen e todo tipo de música afim, porque eu embarco  nelas da mesma forma que eu embarco em Sabbath, Biggie e Elliott Smith. </em><br />
<em>Nunca me ocorreu de confrontar meus discos da KK Null records com os do Kid Creole and the Coconuts, mas agora, curado pelos ensinamentos de Gordon, vou tentar e ver que coisa que vai acontecer.</em></p>
<p><em></em></p>
<p><em>Musicalmente eu não tenho o que responder para Gordon, agora se ele/ela não gosta de Ui eu estou pouco me fudendo.</em></p>
<p><em></em></p>
<p><em>Gordon poderia perguntar para Don Moye (não procure saber se você não sabe quem é) se as faixas mais funk da Art Ensemble parecem mais desprezíveis que as viagens mais abstratas. Só porque você é  inglês e não pode dançar você não pode desprezar toda a história da música negra. Qualquer pessoa que começa a frase &#8220;Rock foi sempre algo que falou a respeito&#8230;&#8221; na língua do meu país é  um idiota.</em></p>
<p>Entrevista concedida em 1997 a Renato Grinbaum<br />
<em></em></p>
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