O Errático

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Os Outliers I – Jeremy Enigk/Return Of The Frog Queen (SubPop)

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Essa é uma seção dedicada a álbuns cujo impacto foram zero: não geraram filhos bastardos, nem tampouco seguidores. Mas são incríveis do ponto de vista dos críticos Erráticos. São daqueles trabalhos que você se pergunta: de onde afinal veio isso?

O que acontece quando o líder de uma banda que explodiu no cenário independente – banda essa que se tornou a base de um estilo musical que gerou algumas das piores bandas da história [e que nada tem a ver com o sentido original do termo ou mesmo do que a banda tocava] –  decide gravar um “álbum solo”? Em 99% dos casos ou sai uma versão light do que a banda original fazia, ou então vem um álbum acústico mas que lembra muito a banda original.

Era o que todo mundo esperava quando Jeremy Enigk, vocalista e líder de fato do Sunny Day Real Estate, anunciou seu primeiro álbum solo, <a href=”http://www.amazon.com/gp/product/B0000035HJ?ie=UTF8&tag=oerr-20&linkCode=as2&camp=1789&creative=390957&creativeASIN=B0000035HJ”>Return of the Frog Queen</a><img src=”http://www.assoc-amazon.com/e/ir?t=oerr-20&l=as2&o=1&a=B0000035HJ” width=”1″ height=”1″ border=”0″ alt=”" style=”border:none !important; margin:0px !important;” /> pela SubPop em 1996. Até então, o Sunny Day Real Estate estava cotado como a grande promessa pós-Nirvana por parte da crítica, com seu rock que misturava os tempos musicais quebrados e matemáticos do Fugazi com a emotividade dos vocais de um Radiohead, sendo a primeira banda marcada com a maldição do “emocore” (emotional hardcore). Mas basta ouvir Circles para ver que não há qualquer semelhança com o que virou emocore na década seguinte.

Acontece que o álbum solo de Jeremy Enigk nada tem a ver com Sunny Day Real Estate. Aliás, nada tem a ver com que viria a fazer nos anos seguintes. Ou com qualquer coisa que se fazia na época. Seus álbuns solos seguintes, inclusive, soam exatamente como álbuns acústicos do Fire Theft (sua banda pós-SDRE).

Aparentemente, entre o primeiro e segundo álbum do SDRE, Jeremy Enigk passou por uma crise espiritual e quase não grava este último. Quando o LP2 foi lançado, inclusive, a banda já havia dissolvido e dois de seus membros (Nate Mandel e William Goldsmith) foram para o Foo Fighters, enquanto Jeremy anunciava que se retiraria da música.

Esse período não durou muito: em 1996, um enxuto álbum de apenas 10 faixas, intitulado Return of The Frog Queen, aparece para desconcertar todo mundo. Os fãs do SDRE não entenderam nada, os críticos do SDRE se surpreenderam e o álbum inclusive parou em algumas das listas de melhores daquele ano. Mas na verdade, poucos ainda falam nele, já que além da sombra do SDRE ser muito maior, o álbum é um ET musical: não se parece com nada que veio nem antes, nem depois.

Trata-se de um álbum pop-folk orquestral, com a paixão de um verdadeiro punk rock, a intensidade dos lamentos de um Kurt Cobain e arranjos que enfiam tubas, clarinetes, violinos e tudo o que há direito. Esse equilíbrio de ser um álbum acústico longe do voz-violão estava há anos-luz do que se fazia na época. Lembrem-se: era o ápice dos Acústicos MTV e Enigk fez tudo ao contrário.

O álbum começa com os delicados toques de violão de Abigail Anne, que de repente se abrem para um carrossel de instrumentos que transforma tudo numa opressiva imagem onírica. Quando você se dá conta, o caminhão sonoro já passou por cima de você. Sem tempo de se recuperar, cai-se na faixa título, que poderia acompanhar um filme de Tim Burton, com sua tensão crescente e a sensação de que a qualquer momento sairá uma Rainha de Copas para te liquidar num canto. Enigk, com seus vocais extensos e graves, é o perfeito contraponto aos ricos arranjos da orquestra.

Não se trata de um álbum feliz: claramente, é um álbum de alguém que perdeu algo (pelos temas, provavelmente a fé) e busca se reencontrar, mas em lugar da felicidade pura, acaba num parque de diversões em Gotham City. Não à toa, Carnival é um dos destaques, com seu arranjo a là carrousel e vocais distorcidos, que aparentemente aludem à essa descoberta de fé, mas nada tão simples quanto uma música crente. Sim, Enigk usa religião como inspiração para esse álbum, mas é tudo tão sutil e tão equilibrado, que podemos interpretar de múltiplas formas. O que dizer de “the lines made me perfect and came then/the light gave me dark/threw myself in your door/why you stage at me/windows high”? Pode representar o encontro com a Palavra ou com uma mulher. Ou nada disso.

Os pequenos momentos reflexivos também existem em abundância. Em Shade and The Black Hat, por exemplo, um violão é delicadamente acompanhado por piano e um quarteto de cordas, sem em nenhum momento parecer algo arrastado e pseudo-romântico. Não há espaço para esses joguinhos, para a balada fácil. O tempo todo os arranjos surpreendem, seja na criação do clima soturno, seja na busca do momento delicado. Call Me Steam é um dos mais belos usos de orquestra de câmara que já ouvi numa canção pop. É uma verdadeira jóia perdida de 2:49.

A composição de Enigk também deve ser aplaudida: não há nada fácil ou óbvio nas 10 faixas. As letras são verdadeiras preciosidades, não há o refrão/verso, nem o gancho, nem o riff. E ainda assim, você ouve e não tem como esquecer. Vejamos a letra de Abigail Anne: “open eyes to see it all/I’ve known you at six feet tall/no time to see where you’ll drift abigail/wait for me”. E aqui vai o vídeo, mas cujo final foi editado (no CD, há um belíssimo arranjo com a orquestra completa, ao estilo A Day in The Life):

O álbum termina com Fallen Heart, tocada inteira ao contrário, inclusive vocais, mas de forma estudada – parecendo que está gravada com a melodia certa. Não é o jeito mais óbvio de se terminar o álbum – inclusive não há nada além de um violão e um baixo acústico e um delicado arranjo em cordas que surge como uma brisa e some sem conclusão. É o final dessa obra prima, e não se há dúvida que é um dos melhores álbuns da década de 1990. Como sintetizou o ótimo crítico Jack Rabid na época, “uau”.

Recomendado para quem gosta de: Radiohead, The Zombies, The Left Banke, chamber pop

Written by Amaral

February 6th, 2010 at 1:27 am

A cena de Birmingham, através do universo paralelo de Roy Wood e Jeff Lynne II

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Já falamos sobre Roy Wood e The Move em outro post. Mas e o Idle Race?

Era necessário um capítulo à parte para The Idle Race, grupo ainda mais desconhecido que o Move. Formado das cinzas da primeira banda de Roy Wood, que era seu guitarrista, o Mike Sheridan & The Nightriders era formado por Mike Sheridan (ex-Dakotas, ex-Checkers) nos vocais, Brian Cope no baixo, Dave Pritchard (ex-Planets) na guitarra rítmica e Roger Spencer (ex-Hound Dogs) na bateria. Com a saída de Wood e entrada de Jeff Lynne, gravam alguns singles pela Pye como Nightriders, que deram em nada.

Com uma mudança de direção e a ascenção de Lynne como compositor, mudaram de nome para The Idyll Race e, depois, The Idle Race. Assinando com o selo Liberty (parte da EMI), gravam uma cover do Move: (Here We Go Round) The Lemon Tree. Mas com a versão original ainda em alta rotação, acabaram optando por rapidamente lançar um segundo single. Este seria o excelente Impostors of Life’s Magazine, um psychpop esquisito, divertido, com múltiplos “pedaços” e produção intrincada, que se torna um cult favorite imediato, já que não vendeu nada por problemas de promoção. Impostors tem de tudo: English Hall, soul, freakbeat, rock, folk… Não à toa, entrou na caixa do Nuggets II: Original Artyfacts From The British Empire And Beyond.

Em 1968, sai The Birthday Party (teríamos aí uma conexão com Nick Cave?), álbum que teria uma das primeiras capas duplas do rock (claro, depois de Sgt. Pepper’s) e um poster central com dezenas de músicos numa festa de aniversário. Este é um daqueles clássicos trabalhos que fazem você coçar a cabeça perguntando porque não ouviu isso antes. Ou melhor, porque isso não tocou na época? Talvez a resposta esteja ao escutá-lo: trata-se de um álbum muito inglês. Inglês demais para o público americano. As influências estão por toda parte: Beatles na fase Revolver/Sgt. Pepper’s, Kinks de The Village Green Preservation Society, Small Faces de Ogden’s Nut Gone Flake… Mas com um toque a mais de “briticismo”: nas letras, que em certos momentos são absolutamente inintendíveis para um não-local, e nas nuances excêntricas e divertidas. Roger diz até hoje que se tratava de um álbum do Rupert, o Urso… Foi nesta época que Jeff começa a se apaixonar pela produção. Read the rest of this entry »

A cena de Birmingham, através do universo paralelo de Roy Wood e Jeff Lynne I

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Responda: qual banda inglesa dos anos 60 conseguiu nove Top 20 em 6 anos, sendo um primeiro lugar, produziu 4 álbuns, substituiu o The Who no Marquee Club e continua completamente desconhecida em terras brasileiras? Se você respondeu, é um dos raros que conhecem o Move, um dos mais interessantes sub-produtos do mod e psychedelic rock inglês. Originalmente de Birmingham (noroeste de Londres), cidade que também geraria o Moody Blues, The Idle Race e Denny Laine, um outro importante desconhecido, que foi um dos criadores do “baroque” rock e seria a outra metade do Wings de Paul McCartney. História esta que merecerá um futuro texto.

Formado em 1966 por Bev Bevan, Carl Wayne, Chris “Ace” Kefford (Carl Wayne & the Vikings), Roy Wood (The Nightriders) e Trevor Burton (Danny King & The Mayfair Set), começaram como uma banda de covers, principalmente de R&B e soul music, cantada em 4 ou 5 vozes, mas com aquele típico punch das bandas mod. Aos poucos, com a ascenção de Roy Wood à liderança da banda, passaram a compor seu próprio repertório. Foram, então, contratados pelo svengali Tony Secunda (que já cuidava do Moody Blues e do The Action). Foi ele o grande responsável por relocá-los a Londres e assegurá-los um lugar no histórico Marquee Club, a ex-casa do Who. Mas também era expert em criar factóides e gerar barulho – aliás, com o outros tantos naqueles anos. Entre outras, mandou um postal com a montagem de uma foto do primeiro-ministro inglês nu para promover um single, à revelia da banda, causando um pequeno furor (e causando ao Move a perda dos direitos autorais do single até hoje também). Também vinha dele boa parte das idéias para os shows, marcantes pelas loucuras e pelo espetáculo visual da banda. Destruiam carros ao vivo, usavam roupas mais extravagantes que os Beatles de Sgt. Pepper’s, estouravam alarmes nos clubes para que os bombeiros aparecessem durante a canção Blackberry Way, quebravam aparelhos de TV com um machado no meio do público, que se ralava inteiro, entre outras bobagens. Roy Wood não era muito fã disto, sendo um verdadeiro freak bigodudo, e talvez um dos mais reclusos líderes de banda de então. Tanto é que Carl Wayne, vocalista, era considerado o porta-voz para a imprensa – apesar de Wood ser o compositor. Se por um lado, estes esquemas de marketing funcionavam no curto prozo, acabou machucando a percepção de muitos sobre a qualidade da banda, isto sim inquestionável.

O Move era uma banda de singles: seu primeiro álbum só foi lançado em 1968, e era quase que uma coletânea destes. Seu primeiro single, Night of Fear, que chupa o riff da Overture 1812 de Tchaikovsky, chega a segundo lugar nas paradas inglesas em janeiro de 67. Apesar de um grande gancho pop, não era ainda o som típico da banda. O lado B, The Disturbance, contudo, acaba sendo mais representativo da mente de Roy Wood: aliás, se passa num hospital psiquiátrico. Tinham o punch de um Small Faces, a coesão de um Who, mas com um sotaque ainda mais inglês, mais florido (pela ampla influência do som da Costa Oeste americana – Byrds e Love, especialmente) e, principalmente, mais melancólico. O sensacional clássico psicodélico I Can Hear The Grass Grow veio em seguida, com uma daquelas letras nonsense que só ingleses em 1967 poderiam fazer. Enfiaram mais uma seqüência de hit singles. Flower In The Rain, que pode ser colocada junto a Waterloo Sunset (Kinks) e Itchicoo Park (Small Faces), como as mais representativas canções do flower pop britânico. Cherry Blossom Clinic, o single seguinte, foi vetado pela gravadora depois da série de problemas legais, pois tratava também de uma clínica mental e acabou sendo lançado só em 1969 no segundo álbum. Seu melhor momento até então foi (Here We Go Round) The Lemon Tree, obra-prima psychpop que imediatamente virou nome de banda e cover de um importante grupo que já falaremos: o Idle Race. Fire Brigade, pop irresistível, de riff chicletão, e Blackberry Way, um clássico, uma espécie de marcha-rock com um refrão majestoso, imponente, fecham esta primeira fase. Read the rest of this entry »

Os críticos: uma visão crítica

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Uma entrevista e um texto com a crítica musical brasileira – realizada em 1998 por Rodrigo, Ricardo e Renato

Uma das instituições mais criticadas no Brasil e no mundo é a própria “instituição” que normalmente é responsável por esta tarefa: os críticos. Se considerarmos que a música não é exatamente um quesito muito lógico ou racional, a validade dos críticos musicais passa a ser ainda mais questionada. Por isso, fomos saber o que se passava na cabeça de algum dos críticos musicais de importantes veículos nacionais, através de algumas perguntas genéricas. Eram eles Marcel Plasse, do Estado de São Paulo, Pedro Alexandre Sanches, da Folha de São Paulo e Celso Masson, da Revista Veja. Nossa intenção foi deixá-los à vontade para responderem o que quisessem, sem qualquer interpelação. É interessante também notar como suas respostas envelheceram nestes anos entre a primeira publicação, em 1998, e hoje em dia. Estas foram suas respostas.

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Ícones Influentes da Cultura Brasileira IV – Que Fim Levou Robin?

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Que Fim Levou Robin? – nos perguntava Mauro Borges e sua trupe que revolucionou a música brasileira moderna do século XX. A primeira banda atitudinal do pop brasileiro e, até por isso, mudou tudo: antes deles, quem ousaria tanto? Sim, é verdade que tivemos bandas que cujo visual era quase tão importante quanto o que produziam musicalmente (como o Secos e Molhados e a segunda banda hippie do mundo, o Novos Baianos – a primeira morreu com o cérebro frito).

Mas Mauro Borges nos deu o pacote completo: sandálias, polainas, muita maquiagem, muito glitter, muita diversão e o vazio existencial do glamour da moda. As letras falavam do chamado “mundinho” e geralmente davam margem a grandes idéias sociológicas, como “Aqui Não Tem Chanel” e “Fashion”, normalmente repetidas 300 vezes para melhor compreensão. Se tivesse ficado nisso, já seria incrível. Mas não. Há sites que inclusive os colocam como “pioneiros da cena rave nacional”, por terem tocado abrindo para o Inner Circle e Madonna. Eles foram muito longe e muito além do que pensavam poder chegar. É pena que o Italo House não os descobriu a tempo, afinal o OFLR surgiu uns 4 anos depois que a cena já tinha acabado.

Mas o rastro de importância deles permaneceu imbuído e embebido, em especial na cena indie brasileira. A idéia de que uma banda pode ser só uma banda de atitude marcou profundamente a nova cena nacional. O Cansei de Ser Sexy é um bom exemplo. Sua vocalista é conhecida por parecer permanentemente de TPM e de saco cheio de estar numa banda. Todos os músicos parecem muito mais preocupados em usar uma roupa que os façam parecer desencanados do que efetivamente em produzir algo musical, porque no fundo, isso é irrelevante. E isso é o máximo! Porque é a atitude que nós compramos, não o conteúdo.

Veja o caso do Copacabana Club, o CSS do James Bar de Curitiba. Querem prova maior de que style é o novo rock? Com o hip-hop sendo o gênero musical hoje mais vendido no mundo, resta ao “rock/pop” se reinventar e isso passa pelo visual. E é essa a cara do rock dos novo século: o visual se tornou 100% mais importante que o conteúdo, assim como no hip-hop mainstream. De nada adiantou a era dos anos 1990, que serviram para sepultar o rock farofa e as mega-produções. Hoje a era é dos manos de Cadillac e dos indies poseurs, a variante Poison dos alternativos.

Written by Amaral

July 22nd, 2009 at 3:51 pm