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	<title>O Errático &#187; Resenha</title>
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		<title>Os Outliers I &#8211; Jeremy Enigk/Return Of The Frog Queen (SubPop)</title>
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		<pubDate>Sat, 06 Feb 2010 03:27:41 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Amaral</dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenha]]></category>
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		<description><![CDATA[Essa é uma seção dedicada a álbuns cujo impacto foram zero: não geraram filhos bastardos, nem tampouco seguidores. Mas são incríveis do ponto de vista dos críticos Erráticos. São daqueles trabalhos que você se pergunta: de onde afinal veio isso? O que acontece quando o líder de uma banda que explodiu no cenário independente &#8211; [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><em>Essa é uma seção dedicada a álbuns cujo impacto foram zero: não geraram filhos bastardos, nem tampouco seguidores. Mas são incríveis do ponto de vista dos críticos Erráticos. São daqueles trabalhos que você se pergunta: de onde afinal veio isso?</em></p>
<p><a href="http://www.allmusic.com/cg/amg.dll?p=amg&amp;sql=10:azfuxquhldfe"  rel="nofollow"><img class="alignleft" style="margin: 3px;" title="Jeremy Enigk-Return of The Frog Queen" src="http://image.allmusic.com/00/amg/cov200/drc700/c718/c71828bs6yg.jpg" alt="" width="200" height="195" /></a>O que acontece quando o líder de uma banda que explodiu no cenário independente &#8211; banda essa que se tornou a base de um estilo musical que gerou algumas das piores bandas da história [e que nada tem a ver com o sentido original do termo ou mesmo do que a banda tocava] &#8211;  decide gravar um &#8220;álbum solo&#8221;? Em 99% dos casos ou sai uma versão light do que a banda original fazia, ou então vem um álbum acústico mas que lembra muito a banda original.</p>
<p>Era o que todo mundo esperava quando Jeremy Enigk, vocalista e líder de fato do Sunny Day Real Estate, anunciou seu primeiro álbum solo, &lt;a href=&#8221;http://www.amazon.com/gp/product/B0000035HJ?ie=UTF8&amp;tag=oerr-20&amp;linkCode=as2&amp;camp=1789&amp;creative=390957&amp;creativeASIN=B0000035HJ&#8221;&gt;Return of the Frog Queen&lt;/a&gt;&lt;img src=&#8221;http://www.assoc-amazon.com/e/ir?t=oerr-20&amp;l=as2&amp;o=1&amp;a=B0000035HJ&#8221; width=&#8221;1&#8243; height=&#8221;1&#8243; border=&#8221;0&#8243; alt=&#8221;" style=&#8221;border:none !important; margin:0px !important;&#8221; /&gt; pela SubPop em 1996. Até então, o Sunny Day Real Estate estava cotado como a grande promessa pós-Nirvana por parte da crítica, com seu rock que misturava os tempos musicais quebrados e matemáticos do Fugazi com a emotividade dos vocais de um Radiohead, sendo a primeira banda marcada com a maldição do &#8220;emocore&#8221; (emotional hardcore). Mas basta ouvir <strong>Circles</strong> para ver que não há qualquer semelhança com o que virou emocore na década seguinte.</p>
<p><object style="width: 320px; height: 265px;" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="320" height="265" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="quality" value="autohigh" /><param name="salign" value="l" /><param name="wmode" value="window" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/vDSsh7Ocv8o&amp;hl=en_US&amp;fs=1&amp;color1=0x2b405b&amp;color2=0x6b8ab6" /><param name="align" value="left" /><param name="vspace" value="2" /><param name="hspace" value="2" /><embed style="width: 320px; height: 265px;" type="application/x-shockwave-flash" width="320" height="265" src="http://www.youtube.com/v/vDSsh7Ocv8o&amp;hl=en_US&amp;fs=1&amp;color1=0x2b405b&amp;color2=0x6b8ab6" hspace="2" vspace="2" align="left" wmode="window" salign="l" quality="autohigh"></embed></object></p>
<p>Acontece que o álbum solo de Jeremy Enigk nada tem a ver com Sunny Day Real Estate. Aliás, nada tem a ver com que viria a fazer nos anos seguintes. Ou com qualquer coisa que se fazia na época. Seus álbuns solos seguintes, inclusive, soam exatamente como álbuns acústicos do Fire Theft (sua banda pós-SDRE).</p>
<p>Aparentemente, entre o primeiro e segundo álbum do SDRE, Jeremy Enigk passou por uma crise espiritual e quase não grava este último. Quando o LP2 foi lançado, inclusive, a banda já havia dissolvido e dois de seus membros (Nate Mandel e William Goldsmith) foram para o Foo Fighters, enquanto Jeremy anunciava que se retiraria da música.</p>
<p>Esse período não durou muito: em 1996, um enxuto álbum de apenas 10 faixas, intitulado Return of The Frog Queen, aparece para desconcertar todo mundo. Os fãs do SDRE não entenderam nada, os críticos do SDRE se surpreenderam e o álbum inclusive parou em algumas das listas de melhores daquele ano. Mas na verdade, poucos ainda falam nele, já que além da sombra do SDRE ser muito maior, o álbum é um ET musical: não se parece com nada que veio nem antes, nem depois.</p>
<p>Trata-se de um álbum pop-folk orquestral, com a paixão de um verdadeiro punk rock, a intensidade dos lamentos de um Kurt Cobain e arranjos que enfiam tubas, clarinetes, violinos e tudo o que há direito. Esse equilíbrio de ser um álbum acústico longe do voz-violão estava há anos-luz do que se fazia na época. Lembrem-se: era o ápice dos Acústicos MTV e Enigk fez tudo ao contrário.</p>
<p>O álbum começa com os delicados toques de violão de <strong>Abigail Anne</strong>, que de repente se abrem para um carrossel de instrumentos que transforma tudo numa opressiva imagem onírica. Quando você se dá conta, o caminhão sonoro já passou por cima de você. Sem tempo de se recuperar, cai-se na faixa título, que poderia acompanhar um filme de Tim Burton, com sua tensão crescente e a sensação de que a qualquer momento sairá uma Rainha de Copas para te liquidar num canto. Enigk, com seus vocais extensos e graves, é o perfeito contraponto aos ricos arranjos da orquestra.</p>
<p>Não se trata de um álbum feliz: claramente, é um álbum de alguém que perdeu algo (pelos temas, provavelmente a fé) e busca se reencontrar, mas em lugar da felicidade pura, acaba num parque de diversões em Gotham City. Não à toa, <strong>Carnival</strong> é um dos destaques, com seu arranjo <em>a là carrousel</em> e vocais distorcidos, que aparentemente aludem à essa descoberta de fé, mas nada tão simples quanto uma música crente. Sim, Enigk usa religião como inspiração para esse álbum, mas é tudo tão sutil e tão equilibrado, que podemos interpretar de múltiplas formas. O que dizer de &#8220;the lines made me perfect and came then/the light gave me dark/threw myself in your door/why you stage at me/windows high&#8221;? Pode representar o encontro com a Palavra ou com uma mulher. Ou nada disso.</p>
<p>Os pequenos momentos reflexivos também existem em abundância. Em <strong>Shade and The Black Hat</strong>, por exemplo, um violão é delicadamente acompanhado por piano e um quarteto de cordas, sem em nenhum momento parecer algo arrastado e pseudo-romântico. Não há espaço para esses joguinhos, para a balada fácil. O tempo todo os arranjos surpreendem, seja na criação do clima soturno, seja na busca do momento delicado. <strong>Call Me Steam</strong> é um dos mais belos usos de orquestra de câmara que já ouvi numa canção pop. É uma verdadeira jóia perdida de 2:49.</p>
<p>A composição de Enigk também deve ser aplaudida: não há nada fácil ou óbvio nas 10 faixas. As letras são verdadeiras preciosidades, não há o refrão/verso, nem o gancho, nem o riff. E ainda assim, você ouve e não tem como esquecer. Vejamos a letra de <strong>Abigail Anne</strong>: &#8220;open eyes to see it all/I&#8217;ve known you at six feet tall/no time to see where you&#8217;ll drift abigail/wait for me&#8221;. E aqui vai o vídeo, mas cujo final foi editado (no CD, há um belíssimo arranjo com a orquestra completa, ao estilo <em>A Day in The Life):</em></p>
<p><object style="width: 320px; height: 265px;" classid="clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000" width="320" height="265" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"><param name="quality" value="autohigh" /><param name="salign" value="r" /><param name="src" value="http://www.youtube.com/v/zUru4mn_eDA&amp;hl=en_US&amp;fs=1&amp;color1=0x2b405b&amp;color2=0x6b8ab6" /><param name="align" value="right" /><param name="vspace" value="2" /><param name="hspace" value="2" /><embed style="width: 320px; height: 265px;" type="application/x-shockwave-flash" width="320" height="265" src="http://www.youtube.com/v/zUru4mn_eDA&amp;hl=en_US&amp;fs=1&amp;color1=0x2b405b&amp;color2=0x6b8ab6" hspace="2" vspace="2" align="right" salign="r" quality="autohigh"></embed></object></p>
<p>O álbum termina com <strong>Fallen Heart</strong>, tocada inteira ao contrário, inclusive vocais, mas de forma estudada &#8211; parecendo que está gravada com a melodia certa. Não é o jeito mais óbvio de se terminar o álbum &#8211; inclusive não há nada além de um violão e um baixo acústico e um delicado arranjo em cordas que surge como uma brisa e some sem conclusão. É o final dessa obra prima, e não se há dúvida que é um dos melhores álbuns da década de 1990. Como sintetizou o ótimo crítico Jack Rabid na época, &#8220;uau&#8221;.</p>
<p><strong><em>Recomendado para quem gosta de: Radiohead, The Zombies, The Left Banke, chamber pop</em></strong></p>
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		<title>A Grande Feira &#8211; Uma Reaçao Ao Vale-Tudo Na Arte Contemporanea</title>
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		<pubDate>Wed, 09 Dec 2009 09:01:30 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Renato Grinbaum</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Belo livro de Luciano Trigo, tocando num ponto nevrálgico da arrogância pseudointelectual: a vaidade de parecer novo, de ser intelegente pela dificuldade, ainda que vazia. Pois valor na arte contemporânea, é o choque e a diferença, exclusividade, que aumentam o valor agregado da obra. Não o seu conteúdo. Leitura essencial para leigos que beiram a [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><img class="alignleft" src="http://www.livrariacultura.com.br/imagem/capas1/416/2963416.jpg" alt="" width="84" height="131" />Belo livro de Luciano Trigo, tocando num ponto nevrálgico da arrogância pseudointelectual: a vaidade de parecer novo, de ser intelegente pela dificuldade, ainda que vazia. Pois valor na arte contemporânea, é o choque e a diferença, exclusividade, que aumentam o valor agregado da obra. Não o seu conteúdo. Leitura essencial para leigos que beiram a ignorância, como os autores de <em>O Errático</em>, mas que ainda assim enxergam a arte como o espaço para discutir a realidade além do óbvio. Trazendo para os reles  mortais percepções e discussões de outra forma somente acessíveis aos iniciados. Resta saber se a polícia do da arte de vanguarda vai  aceitar ou excomungar o infiel, queimando-o numa fogueira em praça pública.</p>
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		<title>Chico Mello – Do Lado Da Voz (Thanx God Records/Eldorado) 1999</title>
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		<pubDate>Fri, 21 Aug 2009 18:00:36 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Amaral</dc:creator>
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		<description><![CDATA[(resenha escrita em 2002) Quando menos se espera, surge um álbum que dá um pouco de fé na música brasileira. E, claro, viria de um outsider, como sempre. Chico Mello é curitibano radicado em Berlim, onde trabalha com música contemporânea. Discípulo da escola de desconstrução, já trabalhou com Andrew Dreiblatt (minimalista alemão, ligado ao selo [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<p><a href="http://daniellathompson.com/Texts/Brazzil/Curitiba.htm"  rel="nofollow"><img class="alignleft" style="border: 1px solid black; margin: 3px 4px;" title="Chico Mello - Do Outro Lado da Voz" src="http://daniellathompson.com/Photos/Curitiba/Chico_Mello1.jpg" alt="" width="202" height="202" /></a></p>
<p><em>(resenha escrita em 2002)</em></p>
<p>Quando menos se espera, surge um álbum que dá um pouco de fé na música brasileira. E, claro, viria de um outsider, como sempre. Chico Mello é curitibano radicado em Berlim, onde trabalha com música contemporânea. Discípulo da escola de desconstrução, já trabalhou com Andrew Dreiblatt (minimalista alemão, ligado ao selo Cantaloup, do Bag On A Can) e com as orquestras de Berlim e Colônia. Sendo, portanto, sua formação muito mais ligada ao erudito que ao popular. Mas este álbum, lançado pelo selo de Arrigo Barnabé, é essencialmente pop. Não só pelo repertório, que passa por algumas figurinhas bastante populares (Noel Rosa, Chico Buarque, Herivelto Martins), mas principalmente porque é um trabalho vocal. A voz do título não é a toa: trata-se do instrumento por onde os demais passam.<br />
Mas não pensemos que se trata de mais um albumzinho de MPB ou, seu contrário, um trabalho hermético. Pelo contrário: é instigante, provocativo e, até por sua formação erudita, muito pensado e (des)construído, sem exageros. Ouso fazer uma analogia ao trabalho de desconstrução de Tom Zé em Estudando o Samba. Só que enquanto Tom fracionava o samba, Chico brinca com outros ritmos como a valsa brasileira, o samba de morro, o samba-canção, entre outros. Gravado em Curitiba, Nürenberg e Berlim, passeia por instrumentação acústica, sopro, cordas e samples, inclusive na surpreendente releitura de Pensando Em Ti, onde fragmentos vocais de Nelson Gonçalves são inseridos por entre a re-interpretação minimalista, contrastando volume, intensidade e pausas perturbadoras. Ao dobrar e triplicar vocais e instrumentos em Achado (dele com letra de Carlos Careqa), e alterando seus tempos, acaba dando um efeito quase eletrônico à faixa. Carolina, de Chico Buarque, é executada praticamente à cappela, pois a base é feita com ruídos de arcos arranhando as cordas de um violino. E o efeito é rítmico: ou seja, nada do que se espera deste instrumento. A ótima Valsa Dourada, composição própria, resgata numa releitura contemporânea a valsa brasileira, ritmo praticamente morto. Mentir, de Noel Rosa, é gravada e sonorizada como se saísse de um estúdio dos anos 30, mas alterando o ritmo e a velocidade de execução. Há muita coisa para se descobrir neste álbum, que nos traz novas sensações a cada escuta. De quais trabalhos recentes brasileiros podemos dizer o mesmo? Aguardamos ansiosamente novos trabalhos de Chico Mello, que é certamente um dos melhores compositores surgidos na época recente da música brasileira. Fato até não difícil, já que nada de novo na MPB desde a chamada vanguarda paulistana presta.</p>
<h5>RPQG: David Grubbs, Tom Zé, Gastr Del Sol, Mario da Silva, Waltel Branco, Walter Franco</h5>
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		<title>Elvis Costello – Mighty Like a Rose (Rhino/Warner) 1991/2002</title>
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		<pubDate>Wed, 19 Aug 2009 22:28:15 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Amaral</dc:creator>
				<category><![CDATA[Resenha]]></category>
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		<category><![CDATA[mighty like a rose]]></category>

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		<description><![CDATA[(escrito em 2005) Ano: 1991. Estouro do Nirvana e a última grande aparição na mídia do chamado rock independente. Velhos dinossauros e artistas pré-fabricados somem das paradas por alguns meses. Elvis Costello havia, 2 anos antes, gravado seu maior sucesso até então, o ultra-pop Spike, produzido por Kevin Killen e T. Bone Burnett. Musicalmente, produzido [...]]]></description>
			<content:encoded><![CDATA[<address>(escrito em 2005)<br />
</address>
<p><a href="http://image.allmusic.com/00/amg/cov200/drf500/f574/f57492lazke.jpg"  rel="nofollow"><img class="alignleft" style="border: 1px solid black; margin: 2px 3px;" title="Elvis Costello - Mighty Like a Rose" src="http://image.allmusic.com/00/amg/cov200/drf500/f574/f57492lazke.jpg" alt="" width="180" height="176" /></a>Ano: 1991. Estouro do Nirvana e a última grande aparição na mídia do chamado rock independente. Velhos dinossauros e artistas pré-fabricados somem das paradas por alguns meses. Elvis Costello havia, 2 anos antes, gravado seu maior sucesso até então, o ultra-pop Spike, produzido por Kevin Killen e T. Bone Burnett. Musicalmente, produzido para tocar em rádio, com aquela textura exagerada típica do final dos anos 80. O primeiro sem o The Attractions. Para boa parte de seus fãs mais aguerridos, seu pior álbum até então por estas mesmas razões. Eis que grava Mighty Like a Rose, com o mesmo Kevin Killen, mais Mitchell Froom e ele próprio nos créditos, e ainda sem os Attractions. O álbum foi um fiasco de vendas comparado ao anterior. Boa parte da crítica se entreolhou para entender o que era aquele trabalho. Na dúvida, torceu-se o nariz e seguiu-se em frente.<br />
No meio de tantas bandas novas e excitantes de então, ouvir The Other Side of Summer, a ótima faixa de abertura, em seu jeitão faux-Beach Boys não era exatamente os 3 acordes ‘grunges’ esperados na época. O sarcasmo reinante, com tiradas como “Não foi um milionário que disse ‘Don’t need no possessions’ [não precisamos de posses]?” estava até alinhado com o espírito de então. Várias bandas, não custa lembrar, eram fortemente influenciadas por Costello. Mas trata-se de um álbum duro, tenso, de um homem se auto-destruindo. Quase todas as faixas são híper carregadas de instrumentos, ao ponto da saturação – nada a ver com o espírito guitarra, baixo e bateria de 91. Nenhuma faixa é sutil: tudo parece extremado, exagerado, como um sorriso do Coringa. Hoje, sabe-se que enfrentava graves problemas alcoólicos, o que adiciona uma pitada extra de verossimilitude ao clima de MLAR. Não há otimismo ou concessões à bondade em nenhuma canção – a bílis percorre o trabalho inteiro. Era um álbum de alguém cansado do pop e, de certa forma, representa o momento de inflexão da carreira de Costello, que iria dar tiro para todos os lados durante a década que se seguiu, passando por álbuns com o Kronos Quartet, Burt Bacharach, entre outras experiências fora do rock. Há boas colaborações com Paul McCartney (So Like Candy e Playboy To A Man, que Elvis gravou como se Shane McGowan do Pogues tivesse se incorporado a uma big band roqueira) e participações de Marc Ribot e Jim Keltner. O segundo CD, só de bonus tracks, explicita ainda mais este caráter extremo da época pela qual passava. Há 3 faixas do acústico MTV que mostram Costello fora de órbita, irônico, completamente desencanado do que tocava. A versão da já citada The Other Side of Summer vale o CD extra, ganhando um tom muito mais tenso e grave que o original. Olhando hoje, sem a influência da época, MLAR é um dos grandes álbuns de Costello e o que merece ser mais ser redescoberto nos dias de hoje.</p>
<h4>RPQG: Elvis Costello em Blood And Chocolate, Neil Young, Robert Wyatt, Big Star em Third, REM em Fables of the Reconstruction</h4>
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		<title>Como a brodagem pode estragar um bom argumento</title>
		<link>http://www.oerratico.com/2008/09/como-a-brodagem-pode-estragar-um-bom-argumento/</link>
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		<pubDate>Tue, 23 Sep 2008 02:43:21 +0000</pubDate>
		<dc:creator>Amaral</dc:creator>
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		<description><![CDATA[Lourenço Mutarelli é hoje o maior quadrinista brasileiro. Há várias razões para afirmarmos isso. A principal é que ele sabe construir roteiros, o grande mal do quadrinho brasileiro fora do terreno do cartum e do humor. Seu último projeto, a ambiciosa Trilogia Do Acidente, de quatro partes, baseada no detetive Diomédes, formado pelos livros O [...]]]></description>
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<p><a href="http://pt.wikipedia.org/wiki/Louren%C3%A7o_Mutarelli"  target="_blank" rel="nofollow">Lourenço Mutarelli</a> é hoje o maior quadrinista brasileiro. Há várias razões para afirmarmos isso. A principal é que ele sabe construir roteiros, o grande mal do quadrinho brasileiro fora do terreno do cartum e do humor. Seu último projeto, a ambiciosa Trilogia Do Acidente, de quatro partes, baseada no detetive Diomédes, formado pelos livros <strong>O Dobro de Cinco, O Rei do Ponto</strong> e <strong>A Soma de Tudo</strong> (parte um e dois) poderia ser um marco no quadrinho brasileiro.</p>
<p>Se ele chegará um dia a ser, é questão de tempo. Mas Mutarelli se perdeu no final da história. Vamos por partes. O paulistano Lourenço iniciou seus trabalhos com o hermético e assombroso <strong>Transubstanciação</strong>, lançado em 1991; um trabalho intrincado de arte, provocador ao ponto escatológico, muito distante do que acontecia no mercado brasileiro. Desde esta época, Mutarelli se aproxima da bande desinée européia, de autores que lançam projetos que, naquelas pairagens, são celebrados e respeitados como livros. Nada mais natural, na verdade. A prova de que os quadrinhos deveriam ser tratados como arte e literatura vem da própria incapacidade do cinema em realizar qualquer filme decente sobre quadrinhos. O primeiro Batman passou perto, somente pelo apelo visual, já que o roteiro foi um desastre; piegas, com um Batman frouxo e concessões demais ao cliché. Aliás, desafio a qualquer leitor em provar um filme que seja melhor que o quadrinho em que foi baseado.<span id="more-3"></span>Enquanto isso, nossos quadrinistas passaram, em especial o grupo ligado à Fábrica de Quadrinhos, a exportar trabalhos artísticos ao mercado americano. A verdade é que há uma grande quantidade de bons artistas/desenhistas no Brasil, vide os ótimos trabalhos de Marcelo Campos, Kipper, os irmãos Cariello, Luciano Queiroz entre outros. Mas não há bons roteiristas, ou como se diz em inglês, bons storytellers, contadores de histórias. Este era um diferencial de Mutarelli &#8211; saber contar uma história e, principalmente, criar bons personagens, algo dificílimo na HQ adulta brasileira. Esta sofre o mesmo problema da jovem literatura brasileira: excesso de auto-depreciação e indiferenciação, história que não se move, nenhuma crise moral a ser testada ou confrontada.</p>
<p>Em Diomédes, Mutarelli cria um personagem atípico: um detetive durango sem moral, porém que aparentemente vive em luta constante para ser alguém. Sua não-moral por vezes parece uma fachada que simboliza sua expectativa zero em relação ao mundo. Sim, é um clown melancólico, não em verdade simpático ou mesmo empático, mas Lourenço consegue movê-lo a ponto de nós, leitores, querermos ao menos saber o que acontecerá com Diomédes. Já é um grande ponto. Afinal, o que de pior pode ainda acontecer com alguém que perde a bruaca da esposa para outro, que vive da pindura e que, aparentemente, cai num grande esquema que, por algum motivo, busca encrencá-lo. Há muito de filme noir e pulp por trás da história, mas é só parte do que ocorre.</p>
<p>Mutarelli perde o controle do personagem: só isso explica que o final tenha sido extendido por um livro a mais e o final, que já estava desenhado no primeiro livro, mude completamente até A Soma de Tudo. Isso é na verdade um bom sinal: era prova de que o personagem rendia muito mais do que o autor imaginava. E tudo isso foi graças ao excelente O Rei Do Ponto, segunda parte da trilogia e, por conseqüência, o ápice do trabalho na primeira parte d&#8217;A Soma de Tudo. Segundo o próprio autor, Diomédes ia incorporando cada vez mais elementos da personalidade de seu próprio pai. Isso fica visível na mudança gradual da personagem, que pouco a pouco vai se libertando do espírito loser e passando a literalmente esquiar por entre as fissuras do roteiro armado contra ele. Torna-se uma versão deformada do Besouro Azul de Keith Giffen, uma personagem melancólico, consciente de suas limitações como herói, mas que tenta primeiro sobreviver e depois, resolver os seus problemas, nesta ordem. Esta mudança não é súbita: é gradual e são provações que atuam como agentes dela. Diomédes sente vergonha de evoluir intelectualmente, nada mais sintomático dos atuais tempos.</p>
<p>Outra grande contribuição é causada pela evolução tanto da arte como da ambientação. Lourenço move a história para Portugal, impressionado com uma viagem que fez para o próprio lançamento de O Dobro de Cinco. E acaba dedicando cada vez mais espaço para o detalhamento do ambiente, para as nuances do cenário. Não é gratuita esta atenção; Portugal passa a ser outra personagem da história, talvez a maior após Diomédes, a despeito do bem desenvolvido companheiro Waldir.</p>
<p>E quando tudo parecia bem&#8230; O livro final escorrega. A influência aqui é, sem sombra de dúvida, o trabalho de Grant Morrison em Homem-Animal, onde a realidade do autor se mistura com a ficção do personagem, como Mutarelli bem conhece. Do lado bom, a história não liquida Diomédes, transformando-o em um herói renascido ou alterando sua essência. Pelo contrário, o final reafirma todas suas características. Mas Mutarelli cai em dois defeitos. O primeiro é o excesso de citações e personagens amigos. Praticamente todos seus amigos aparecem no último número como personagens secundários e vira um pouco rasgação de seda e, para quem não conhece estas pessoas &#8211; entre elas, os editores/donos da editora Devir &#8211; perde-se grande parte do referencial. Parece que Mutarelli resolveu agradecer a todos que lhe ajudaram nesta vida e aproveitou o momento para colocar todo mundo na revista, o que diminui um pouco o impacto. Uma coisa é brincar com a realidade, utilizando elementos e personagens reais para reforçar uma história. Não foi o caso: em certos momentos, parecia tudo meio gratuito, poluindo o fluxo do conto. O segundo e mais importante problema foi que Mutarelli aparentemente não conseguiu resolver graficamente a história. Há texto demais no último livro, o que contrasta brutalmente com os livros anteriores, onde sua arte insinuava mais, deixava mais espaço para a imaginação. Tenta explicar demais, dá voltas, tenta resolver coisas demais pela escrita. O que desbalanceia muito a HQ, e na verdade, à toa, já que a solução da história é completamente aberta e não resolvida. Em certas páginas, há tanto texto que mal se vê os personagens.</p>
<p>Apesar disto tudo, não se compromete o trabalho por completo, como posso estar dando a impressão. É a melhor HQ que já tenha lido no Brasil, um primor de trabalho artístico, um caminho completamente novo para a arte mais &#8220;maldita&#8221; no país que, curiosamente, gera alguns ídolos nos EUA, como Deodato e Rogério Cruz. Mutarelli é bom argumentista, talvez o único bom em atividade no Brasil neste gênero de HQ adulta. Nossa tradição de tiras e HQs infantis já é bem estabelecida, mas não temos tradição ou volume qualitativo nas demais formas. <strong>O Cheiro Do Ralo</strong> (Devir), seu primeiro livro, mostra que sabe ser um contador de histórias, sempre com foco no personagem, sem cair na máxima atual de carregar no estilo e no domínio extremo da linguagem, sem nada a dizer.</p>
<p>Esperamos que este trabalho de Lourenço Mutarelli renove o gênero no país e que novos trabalhos deste nível se desenvolvam.</p>
<p><em>Ricardo Amaral</em></p>
<p><em>(texto originalmente escrito em 2004)</em></p>
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