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Pequenos Homens Enfezados
Há uma cena do filme “Além da linha vermelha”, que retrata a batalha de Guadalcanal, na qual o sargento interpretado por Sean Penn vai até o meio do fogo cruzado a fim de levar doses de morfina para um soldado que agoniza de dor após ter levado um tiro no abdômen. Depois de entregar a morfina para o soldado moribundo, o sargento se despede, volta para a posição na qual o resto do pelotão está e reencontra seu capitão, que lhe revela a intenção de indicar o nome do sargento para condecoração. A reação inesperada do sargento é responder violentamente que não desejava nenhuma condecoração por ter feito aquilo e ameaçar agredir o atônito capitão caso o mesmo insistisse com a idéia.
Em alguns casos, para algumas pessoas, o prêmio é um insulto, porque passa a impressão de que se fez o que se fez em nome do prêmio e não em nome da realização da própria ação.
Um prêmio como uma condecoração é um distintivo público valioso. Você pode ostenta-lo porque ele vira um ornamento. Na vida civil, na cidade, sua roupa, seus títulos, o lugar em que trabalha, a casa em que mora ou seu carro podem ser distintivos e as pessoas exigem reconhecimento para essas conquistas. Muitas fazem do reconhecimento de suas conquistas a própria razão da existência em sociedade e pautam totalmente seu comportamento por essa necessidade de serem assistidos como “aqueles que mereceram ter o que têm”.
Eu duvido que toda a pressa e o desconforto do trânsito e da fila no banco sejam causados pela vontade de chegar mais rápido nos destinos. Eu duvido que toda a falta de educação seja causada pela pressa. Eu duvido que toda a sua agressividade, em palavras ou atos, seja apenas a reação básica de defesa a uma condição de vida opressiva.
Eu acredito que você está muito chateado porque quase ninguém lhe diz que você é bonito, inteligente, atencioso, especial, competente.
Você não salvou da dor ninguém com os intestinos pra fora do corpo em pleno fogo cruzado de uma batalha na Segunda Grande Guerra mas você pertence a uma família de gente boa, certo? Você se matou de estudar, se matou de trabalhar para ser quem você é. Você leu tanto, você se dedicou tanto e foi até o fim para ter essa carreira, essa esposa, esse senso de humor sofisticado, para ter os nomes todos das pontes, dos afluentes do São Francisco, dos remédios, das doenças e dos ministros na ponta da língua, mas só os seus amigos reconhecem isso, e ainda assim apenas de vez em quando. Bem, o que se pode fazer então, quando poucos reconhecem o seu valor?
Uma solução para muitos, me parece, é a auto-celebração constante, a permissividade, a auto-indulgência. Você é um folgado, um escroto, no trânsito, na rua, com seus subordinados, com sua mulher, com seus amigos, esquece os protocolos básicos e não faz nenhum esforço para ser tolerante ou agradável porque, afinal de contas, esse é o luxo mínimo frente ao desprezo alheio.
Você é um pequeno homem enfezado e desconta essa ira de meia pataca atrás do volante ou repetindo bordões sobre “meus direitos” e a “incompetência” alheia enquanto caga em tudo e todos ao seu redor. Bem, meu amigo, reconhecemos sua dor. Seus problemas realmente terminaram e, com eles, parte dos problemas da cidade. Deposite 190 dólares na conta d’O Errático e enviaremos para você um exclusiva MEDALHA em formato de supositório, uma celebração ao tão maltratado esfíncter da classe-média.
Foi um prazer. Não mais.